Ao espaço político não socialista sugere-se mais prudênciapremium

É cedo para declarar o óbito à governação socialista e é ainda mais precipitado começar a festejar o regresso da direita ao Governo.

Após o chumbo do Orçamento do Estado (OE), a direita apressou-se a festejar o suposto fim da geringonça. Percebo, partilho do entusiasmo, mas recomendaria que refreassem um pouco os ânimos. É cedo para declarar o óbito à governação socialista e é ainda mais precipitado começar a festejar o regresso da direita ao governo. Além disso, os últimos meses têm sido pródigos em surpresas políticas. Poucos acreditavam que Moedas conquistasse a Câmara Municipal de Lisboa e muitos pensavam que esta crise à esquerda em torno do OE não passaria de mais um golpe de teatro, que já estávamos habituados a assistir nos últimos anos. Os momentos que vivemos sugerem cautela. Vejamos:

  1. Ainda não devemos dar como certa a dissolução da Assembleia da República. É verdade que essa intenção foi declarada por Marcelo Rebelo de Sousa, mais que uma vez, caso o OE fosse chumbado, e dificilmente fugirá à sua palavra. Contudo, também sabemos, e o próprio Presidente da República já demonstrou, que tudo fará para evitar eleições, um cenário que não o entusiasma. Haverá algum coelho da cartola que ele queira tirar à última hora? Dará a oportunidade ao Governo para apresentar um novo Orçamento do Estado? Deixará António Costa a governar em duodécimos?
  2. Provavelmente, as eleições mudarão pouco a geometria atual do parlamento. O PS poderá voltar a vencer, formando com a restante esquerda (aqui incluo o PAN, naturalmente) uma maioria absoluta. Um cenário provável que arrastaria uma situação de difícil governabilidade: se os mesmos atores (António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa) não se entenderam em torno do OE 2022, dificilmente se voltarão a entender, ainda mais após eleições legislativas onde cada um destes tentará culpar os restantes parceiros do chumbo do OE.
  3. Ainda que improvável, o PS até poderá sair reforçado nas próximas eleições. Os votos que perdem para o PSD, podem ser compensados pelo aumento do voto útil à esquerda, vindo de quem atribui ao BE e PCP a responsabilidade da queda da geringonça. Um PS mais forte teria outras condições de negociação e de se manter no governo.
  4. O contexto atual poderá dar força à ala mais radical do PS: Pedro Nuno Santos. Enquanto foi este o protagonista das negociações à esquerda, assegurou a estabilidade da aliança tripartida. Mesmo a contra gosto, seria António Costa capaz de voltar a dar-lhe o palco das negociações e ressuscitar a geringonça? E, mesmo que isso não aconteça, Pedro Nuno Santos (e a ala que representa) sairá reforçado desta crise junto da esquerda, uma má notícia para quem luta contra a hegemonia socialista, e, sobretudo, contra os fanatismos ideológicos desta fação mais radical, tão avessa à iniciativa privada e à economia de mercado.
  5. Ainda que o PSD surpreenda e vença as eleições, dificilmente a direita terá maioria absoluta, pelo que a constituição de um governo não socialista poderá ser bastante dificultada. A não ser que tenhamos uma grande surpresa...
  6. A sobreposição das legislativas com as eleições internas de dois partidos à direita irá desgastar os respetivos vencedores. Enquanto Rui Rio veste a pele de coelhinho mansinho na oposição ao PS, nas lutas internas do PSD transforma-se num animal feroz. Rangel até poderá vencer, mas sem que antes Rui Rio o tente cilindrar e descredibilizar em toda a linha. Um marketing pré-legislativas pouco atrativo para Rangel. Quanto ao CDS... bem, o cenário é ainda mais desanimador.
  7. Apenas dois partidos serão claramente vencedores nas próximas eleições: Chega e IL. Se, por um lado, o crescimento da IL será positivo para o espaço não socialista, por outro, o crescimento do Chega condicionará o regresso (e a estabilidade) da direita democrática ao governo. Para o Chega, o cenário é perfeito para ir a legislativas, irá capitalizar mais do que nunca o atual contexto político: a esquerda esgotada que não se entende e não consegue governar; o maior partido da oposição que não encontra estabilidade e que continua a lavar roupa suja em público; o CDS que está em processo de decadência; e, por cima disto tudo, virá a narrativa antissistema do Chega, demonstrando que todas as soluções do “sistema” fracassaram, a única solução viável será o seu crescimento.
  8. António Costa é o mais hábil e inteligente político da atualidade. Podemos conjeturar vários cenários, mas provavelmente o próprio já avaliou todas essas hipóteses e mais algumas. Veremos se não seremos surpreendidos por mais algum golpe de magia de António Costa. Paralelamente, ainda paira a hipótese do atual primeiro-ministro mudar-se de malas e bagagens para algum cargo europeu, que lhe é tão apetecível, o que baralharia ainda mais as contas.

Sejamos prudentes. Esta novela ainda agora começou e será difícil antecipar o seu desfecho.

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