Bloco Central ou dois blocos centrados?

José Miguel Júdice analisa, no Jornal das 8 da TVI, o que considera ser a confusão sobre o Bloco Central ou os blocos centrados. E defende a alternância, liderada por dois partidos fortes.

Anda por aí uma grande confusão (não sei se inocente) entre a defesa “envergonhada” do bloco central (aliança política entre PS e PSD) e a defesa (analisada de modo “incompetente”) de uma alternância em dois blocos opostos, ambos controlados pelos partidos centrais. Há 40 anos que digo o mesmo (e o Presidente da República anda a dizê-lo, pelo menos, há cerca de 35 anos): é preciso que haja alternância, mas é preciso que ela seja liderada por dois partidos fortes e suficientemente próximos para o jogo político-eleitoral não fazer mudar tudo de quatro em quatro anos.

O modelo de bipolarização ao centro potencia acordos de regime e soluções planeadas a longo prazo, no âmbito daquilo que a sociologia americana chamava uma “cultura política” e por aqui se chama às vezes “área consensual de regime político”.

E porque razão é “incompetente” a análise dessa tese, como a tenho lido ou visto fazer? Porque ela tenta confundir a bipolarização ao centro com o tema do radicalismo ideológico – já era assim há 40 anos (então dizia-se que defender a bipolarização era defender o fascismo; agora seria o neo-liberalismo, o que sempre é melhor…). Por isso uma pitada de cultura política ajudaria a não se dizer tanto disparate.

Expliquemos: um sistema político só está equilibrado se não estiver paralisado (ou seja, se comportar dentro de si dinâmicas de mudança) e se não estiver radicalizado (ou seja, se as mudanças não forem radicais e tudo destruírem). Isto não é matéria de opinião, mas de ciência política: É sempre assim, goste-se ou não.

Quanto mais próximo o sistema político estiver de um modelo de bloco central, mais a luta política se faz em cada um dos extremos, o que a prazo conduz à radicalização dos dois partidos para tentarem recuperar o eleitorado perdido, e isso em regra acaba por não ser suficiente, como a própria Alemanha está a perceber. Mas, pelo contrário, quanto mais próximo o modelo for de dois blocos centrados, mais a luta política se faz nos centros, pois a vitória é sempre para o que conseguir captar um pouco mais de eleitores moderados, “centristas”.

Mas para que isto funcione é preciso que cada partido dominante seja capaz de dar aos eleitores menos moderados do seu lado uma razão para votarem nele, e isso exige alguma forma de entendimento com os partidos mais radicais de cada lado.

Por isso, acho uma tontice dizer que o PS é o diabo (quando é um partido moderado) e falar de vender a alma para que ele se não alie à esquerda: A aliança do PS à esquerda (se o PS para isso tiver força) é o melhor que pode acontecer ao sistema político, desde logo porque drena apoios dos partidos radicais para os menos radicais. E quem não queira essa aliança faz melhor em votar no PS… do que no PSD!

Mas o sistema político também pode sofrer muito com a criação de um partido hegemónico – era o que Mário Soares quis até Cavaco Silva o conseguir, Sócrates esteve próximo e António Costa pode estar quase a conseguir.

O partido hegemónico faz crescer a corrupção e a sensação de impunidade, destrói o sistema político (que fica paralisado por não comportar a alternância), cria o caldo de cultura para radicalizações. Por isso, no final dos anos 80 eu dizia que não gostara das vitórias tão esmagadoras de Cavaco, que também nos deram os Duartes Limas, Dias Loureiros, Oliveiras Costas e outros que tais….

Por isso tudo, o que os próximos de Rui Rio andam a dizer (depois dele ter começado…) é um rematado disparate. Por três razões:

  1. Porque se resultar um bloco central, isso faz mal ao sistema político.
  2. Porque se não o conseguir fazer, ajuda a criar um partido hegemónico.
  3. Porque o PS não vai cair nessa esparrela, preferindo, se necessário, aliar-se à esquerda.

Mas no PSD já falaram tanto disso, que mesmo que se calem agora, o “mal” está feito, e a pressão do BE e do PCP sobre o PS já se está a acentuar para que ele se defina… Nem Deus consegue meter a pasta de dentes de novo no tubo depois de ter saído, quanto mais Rui Rio…

E o que terá o que aqui defendo a ver com o neoliberalismo? Nada. Também quanto a isso, há 40 anos que sou contra qualquer deriva direitista do PSD, que aliás só começou com o partido hegemónico de Cavaco e ‘sus muchachos’.

É verdade que defendo alguma diferenciação ideológica para que o sistema seja dinâmico e para que possa captar os setores sociais que se não sintam representados. Já ninguém se lembra, mas após dois anos de bloco central, o CDS estava à frente do PSD nas sondagens… Por isso digo que o PSD nunca conseguirá ser o líder de um dos dois blocos centrados se a sociedade civil não achar que se diferencia claramente do PS, e não vejo em Rui Rio e nos que falam por ele suficiente diferenciação; pelo menos por enquanto.

Nada de dramático nisto. Os sistemas sociais tendem para a homeostase ou equilíbrio dinâmico. Se o PSD for ‘satelizado’ pelo PS, o CDS será o futuro polo à direita e felizmente não é um partido radical (as franjas radicais existem muito mais no PSD do que no CDS…). E, entretanto, o PS vai continuar a ganhar enquanto à direita estas coisas se resolvem.

Em resumo: a melhor solução para o País é que os portugueses sejam confrontados com escolha entre dois projetos claros e ambos liderados por partidos com pulsão centrista. Se nem o PS nem o PSD conseguirem ter maioria, devem aliar-se: O PSD à sua direita, o PS à sua esquerda. e isso deve ser claro para os portugueses quando votarem.

O Presidente da República, preocupado com a pulsão para o bloco central, veio já dizer como o comentador Marcelo Rebelo da Sousa diria, que é preciso uma alternativa forte ao PS. O que o comentador não diria é que o PS não deve ter maioria absoluta. É que essa até é a melhor solução para o sistema político à esquerda, se o BE e o PCP apostarem demais no radicalismo, quem mandou dizer isso ao Expresso foi o Presidente, porque tem medo de perder poder se o PS precisar menos dele. O que sobre isso não diria o comentador MRS…

Uma última nota: CDU e SPD, na Alemanha e em tempos de bipolarização, chegaram a ter entre eles quase 80% do voto – desde que estão coligados, cada vez têm menos votos (em 2017 chegaram ao mínimo de 53% em conjunto) – e estão a entrar numa espiral e no futuro provavelmente ficarão bem abaixo de 50% em conjunto. O que justifica que 44% dos congressistas do SPD ontem tivessem votado contra e não está assegurado que no referendo que se segue saia vencedor a tese da aliança. E agora uma nota final.

BRASIL, ANGOLA, PORTUGAL: A MESMA LUTA

Na 4ª feira se saberá se o ex-Presidente Lula vai preso ou vai ganhar as eleições presidenciais este ano.

Hoje, começou o julgamento da corrupção de um Procurador, mas que para todos os efeitos é como se fosse já o julgamento do ex-vice presidente de Angola (e atual homem forte por trás do Presidente da República), Manuel Vicente, tema a que voltarei para a semana.

Dentro de meses será o julgamento do ex-primeiro-ministro José Sócrates (e é curioso que neste caso a Acusação do Ministério Público deixou cair a pista brasileira que poderia levar à acusação do Presidente Lula…). Decididamente, também nos temas criminais Portugal está na moda…

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