Banqueiros, jornalistas, taxistas: a mesma luta

A banca começa a passar pelo mesmo que os sectores dos táxis, dos media, dos produtores musicais, das agências de viagens ou dos correios: a tecnologia está a mudar profundamente o seu negócio.

Ouvi este dado pela primeira vez da voz de Paulo Macedo, há cerca de dois meses, no arranque de um ciclo de conferências da Caixa Geral de Depósitos: 70% dos millennials preferem ir ao dentista a ir a um banco.

A banca tem, portanto, um problema para resolver. Se a experiência que a geração que começa a ser dominante — estamos a falar, grosso modo, dos nascidos nos anos 80 e 90, que cresceram já com a tecnologia na ponta dos dedos — associa à ida a um banco é tão má, tudo farão para fugir dela.

Uma busca breve e cheguei a mais alguns resultados do estudo americano citado pelo presidente da Caixa: 33% acreditam que não precisam de um banco para nada, metade diz que os bancos oferecem todos a mesma coisa e, para mim o mais alarmante para o sector, as marcas dos quatro maiores bancos norte-americanos estão entre as 10 menos queridas — ou menos amadas, para ser mais respeitador da tradução inerente ao “love brands” usado pelo marketing — pelos millennials do país.

Os dados são inequívocos. Muito já está a mudar no sector financeiro e na relação que tem com os clientes, mas adivinha-se que estamos ainda no início da revolução.

Não por acaso, a Banking Summit realizada esta semana pela Associação Portuguesa de Bancos e pela SIBS, em Lisboa, reflectiu isso mesmo. Há muitos anos que não assistia a uma conferência sobre a banca onde os pratos fortes não foram a conjuntura económica, o eterno problema do crédito malparado e de como resolvê-lo, os rácios de capital e as severas imposições da regulação, as operações de capitalização em curso, o esmagamento das margens financeiras ou o impacto dos casos de polícia no sector.

E certamente não há muitos fóruns sobre a banca onde as empresas mais citadas são as já eternas suspeitas GAFA – Google, Apple, Facebook e Amazon – e algumas “fintech” (empresas de base tecnológica que actuam na área financeira, como a SIBS ou a PayPal, por exemplo) que vão entrando no negócio do sector.

Temos então a banca com problemas semelhantes aos sectores dos táxis, dos media, dos produtores musicais, das agências de viagens ou dos correios: a tecnologia começa a mudar profundamente o seu negócio, a fazer chegar novos actores que lhe roubam fatias importantes de mercado e, sobretudo, a transferir o poder de opção para os consumidores, que preferem sempre o mais cómodo e conveniente, ainda por cima se for também mais barato e mais rápido.

Mas, para o bem e para o mal, o negócio da banca e a sua importância para as economias não é igual aos outros. Já o soubemos bem nos últimos anos quando, um pouco por todo o lado, os Estados foram socorrendo bancos com o dinheiro dos contribuintes enquanto, ao lado, deixavam cair todo o tipo de empresas: fabricantes automóveis, construtoras civis, companhias de aviação, unidades importantes de indústrias várias.

A especificidade do negócio dos bancos assenta numa questão muito simples: são eles que guardam o nosso dinheiro. É esta função fiduciária que faz toda a diferença e é distintiva das novas empresas que vão entrando no sector: quase todas se colocam no negócio das transferências de dinheiro entre contas bancárias ou nas ferramentas de gestão de finanças pessoais e comparação de produtos, mas não se vê ninguém a querer assumir a guarda do nosso dinheiro.

A razão é óbvia. As grandes chatices dos bancos e com os bancos acontecem precisamente porque eles recebem depósitos. É por isso que estão sujeitos a uma enorme regulação e obrigados a rácios mínimos de capital. E estes são os “ossos” que ninguém quer, até porque o dinheiro que se ganha nesta parte do negócio já conheceu melhores dias.

A importância vital que os bancos têm nas economias também nasce daqui: são eles que transformam as poupanças de cidadãos e empresas em crédito para investimento, fazendo com que a oferta e procura de dinheiro se encontrem.

Não há economias que funcionem bem sem crédito bancário tradicional. Os mercados de capitais, mesmo quando têm dimensão, servem apenas uma parcela pequena das empresas e as novas formas de financiamento de projectos e investimentos através de plataformas de “crowdfunding” têm pouca expressão.

O desafio que todos têm entre mãos está então em manter a função fundamental do sector financeiro de forma sustentável e conveniente para os clientes e com baixo risco para os aforradores.

