Atenção! Para Costa não são favas contadas

Dei por mim a procurar as sondagens de 2015, a 8 meses das legislativas. Surpresa: estava tudo como está agora. Costa pode estar a caminho do pior cenário: ganhar, desta vez, mas ficar sem PCP e BE.

1.
Dei por mim a procurar as sondagens de fevereiro de 2015, porque me lembrei subitamente como todos achávamos que aquelas legislativas eram favas contadas para o PS.

Costa tinha sido eleito com a aura de candidato certo, depois de apoucar o resultado das legislativas de António José Seguro. E, sim, em Fevereiro estava ainda a subir nas sondagens: tinha, em média, 37,4% (precisamente com as sondagens publicadas a 21 de Fevereiro de 2015). Hoje, Costa já primeiro-ministro tem uma média de 38% nas sondagens publicadas. A diferença? É que está a descer – como mostra o post que o Pedro Magalhães publicou há poucos dias.

Para ponto de partida para as duas eleições que ai vêm, não é brilhante. Sobretudo se nos lembrarmos como, a partir de julho de 2015, o PS desceu abruptamente, até perder as eleições para Passos e para a coligação de direita (claro, sabemos como acabou, mas perdeu muito terreno).

2.
Não tenho grandes dúvidas – acho que nenhum de nós tem – de que a situação económica influencia decisivamente os resultados das eleições. A dúvida é se é a situação económica per si, ou se a perceção da situação económica.

O exemplo de Passos em 2015 é, nessa perspetiva, interessante de analisar: a economia começou a crescer em 2014, tenuemente. E em 2015 mais robustamente, mas com um travão no último trimestre, quando as legislativas aconteceram. Os resultados daquelas legislativas mostram-nos que Passos ganhou mais com a perceção do que com o que, naquele momento, estava a acontecer.

Acontece que (e volto a citar o Pedro Magalhães, a quem agradeço sempre a inteligência e os dados), “de março para novembro de 2018, primeira vez (pelo menos desde 2015) que, no Eurobarómetro, há evolução negativa na avaliação da situação da economia portuguesa, da economia europeia, nas expectativas sobre situação financeira doméstica e na satisfação com o funcionamento da democracia”. Eu podia acrescentar que a confiança dos consumidores, segundo o INE, também cai – o que atesta alguma credibilidade aos dados vindos de Bruxelas.

Os dados estão no portal Pop, da Fundação Francisco Manuel dos Santos. E até nos dizem mais: que a satisfação com o Governo caiu muito desde há um ano (12 pontos percentuais, de acordo com o Eurobarómetro), tal como a confiança no Parlamento, onde a esquerda é maioritária: 11 pontos neste último ano.

Talvez não seja, por isso, coincidência, que PS, Bloco e CDU estejam, também, em queda nas sondagens há 9 meses consecutivos. Recordo: faltam oito meses ainda para as legislativas.

3.
Pelo meio vêm as europeias. E as europeias são sempre um teste duro a quem governa (neste caso, o PS). Só para perceber o quanto: desde 1999, há 20 anos, que um partido no poder não consegue ganhá-las. Barroso perdeu-as, Sócrates perdeu-as, Passos perdeu-as.

Sim, Costa pode agora ganhar. Mas já pôs a fasquia baixinha: para ganhar basta ter melhor resultado que em 2015, disse ele esta semana. Na altura, era “poucochinho”. Mas Costa sabe bem que mais um voto do que “poucochinho” não é, decididamente, “muitochinho”. Não se quiser ganhar bem as legislativas que se seguem cinco meses depois.

E, como diz o Ricardo Costa no Expresso, as europeias são eleições em que – não se disputando o Governo -, os eleitores votam mais por protesto, beneficiando sobretudo nos pequenos e novos partidos.

E agora acrescento eu: nas europeias votam muito poucas pessoas (a abstenção foi de 65% em 2015). Pelo que votam sobretudo as mais fiéis à participação política e a cada um dos partidos. Caso não tenha percebido, foi por isso que o CDS fez esta censura ao Governo: para mobilizar os seus fiéis e os anti-Costa para o lado centrista. Daí a insistência de Assunção Cristas na disputa do título de “quem é mais opositora de Costa”.

4.
Acontece que, desde outubro/novembro de 2015, as legislativas passaram a ser (quase) como as europeias. Porquê? Porque fazendo a geringonça. António Costa deu um tiro que feriu seriamente o voto útil. Porque se agora já não conta quem ganha as eleições para governar, só conta quem forma uma maioria, os indecisos (portanto, menos fiéis a cada partido) já não têm incentivos eleitorais para mudar o seu voto para garantir a governabilidade.

Traduzo: quem votou Bloco e PCP não terá, à partida, razões para votar PS, porque parte da expectativa de que estes continuem a influenciar a governação socialista – à esquerda.

