Angola: Les jeux sont faits

  • Paulo Gorjão
  • 16 Novembro 2017

A decisão de exonerar Isabel dos Santos e de romper com José Eduardo dos Santos poderá ter sido o momento que marcará o destino político de João Lourenço.

O Presidente angolano, João Lourenço, exonerou Isabel dos Santos do cargo de presidente do conselho de administração da Sonangol, nomeando para o seu lugar Carlos Saturnino. Recorde-se que Isabel dos Santos ainda há poucos dias tinha sido recebida, na qualidade de presidente da Sonangol, pelo ministro dos Recursos Minerais e Petróleos, Diamantino Azevedo, no que constituiu um sinal de que a Sonangol, ao contrário do que ocorrera em diversas empresas públicas angolanas no último mês e meio, poderia escapar à razia de exonerações em curso.

Desde que tomou posse em finais de Setembro, João Lourenço enfrentou inúmeras pressões públicas — e possivelmente privadas — para exonerar os filhos do anterior Presidente, José Eduardo dos Santos, dos cargos que ocupavam em várias empresas públicas angolanas.

Num gesto politicamente relevante e simbólico, João Lourenço poderia ter começado precisamente por o fazer. O facto de não o ter feito de imediato indicia que, neste último mês e meio, o Presidente angolano pesou os argumentos a favor e contra, hesitou até determinada altura, mas depois acabou por ceder, de algum modo, à pressão política em curso, consolidando deste modo um determinado rumo.
João Lourenço não justificou a exoneração, aliás não tinha de o fazer. Mas como aqui escrevi recentemente, pensar que o Presidente angolano e Isabel dos Santos poderiam estar desalinhados nos objectivos de reestruturação da maior e mais importante empresa angolana não tinha qualquer fundamento.

João Lourenço é o primeiro interessado na revitalização da Sonangol e o primeiro beneficiário desse processo de reestruturação do grande pulmão da economia angolana. Por outras palavras, a exoneração de Isabel dos Santos não correspondeu certamente a qualquer avaliação negativa sobre a sua gestão da empresa, mas decorreu, muito simplesmente, de uma opção e de um cálculo político.

Com o intuito de se afirmar politicamente e de definir o seu espaço de manobra, o Presidente angolano parece ter optado por romper com o statu quo. Será mesmo assim? Veremos a seu tempo se, como diz o príncipe de Falconeri no romance O Leopardo, tudo deve mudar para que tudo fique como está, ou se realmente a mudança terá outro alcance.

Numa entrevista concedida à agência Efe, em Agosto, citada pelo Jornal de Negócios, João Lourenço confessava que a partir do momento em que tomasse posse como Presidente preferia ser um reformador como Deng Xiaoping e não como Mikhail Gorbachev. Na verdade, o próprio Gorbachev muito possivelmente teria preferido não ter sido igual a Gorbachev, tendo em conta a forma como terminou a sua passagem pelo poder executivo.

Independentemente das preferências de João Lourenço, o que importa perceber, tão rápido quanto possível, é se as circunstâncias lhe serão ou não favoráveis e por essa via com qual dos dois, Deng Xiaoping ou Mikhail Gorbachev, o seu destino acabará por se assemelhar.

Para o bem ou para o mal, a decisão de exonerar Isabel dos Santos e de romper com José Eduardo dos Santos — que ainda é o presidente do MPLA, importa lembrar — poderá ter sido o momento que marcará o destino político de João Lourenço. Muito claramente, o novo Presidente optou por uma via de ruptura política. Não é de todo seguro que tivesse de o fazer. Trata-se de uma longa discussão e que excede o âmbito e a dimensão deste artigo. Pouco importa, na verdade.

As linhas estão traçadas e não há volta a dar. Vamos ver, a partir de agora, se a contagem de espingardas estava certa, ou se alguém deu um passo maior do que a perna.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  • Paulo Gorjão
  • Convidado

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