Porque se é fácil recorrer a uma qualquer aplicação de transferências quando fazemos uma compra online ou enviamos dinheiro para alguém, o certo é que esse dinheiro parte e chega a contas bancárias específicas e seguras.

O primeiro grande desafio é o da regulação. Entre a proibição das inovações para manter o “status quo” e o tudo permitir há um universo de possibilidades que requer inteligência e equilíbrio às autoridades. O que se está a passar com as plataformas que oferecem serviços de transporte urbano — Uber, Cabify ou Taxify, por exemplo — é um bom guia das tentações e forças que estão presentes nestas mudanças: os que estão dentro do negócio querem que os novos actores sejam proibidos de operar e recusam que a lei seja mudada para os acomodar; os novos negócios querem, a todo o custo, evitar ficar sujeitos a regras. É essencial permitir o desenvolvimento das ofertas mais convenientes para os utilizadores mantendo boas condições de concorrência.

Depois, os bancos têm muitas contas a fazer, do lado dos custos e das receitas. É hoje evidente que as estruturas dos bancos tradicionais – número de trabalhadores, rede de balcões, processos internos – estão sobredimensionadas para o que a generalidade dos clientes quer e precisa. Acedemos, cada vez mais, aos bancos através de meios electrónicos. Mas, por um lado, há uma parte importante da população que não dispõe das mesmas capacidades “digitais” e que não pode ser atirada pela “borda fora”.

Por outro lado, as coisas ainda são assim: a quase totalidade dos levantamentos de dinheiro são feitos em caixas Multibanco; a quase totalidade dos depósitos são feitos aos balcões; e uma parte importante das transferências e pagamentos são feitos electronicamente. Portanto, para satisfazer estas procuras dos clientes, os bancos precisam de manter todas as infraestruturas instaladas (e, muitas vezes, duplicadas ou triplicadas) com os custos inerentes.

Isto é sustentável? Depende das receitas que existam para as pagar, obviamente. Com a margem financeira esmagada pelas taxas de juro próximas de zero, o aumento das comissões e cobrança de serviços é o caminho que está a ser seguido. Mas, como percebemos nas últimas semanas, o tema levanta as polémicas habituais. Claro que ninguém gosta de pagar 5 ou 10 euros para manter uma conta bancária, 50 cêntimos por uma transferência ou mais uns euros por um livro de cheques ou por um levantamento de dinheiro ao balcão.

Aqui, o que experiências passadas nos mostram é que a tentação de oferecer aos clientes o que tem um custo é um mau negócio a prazo para todos. Foi isso que os media fizeram com a informação quando as plataformas electrónicas se desenvolveram e os resultados estão à vista: hoje é muito difícil explicar às pessoas que devem pagar para terem notícias e a monetização foi capturada por quem distribui sem produzir informação.

Não é uma equação fácil de resolver, sobretudo quando muitas “fintech” oferecem alguns serviços bancários a um custo muito mais baixo do que os bancos.

Mas não podemos ficar surpreendidos com o emagrecimento continuado das estruturas dos bancos.

Por fim, qualquer lógica de “nós contra eles” — em que o “nós” são os incumbentes e o “eles” são os “geeks” de ténis e t-shirt (desculpem o cliché estafado mas estando a falar de um dos sectores mais formais e engravatado ele torna-se irresistível) — não levará a lado nenhum.

Os sinais que há é que o sector bancário já dobrou essa esquina e está a apostar numa lógica colaborativa e a tentar incorporar nas “velhas” instituições a inovação que é feita externamente ou mesmo a desenvolvê-la dentro de portas.

Como na generalidade dos sectores, esta é uma convivência que não é fácil de acomodar e de explorar. As barreiras à inovação são muito grandes nas estruturas que são maiores, mais formais, mais lentas nos processo de experimentação e decisão e muito mais focadas em manter o negócio tradicional a funcionar do que a desenvolver os modelos do futuro.

Mas temos nesta matéria um óptimo curriculum. O nosso sistema electrónico de pagamentos é dos mais avançados do mundo, a nossa rede Multibanco é das mais capilares e com maior possibilidade de operações e permitiu inovações como a Via Verde ou a possibilidade de pagamento nas lojas sem cartão e com o smartphone.

Mas o mundo acelerou muito e o essencial é não perder o passo nem a capacidade de inovar. Isto não vai parar. Não há leis ou barreiras à entrada que travem a digitalização da banca e da nossa relação com o dinheiro. Por uma razão muito simples: a principal força de mudança vem dos consumidores e do que exigem por lhes ser mais conveniente. E essa é a força mais poderosa de todas.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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