Budget psicóticopremium

O que choca neste momento da vida política portuguesa é a leviandade política generalizada e a grande importância das pequenas personagens.

É o cansaço, a saturação, a ansiedade no labirinto da saudade. O Budget é o assunto político do momento. Dito assim o tema parece mais sério, sofisticado, elevado, uma referência mais digna a um documento político fundamental. Mas o Orçamento é a cena do ódio em capítulos. O Governo na sua indefinição e incúria deixa o assunto entregue ao narcisismo das pequenas diferenças com o País indiferente e com o olhar fixo na pornografia do preço dos combustíveis. E o Governo perde a aderência à realidade no frenesim de tantas medidas desconexas na 25ª hora.

Há uma lição que vem desta experiência política à Esquerda e que deve ser recordada. O PS manteve-se anos afastado do PCP e do Bloco pela simples razão de que não existe em Portugal um conjunto coerente de ideias nesta área política capaz de suportar uma visão para o regime e para o País. O PS é o muro rosa que separa o Portugal democrático do aventureirismo político do Bloco e da ortodoxia do PCP. Seis anos a ignorar o assunto e o PS comporta-se como um partido falido que vai ao mercado vender o que resta do espólio histórico aos compradores monopolistas que oferecem sempre a pior oferta.

E o PS não tem vergonha de se entregar sem honra ou dignidade aos especuladores ideológicos de serviço? A dignidade política numa terra desgraçada é sempre um conceito entre o volátil e o fútil. A dignidade política do PS e a honra histórica do Portugal democrático não precisam de favores, ajudas, benesses. Parece que para esta versão do PS, a dignidade política não é a afirmação de uma ideia para o País sistematizada no documento orçamental. A dignidade está reduzida à sobrevivência no Poder ou ao grau zero da densidade política. Vem então o repelente discurso das desculpas, das recriminações, da compreensão, da boa vontade, ao qual se junta a exaltação do caos sentimental em negociações mastigadas com arsénico.

O Bloco não tem uma cultura política de negociação. A especialidade da agremiação cosmopolita é a irreverência adolescente e a prática negocial entendida como a rendição do outro lado e a queima pública de todas as efígies. O Bloco inventa argumentos que oscilam entre a fraude e a confissão tácita de um País imaginário. Mestres na manipulação, mantêm o País refém da irreversibilidade dos seus preconceitos políticos enquanto sonham com a revogação de todas as leis. E o PS mais parece um brinquedo sem vida ou vontade ao sabor das tácticas trotskistas de um partido residual.

O PCP não tem vocação política para a negociação. Este não é um partido das grandes coligações nem dos pequenos compromissos. Os dinossauros vermelhos sofrem a erosão do tempo político, perdem votos, perdem militantes, apresentam a decrepitude de uma geração de vampiros que só conhecem a linguagem do sangue político. Quando negoceiam, perdem. Quando a estratégia é a chantagem, ganham. Falam a linguagem das estátuas de bronze abandonadas nas sucatas políticas da velha Europa. E o PS abençoado por uma inocência primordial alimenta a importância de um partido que foi sempre o monumento intolerável da miséria. Negociar para o PCP é uma exorbitância capitalista, pois a referência é sempre a unanimidade entusiasta do Comité Central.

Confesso que a comédia só ficará completa com a referência às muitas “cruzadas moralizantes” de todas as entidades patronais, sindicais, profissionais, amadoras, oportunistas, responsáveis, preocupadas, empenhadas, militantes, e que vigiam com zelo e probidade os interesses da Nação reduzidos à economia política e orçamental de cada grupo. Vestígios de uma velha degradação vestida com as palavras políticas da moda.

O que choca neste momento da vida política portuguesa é a leviandade política generalizada e a grande importância das pequenas personagens. Orçamento aprovado ou Orçamento chumbado, a crise está instalada – uma crise de confiança, uma crise nas ideias políticas, uma crise no presente político, uma crise no futuro nacional. Tenha a forma informe que tiver o Orçamento e será sempre um mau Orçamento para todos os responsáveis. No entanto, o esforço para se fazer passar e aprovar um documento que é uma colecção de contas por fechar, representa o grau tóxico da cobardia política e do esgotamento de uma solução política que nunca foi solução. Como agora se pode verificar, tudo não passa de um ódio patológico à Direita Democrática que converge no cinismo divergente de um outro ódio ainda maior – o ódio fraternal entre as famílias políticas à Esquerda. E neste hiato de tempo, Portugal continuou e continua adiado e amordaçado sem um discurso consistente e coerente sobre o futuro.

Fala-se ainda no apogeu da crise quando se fala de eleições. Afinal quem tem medo das eleições? Todos e ninguém com excepção do Presidente da República em versão de comentário político. O dilema está entre a estagnação e a aceleração política. Parece que ouço ao longe os apupos da multidão – “Sejam responsáveis!”.

Subitamente ocorre-me a ideia de que o Orçamento deve ter o realismo lírico de quem viaja pelas cidades invisíveis de um país e imagina as marcas da felicidade ainda por alcançar.

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