5.
Racionalmente, o que aconteceu nestes três anos só reforça essa tendência. Ora pense comigo: se alguém votou Bloco ou PCP em 2015 foi porque achou que o PS não era suficientemente à esquerda. E, nesse caso, só tem razões para estar contente com a legislatura atual. Assim sendo, votará PS em outubro porquê? À esquerda, em teoria, Costa não irá buscar muitos votos. Resta-lhe o centro – ir buscá-los ao PSD.

6.
Nesta fase, relembro o dado que lhe deixei no início: o PS de Costa está hoje, nas sondagens, como em 2015. E, vale a pena acrescentar, a direita também: o que o PSD perdeu, o CDS ganhou.

Sabendo disto, sabendo o que aconteceu então, António Costa posicionou o PS desde há mais de um ano: agora, o PS é de contas certas.

Acontece que, tal como Passos em 2015, não se vê no PS de hoje mais programa do que esse. O que é mais de esquerda, para já, vem a empurrão dos parceiros – BE e PCP.

Assim, Costa parece cada vez mais como Passos naquela altura: sem grandes bandeiras de sobra, agarrado ao défice controlado. A Passos, deu para ganhar, mas não deu para crescer.

A incógnita é se o programa eleitoral traz surpresas. E se a contenção Centeno – e o realismo que daí vem – traz votos suficientes do PSD para compensar os que se podem perder para a esquerda.

7.
Convém, nesta altura, lembrar que as perspetivas económicas são de abrandamento. E que o sentimento dos portugueses é de que a economia está em queda.

A juntar a isto, temos as greves e as expectativas que Centeno travou. Há mais de 60 carreiras da função pública a reclamar uma revisão (o que implica melhores salários). Há um crescimento ténue dos salários no setor privado. Há mais emprego, é certo, mas muito precário e com baixos rendimentos. E há greves, muitas greves. E braços de ferro que podem acabar mal – a dos enfermeiros parece ter acalmado, mas a ameaça de uma greve às horas extra é, convém sublinhar, uma ameaça a 25% das horas de trabalho no SNS (um crescimento de mais de 50% em 2018).

Daí que, subitamente, António Costa tenha mandado travar as guerras: a Educação vai, afinal, voltar a negociar com a Fenprof (e aposto que com nova proposta do Governo); enquanto Marta Temido já pede novas propostas aos enfermeiros e – mais ainda – recuou no tom de guerra contra os privados da ADSE. Não por causa dos privados, mas por causa dos utentes.

Para Costa, oito meses de guerra com os sindicatos é absolutamente insustentável. Não tenho dúvidas de que tudo fará para negociar a paz, para não perder votos à esquerda. Essa será, aliás, a pauta governativa para os meses que sobram.

8.
Há um fator muito pouco falado, que é importante sublinhar à entrada desta reta eleitoral: António Costa fez uma má campanha eleitoral em 2015. Não tanto pela estratégia, mas pela empatia. Na rua, pelo país real, ele está longe de Soares e até distante do que era José Sócrates.

É claro, o poder ajuda sempre. Mas não é garantia de nada. E segundo as últimas sondagens, a popularidade dele atingiu o nível mais baixo de sempre – é pela primeira vez negativa.

9.
Resta-nos olhar para o PSD, que é a esperança de Costa de ganhar votos face a 2015. E a maior incógnita das eleições que se seguem.

Incógnita é a palavra. Porque o PSD, que passou dois anos em ressaca com Passos e um ano em convulsão com Rui Rio, acalmou depois da última crise interna. E estabilizou a mensagem depois de contratar uma assessoria profissional de comunicação. E também porque as europeias são uma oportunidade: Paulo Rangel é um candidato forte e combativo; e o fim anunciado do partido de Marinho Pinto (que elegeu dois eurodeputados em 2015) dá margem para crescer um pouco face aos péssimos resultados dessas europeias. Se tiver mais jeito e sorte, Rio pode até ganhar com eles um impulso para outubro.

Mas incógnita, pela negativa, porque agora há Santana Lopes e a sua Aliança, para não falar de Ventura e aquele partido de que prefiro nem falar. Junte a tudo isto a separação do CDS, lembre-se como o nosso sistema eleitoral potencia as coligações e prejudica a fragmentação, e logo chegará à conclusão que o ponto de partida é tudo menos favorável.

Também pela negativa, porque o PSD não tem… alternativa. Falta-lhe um programa, falta-lhe uma esperança, falta-lhe (ainda) uma liderança.

