Brexit. Verdade e consequência

Na era da pós-verdade, os factos não contam. O que importa é a perceção. O Brexit foi o resultado de uma campanha de pós-verdade que ludibriou a realidade, mas está ainda a tempo de uma inflexão.

  1. Três anos depois, o Brexit tem uma consequência inteligente: o adiamento. Semanas de populismo e mentiras redundaram numa votação que dividiu o Reino Unido. Ao fim de todo este tempo, a Inglaterra compreendeu que, afinal, já não tem qualquer império; que Trump corre por conta própria de forma tão imprevisível que um eixo Atlântico é um risco; que sair da União Europeia vai condenar a Irlanda do Norte a cindir-se definitivamente da República da Irlanda. Pior, anos de integração geraram uma prosperidade que ameaça desabar num caos fronteiriço, com dezenas de quilómetros de filas para movimentar mercadorias, tão compridas como o número de dígitos em libras que já perderam em negócios ou capitais que afluíam à ilha. As previsões de crescimento estão em queda, a libra enfraqueceu e os tradicionais destinos turísticos ressentiram-se. O simples vislumbre de um segundo referendo deixa quase todos a respirar de alívio, de Westminster a Bruxelas.
  2. Uma certa narrativa ganhou fôlego para os próximos meses: a culpa é dos grupos económicos que querem destruir o Serviço Nacional de Saúde. O mesmo SNS que fora destruído pela troika entre 2011 e 2015! Mas que, entretanto, mereceu uma redução para as 35 horas semanais de trabalho, uma medida que, essa sim, desarticulou estruturalmente o setor. O problema vai para além da ideologia. É aritmético. Numa população a envelhecer, com a crescente sofisticação dos meios de diagnóstico, com o despontar de tratamentos personalizados pela genética e pelas biotecnologias, a fatura só pode crescer. Mesmo havendo espaço para gerir melhor. Muito melhor. Há anos em crónica suborçamentação, só um pacto nacional para uma maior percentagem do PIB dedicada à Saúde pode resolver o problema de fundo.
  3. A questão passa por definir onde realocar receitas e tomar opções políticas que impliquem mudanças estratégicas. E é aqui que vestimos o nosso colorido disfarce de Carnaval! Não é possível baixar défice, devolver rendimentos e aumentar investimento público tudo ao mesmo tempo! Como os números desta legislatura têm provado, as três variáveis só cabem na mesma equação se a economia portuguesa crescer como a da China. O que não é crível! Um executivo que se apoia na conjuntura para defender toda uma nova política de rendimentos está vulnerável a uma mudança internacional, como aquela que começa a desenhar-se. Ao privilegiar função pública e pensionistas em detrimento de uma transversal descida de impostos, António Costa ficou refém de mais e novas reivindicações de quem lhe tinha aberto caminho para o poder. E com reduzida margem para dizer que não.
  4. No fundo, o percurso trilhado foi o mais simples: cortar no investimento. E em todas as áreas. Esmagar toda a despesa corrente que não tivesse a ver com salários, por via de mais ou menos cativações. E a tendência não sugere uma mudança. Para os próximos 4 anos está definida uma estratégia orçamental sincronizada com a Europa: défice zero, evolução para superávite, uma dívida pública a cair para 100 por cento do PIB. Em ano eleitoral, sabendo que o crescimento não vai abundar, era igualmente importante que Rui Rio respondesse de forma cabal ao dilema mais investimento ou despesa corrente. Até porque, de semana a semana, os sinais têm sido muito contraditórios.
  5. Num futebol com défice crónico de capital, onde as receitas da Liga dos Campeões chegam a representar mais de um terço dos orçamentos, foi uma questão de tempo até chegarmos aqui. De forma pública e explícita, numa transparência que se saúda e que deveria ser extensível a todos os clubes, o Sporting assume a necessidade de antecipar receitas futuras para pagar despesas do presente.

    Assume, na prática, que tem vindo a gastar muito mais do que consegue gerar. Acredito que muitos se questionem onde está o apregoado milagre económico da gestão de Bruno de Carvalho. Que se perguntem como, durante 5 anos, quase todas as figuras de referência do clube apoiaram uma estratégia financeira apelidada agora de irresponsável. Talvez a reflexão deva ir ainda mais longe: o Sporting tem potencial para ser o primeiro dos três grandes a abrir o capital da SAD. Está longe de ser a melhor equipa, não tem jovens a despontar e não tem capital para investir. Uma ‘golden share’ deveria ser imposta sobre matérias fundamentais como camisolas, símbolo, estádio e valores fundamentais. O resto é para abrir a investidores que tragam capital e uma ambiciosa visão de negócio. Capaz de almejar títulos. No fundo, o que os adeptos querem.

  • Jornalista. Subdiretor de Informação da TVI

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