As Autárquicas e o bazuquismopremium

O Portugal Municipal está colonizado pelo Portugal Central feito Metrópole. De Lisboa partem as indicações para os grandes empreendimentos faraónicos, as indicações e os fundos da “Bazuca”.

Não há memória de Autárquicas tão desgraçadas. A pobreza da campanha rebenta os poros dos portugueses mais tolerantes. O inferno dos argumentos primários cobre todo o País com o nevoeiro cinzento da propaganda. Os partidos, todos os partidos, representam sempre o mesmo papel, ora na governação, ora na oposição. E o circo colorido não tem graça, nem sentido, nem política. A campanha é um insulto à inteligência dos portugueses, uma guerra de claques acompanhada pela música grosseira e por uma alegria sempre triste e sempre falsa. Os portugueses merecem mais respeito e no fim não podem nem devem ganhar todos os partidos. A vitória de todos representa a derrota do País.

Pelo discurso dos partidos, Portugal é composto por duas camadas suspensas no éter da política – o País Local e o País Nacional. A campanha começou no País Local com as discussões, as dissidências, os conflitos entre a rotunda e o parque infantil para felicidade dos cidadãos, glória do conselho e acesso à farmácia. Quem procurou a presença da descentralização, da desconcentração, da regionalização, encontrou uma parede cega e surda porque os problemas são sempre entendidos de acordo com a lógica microscópica da dimensão local. O que não deixa de ser fantástico é que Portugal revela-se como um arquipélago de conselhos contíguos que na soma final convergem na definição da geografia nacional. Não há uma ideia de identidade nacional, não há o sentido de pertença a uma comunidade maior, todos são portugueses adjectivados de Norte a Sul. É o retrato de um País ao retalho pelas Câmaras.

A campanha evolui depois para uma dimensão nacional, partidária, europeia, repleta de personagens nacionais em digressão política pelo País Real. As Autárquicas tornam-se então numa extensão da política nacional, transformam-se na paródia patética de um Primeiro-Ministro em digressão triunfal e de um Líder da Oposição em cortejo fúnebre em passo de procissão. As personagens nacionais arrastam as televisões que tornam as eleições locais numa autêntica novela mexicana em que o enredo do sucesso político defronta a traição do fracasso político.

Este paradoxo é uma espécie de esquizofrenia recorrente num pequeno País em que tudo o que politicamente acontece ou é Local ou é Nacional. E na dúvida, feitos todos os cálculos, os líderes locais parecem sempre os representantes civis do grande líder nacional. Este é o vício estrutural de um País centralista na mentalidade política e centralista na distribuição dos meios, o centralismo que serve de resolução estrutural para o problema da identidade e da coesão nacionais. Esta afirmação é escrita sem melancolias, irritação ou revolta, talvez e somente motivada por uma pertença residual que ainda liga o cronista à realidade nacional.

É neste cenário que entra de rompante o Primeiro-Ministro. Ao bom estilo de um caudilho da América Latina, o Secretário-Geral do PS percorre o País de costa a costa, do Minho ao Algarve, Madeira e Açores, para espalhar a boa nova do Plano de Recuperação e Resiliência, a última oportunidade para a salvação nacional, para o desenvolvimento, para a modernização de Portugal. Subitamente, a dimensão local é o espelho tímido da ambição nacional de um homem providencial, dono do Governo, dono dos Fundos, dono dos portugueses, dono de Portugal. A campanha em tom de uma nota só promete uma “revolução tranquila”, promete a Lua e os seus satélites, trata os portugueses como idiotas e a Oposição como uma formalidade democrática. É claro que a Oposição é o cavaleiro da triste figura, mas nesta campanha nenhum esforço foi feito para manter as aparências.

O Primeiro-Ministro com gravata e o Secretário-Geral sem gravata, fazem uma campanha autárquica a aliciar os portugueses para os amanhãs que cantam, a aliciar o PCP para a campanha do Orçamento, a convencer o Bloco para a convergência estratégica, e sobretudo a demonstrar a sua determinação pessoal, a sua impunidade política, a sua dimensão na Europa que viabiliza a disponibilização de Mundos & Fundos para a construção do Portugal do Futuro. E o Portugal do Futuro tem a assinatura de Costa e só de Costa. Ámen.

Cada Município é um Pavilhão Multiusos, uma Gare do Oriente, a vitrina luxuosa de um País inacabado. Que importa a desordem urbanística, o trânsito caótico da nova mobilidade, o lixo, o preço da habitação, a transformação das grandes cidades em zonas livres de recreio para inglês ver, mas não para português viver, pela simples aplicação sem escrúpulos de um novo “fachadismo” modernizador; que importa a transição climática e digital transformadas em slogans vazios enquanto os transportes públicos minimalistas e sem qualidade oscilam entre o centro da cidade-turística e a periferia da cidade-dormitório. Vê-se em quem se vota, mas não se vê no que se vota.

O Portugal Municipal está colonizado pelo Portugal Central feito Metrópole. De Lisboa partem as indicações para os grandes empreendimentos faraónicos, as indicações e os fundos da “Bazuca”. O vazio e a vulgaridade da palavra são ofensivos, mas o Primeiro-Ministro assume-se como o criador da nova ideologia patriótica e nacional – o Bazuquismo. E quem não concorda não é bom português. Que o voto lhe seja leve.

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