Atentados na Catalunha

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 19 Agosto 2017

A ameaça só pode ser combatida com recurso ao Estado de direito, a uma intensificação da coordenação entre as polícias e os serviços de informações dos Estados da União Europeia.

Os espanhóis voltaram, esta semana, a ser vítimas de um atentado terrorista depois de alguns anos de acalmia e de décadas de intenso esforço das autoridades para combater a ameaça. Espanha foi particularmente visada por este tipo de violência política nas últimas décadas, tendo sido alvo de grupos nacionalistas, marxistas, fascistas, islamistas radicais e até de terrorismo de Estado.

Primeiro, foi o nacionalismo radical da ETA que, entre o fim dos anos 60 e 2011, provocou quase 1.000 mortos e milhares de feridos. Durante a suposta transição “exemplar” (que só pode ser classificada como “exemplar” por comparação com a carnificina que representou a Guerra Civil), entre 1975 e 1982, os atentados levados a cabo por organizações de extrema-direita e de extrema-esquerda foram responsáveis por dezenas de vítimas mortais. Nos anos 80, surgiu o terrorismo de Estado, com os Grupos Anti-terroristas de Libertação – GAL (patrocinados pelo governo de Felipe González) a fazerem uso do mesmo tipo de violência que a ETA utilizava para combater a própria ETA. A 11 de Março de 2004, teve lugar o maior atentado da história espanhola, organizado por uma célula islamista radical. No momento em que o terrorismo nacionalista retrocedia, sem o sustento ideológico e financeiro das lógicas da Guerra Fria, emergia em força outro tipo de radicalismo e Espanha estava, naqueles anos, particularmente exposta à ameaça pela presença das suas tropas num Iraque ocupado por norte-americanos e britânicos.

Este pesado histórico permitiu aos sucessivos governos, às autoridades judiciais e policiais e aos serviços de informações fazer do Estado espanhol um dos mais avançados em matéria de combate ao terrorismo. Nos anos 90, estabeleceu-se um consenso entre os principais partidos políticos nesta matéria, o que, na prática, abriu portas à derrota da ETA. Com a excepção do período posterior ao 11 de Março de 2004, esta lógica tem prevalecido sobre as enormes fracturas que marcam a política espanhola. Os sucessivos governos dotaram as polícias de recursos robustos para prevenir ameaças e o sistema judicial conta com um tribunal central, a Audiencia Nacional, com jurisdição sobre todo o território que centraliza os julgamentos de suspeitos de terrorismo.

Os atentados de Barcelona e de Cambrils colocam novamente os espanhóis no epicentro da actividade do islamismo radical, o que não será surpreendente em função do contexto do país. Com duas cidades no norte de África (autênticos enclaves em território marroquino) e com um território continental carregado de simbolismo histórico (Al-Andalus), Espanha tem sido visada pelo islamismo radical em alguns dos seus escritos e ameaças. No entanto, apesar das complexidades da história e da geografia, a situação espanhola é muito diferente da francesa, na qual o Estado, por activa e por passiva, entrincheirou socialmente grande parte da comunidade muçulmana proveniente de antigas colónias. Essa “guetização” é uma das principais fontes de recrutas que se vêm seduzidos pelos encantos do discurso revanchista do Estado Islâmico. Por aqui também se pode ver que a radicalização de futuros operacionais é muito mais um problema social e interno dos Estados do que uma questão relacionada com vagas migratórias ou com zonas de fronteira.

Em relação aos atentados, pode afirmar-se que assumiram características semelhantes às da vaga mais recente a que temos vindo a assistir, com a utilização de veículos automóveis como arma de arremesso contra cidadãos comuns com o objectivo (sempre presente no terrorismo) de causar o maior impacto mediático possível. Não nos iludamos. Não há qualquer sombra de ética neste tipo de acções: o seu objectivo é (e procurará continuar a ser) causar o maior número de vítimas, preferencialmente anónimas, para que todo e qualquer cidadão se sinta vulnerável cada vez que sai de casa. Nunca é demais dizer que a ameaça só pode ser combatida com recurso ao Estado de direito, a uma intensificação da coordenação entre as polícias e os serviços de informações dos Estados da União Europeia e dos países vizinhos e com políticas sociais e de integração. É que, mais uma vez, foram cidadãos europeus os autores da barbárie.

Nota: Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Presidente da Câmara de Comércio Portugal – Atlântico Sul e professor universitário

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