As mentalidades por decreto

Num futuro suficientemente próximo, dificilmente se poderá passar para novas formas de trabalho, com menos custos para o empregador, com mais liberdade para quem trabalha.

Há uns dias, foi notícia que em Portugal se trabalha mais horas que em vários outros países da União Europeia. A conclusão surge num estudo do Observatório das Desigualdades do ISCTE, “Mercado de trabalho em Portugal e nos países europeus”, que eu não li em virtude de não o ter encontrado. Mas o resultado não me espanta.

A este propósito, escreveu o Paulo Ferreira um artigo onde menciona alguns dos factores (são muitos) que explicam o nosso problema de produtividade – sim, se trabalhamos mais, mas produzimos menos, é porque o temos. Com o eloquente título “Demasiada transpiração, tão pouca organização”, as questões culturais não foram esquecidas. Escreve Paulo Ferreira que existe uma confusão entre estar no local de trabalho e trabalhar, sendo que patrões e chefes valorizam mais o primeiro aspecto, o que oferece péssimos estímulos e incentivos aos trabalhadores, aos quais eles respondem. Lembrei-me logo do Adérito, personagem do Gato Fedorento. E, depois, veio-me à memória aquele outro sketch deles em que duas velhinhas competem para ver quem tem mais doenças: pensei que a versão com duas pessoas em idade activa se faria de uma luta para ser o último a deixar o escritório.

Com esta pressão social para cultivarmos a aparência de que trabalhamos muito, conciliar as vidas profissional e familiar é coisa que nos conduz ao consumo de fluoxetina. Há umas semanas, escrevia sobre como isso se relaciona com a nossa baixa taxa de fecundidade e com a forma como estamos a educar as nossas crianças. Perguntaram-me por soluções.

Em 2015, o código do trabalho foi alterado de modo a dar a possibilidade aos pais de crianças até aos 3 anos de exercer a actividade profissional a partir de casa, desde que a entidade patronal tenha meios para tal e que a função se preste a isso. Desconheço quantos pedidos (a que o empregador não se pode opor) foram feitos neste âmbito e é até possível que a lei não tenha conhecido a respectiva regulamentação. Mas suspeito que não são muitos os pais a gozar desta hipótese.

No mundo digitalmente revolucionado em que vivemos, parece ser relativamente fácil passar as tarefas que actualmente realizamos num escritório para um qualquer outro lugar que achássemos mais aprazível. É uma realidade noutros países, onde várias empresas não teriam lugar para os seus colaboradores acaso eles decidissem aparecer todos ao mesmo tempo. Empresas essas que conseguem desta forma poupar num série de custos, desde logo no associado à dimensão das suas instalações. E, segundo testemunhou David Neeleman, que tinha nos EUA cerca de 400 trabalhadores da JetBlue em homesourcing, estas pessoas estavam mais motivadas, eram mais leais e menos propensas a conflitos laborais, o que as tornava 30% mais produtivas. Infelizmente, não me consta que tenha trazido esta ideia para a TAP.

E eu percebo que em Portugal esta solução seja difícil de adoptar. À já referida preocupação com as aparências e com a ideia amplamente firmada de que, se não se põe o pé de fora de casa, não se está a trabalhar (ainda que o trabalho apareça feito), soma-se um problema de organização. Permitir que as funções sejam executadas onde bem aprouver ao trabalhador implica ter uma agenda de trabalho bem definida, em que se sabe com alguma exactidão quando é que a sua presença física nas instalações é requerida, porque há vezes em que o é. Ora, os portugueses são mais conhecidos pelas suas competências no improviso, o que é capaz de explicar que não se dediquem tanto à parte de planear.

Por outro lado, exige-se confiança. Há uns anos, estive presente na conferência “Para uma Reforma Abrangente da Organização e Gestão do Sector Público”, uma iniciativa conjunta do Banco de Portugal, do Conselho das Finanças Públicas e da Fundação Calouste Gulbenkian que pretendeu debater como poderia a Administração Pública tornar-se mais eficiente (não confundir com reforma do Estado, que é um conceito distinto). Confiança foi um ingrediente que surgiu em várias das apresentações como essencial. E é coisa que nos falta: os agentes portugueses não confiam uns nos outros. Quando se vive na lógica do ver-quem-engana-mais-o-próximo, os empregadores, que acham que os trabalhadores procuram ser o mais preguiçoso possível, tenderão a não querer perdê-los de vista.

E, por falar em sector público, em Janeiro, uma portaria veio renovar o Sistema de Incentivos à Eficiência da Despesa Pública, através do qual os funcionários públicos são convidados a apresentar as suas propostas para promover poupanças no Estado. Curiosamente, um dos incentivos não financeiros à sua criatividade é o aumento do recurso ao teletrabalho, ou seja, o “prémio” é, em si, aquilo que considero uma ideia a premiar.

Leis e portarias à parte, e apesar de ser uma optimista confessa, tenho pouca esperança que, num futuro suficientemente próximo, se possa passar para novas formas de trabalho, com menos custos para o empregador, com mais liberdade para quem trabalha. As mentalidades não mudam instantaneamente por decreto.

Nota: Vera Gouveia Barros escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

Disclaimer: As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente a sua autora.

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