Porém, é bom não subestimar. Eu, que já aqui expliquei como vejo em Rui Rio uma espécie de incubadora de discurso populista, não consigo antever como resultará nas urnas este discurso anti-partidos, anti-ideológico, anti-sistema que ele transportou para o PSD. O facto é que, sem a menor distinção programática e sem poder ostentar a bandeira das contas certas (Centeno ficou com esse monopólio), Rio já conseguiu marcar um tom diferente. Um pouco à imagem do que se viu na censura do CDS: ele até votou contra o Governo, mas mostrou desprezo pela velha tática partidária. Se conseguisse ganhar tudo o que lhe falta, sobretudo a consistência, seria um candidato forte. A esta distância, parece duvidoso. Mas…

10.
Dito tudo isto, convém frisar o essencial: a esta distância, com um crescimento económico (apesar de tudo) razoável e com a redistribuição que o orçamento em curso permite, com a direita como está, nada faz prever que António Costa perca as eleições.

Mas – lembre-se disto – ter perdido as legislativas de 2015 foi a principal razão para ter conseguido fazer um mandato inteiro, com a garantia de um apoio fixo, determinado e inabalável dos partidos à sua esquerda. Foi só por isso que, na noite eleitoral, Jerónimo de Sousa lhe abriu as portas a uma geringonça, e foi na sequência disso que o Bloco lhe deu o seu apoio.

A grande incógnita das legislativas que se seguem é se, desta vez, Costa pode conseguir o mesmo apoio fixo, determinado e inabalável, para todos os quatro anos de legislatura, ganhando as eleições (mesmo que por pouco) – e sem o fantasma de Passos e da direita a assombrar as direções do PCP e Bloco.

11.
Acrescente a isto que Marcelo, ao contrário de Cavaco, já deixou claro que não vai exigir nenhum acordo escrito para aceitar um Governo depois de outubro.

Fica, daí, a pergunta: se não tiver acordo escrito, com medidas fixadas; se tiver uma crise económica, se tiver uma vitória curta, quanto tempo aguentará Costa no poder depois de outubro?

Daí o título de hoje, que me parece bastante realista: favas contadas? Não. O que vem aí é bastante imprevisível.

Notas soltas da semana

  • Hard Europe. Passei o início da semana em Bruxelas, a convite da Comissão, perspetivado o que vem aí. Ninguém tem a menor ideia de como evitar um “hard Brexit”, ninguém sabe como formar uma maioria – face à perspetiva de crescimento dos partidos nos extremos; ninguém sabe como vai ser uma Comissão Europeia com os populistas italianos, polacos e húngaros representados; ninguém tem verdadeiramente certezas de como irá a economia, do relançamento do mundo face a Trump, a Putin e a Xi, do impacto da fake news. As próximas europeias, por tudo isto, vão ser mesmo sobre o futuro da Europa. Olhemos pelo lado positivo: ao menos assim discutimos o sítio onde estamos.
  • Good Centeno. Por cá, temos vergonha de elogiar os portugueses quando mostram liderança lá fora (a menos que sejam futebolistas). Mas Centeno, esta semana, deu um passo de gigante na criação de um orçamento económico para a zona euro – já com apoio público da Alemanha. Se lhe correr bem, ainda nos vamos lembrar disto.
  • Ainda a Caixa. Andamos há uma semana atrás do governador do Banco de Portugal, por causa dos créditos (mal) aprovados que levaram o banco público a prejuízos históricos. Mas será que ninguém se pergunta sobre as instruções que o Governo de então deu – ou não deu – às administrações da Caixa daquela altura? Será que ninguém questiona por que razão o acionista nunca definiu um mandato escrito sobre o papel do banco público, nunca definiu o apetite de risco que deveria ter? Ninguém pergunta se o acionista alguma vez se reuniu com o conselho de administração? Se sairmos desta polémica sem respostas e sem uma nova estratégia, vamos tirar alguma lição disto tudo?
  • Ainda Carlos Costa. O governador deu uma entrevista à SIC, para esclarecer a opinião pública sobre o seu papel na CGD, naqueles anos de 2004 a 2006. Passou no primeiro teste, mas ainda terá muito trabalho para passar na comissão de inquérito. Convém lembrar isto: o governador já não vai convencer os críticos. Convém sublinhar também isto: o governador não vai deixar tranquilos os restantes se não tirar conclusões do que diz a auditoria.
  • Ainda a remodelação. O primeiro-ministro fez quase tudo bem: Mariana Vieira da Silva não é a filha de outro ministro, é das pessoas mais qualificadas do PS; Pedro Nuno Santos precisa de experiência de governação; Pedro Marques é, provavelmente, o melhor candidato possível neste cenário – e ainda pode acabar como comissário responsável pelos fundos estruturais. O único erro foi mudar outra vez a orgânica do Governo. São meses que se perdem em papeladas. A oito meses das eleições é um desperdício de tempo.

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