Café Europa

As Europeias terão lugar dois meses após o Brexit. O Parlamento Europeu poderá ter uma multiplicidade de combinações políticas. No horizonte poderá estar o risco da paralisia política da Europa.

1 – Existe uma certa esquizofrenia nas Eleições para o Parlamento Europeu. Na realidade, são 27 eleições nacionais que convergem numa pool política quantificada pelos Tratados. A fragilidade do processo abre-se às susceptibilidades da política interna de cada Estado. Motivações nacionais cruzam questões europeias com a leviandade garantida pela procura do ganho político imediato. Neste modelo de pensamento, as leis do senso comum são válidas na vida do dia-a-dia e em algumas ciências exactas, mas podem ser ignoradas por políticos, historiadores, sociólogos. Se uma multidão pensa que seria escandaloso falsificar um manual científico, a mesma multidão não encontra qualquer problema na falsificação de um facto histórico ou político, desde que em benefício próprio. Como tal, as Eleições Europeias são um ajuste nacional das contas políticas disfarçado pela retórica do Euro, da Imigração, do Populismo. Todos os Estados se arriscam a ficar mais distantes da solução para o Euro, para a Imigração, para o Populismo, explorando todos os mitos do discurso europeísta e todas as ficções do discurso eurocéptico. E neste espaço político bipolar, o Populismo e o Europeísmo serão os donos e senhores de toda a imaginação demagógica.

As próximas Eleições Europeias terão lugar dois meses após a data prevista para o Brexit. Macron apresenta-se como o leader da grande facção europeísta contra a ofensiva populista. Salvini declara que as Eleições para o Parlamento Europeu são um “referendo entre a Europa das elites, dos bancos, das finanças, da imigração e do trabalho precário” e a “Europa das pessoas e do trabalho”. O substancial reforço das forças anti-europeístas poderá representar o fim da Grande Coligação Europeia entre o Partido Popular Europeu e a Aliança dos Socialistas & Democratas Progressistas que, em conjunto, representam 54% dos lugares no hemiciclo. Para além dos dois grandes partidos europeus do centro-direita e do centro-esquerda não se apresentarem bem colocados nas sondagens, sublinhe-se que a Aliança Socialista não poderá contar com os deputados Labour antes eleitos pela Grã-Bretanha.

A queda da Grande Coligação torna a política do Parlamento Europeu num exercício ainda mais complexo, um exercício político de negociação permanente em que a aprovação de nova legislação poderá implicar o voto favorável de 4 partidos. A pulverização será acompanhada pela volatilidade e pela incerteza. De acordo com analistas da Carnegie Europe, o Parlamento Europeu poderá ficar muito próximo do perfil dos Parlamentos da Dinamarca ou da Holanda, Parlamentos em que existe uma multiplicidade de combinações políticas. No horizonte poderá estar o risco da paralisia política da Europa, pondo em causa o método comunitário, a divisão de poderes, logo no ano em que haverá uma nova Presidência da Comissão e uma nova Presidência do Conselho Europeu. São as portas giratórias da Europa em elevada rotação.

2 – George Steiner escreve que a identidade da Europa se revela nas portas giratórias que abrem para os grandes cafés. A sociedade cosmopolita, a democracia, não se fizeram na confusão das ruas, mas à mesa dos cafés do Continente, espaços sociais inventados fora da influência dos Governos, uma distância que se tornou o elemento pivot na afirmação de uma sociedade civil. O exercício livre da crítica e da conversação estimularam o desejo de liberdade e o prazer no auto-governo. Entre o político e o privado, em Lisboa, Paris ou Berlim, os cafés são a civilização e a sociedade do pensamento nas cidades da Europa.

Na Europa da Starbucks a clássica civilização dos cafés parece estar em recessão. Um dia na Starbucks não representa o exercício livre da crítica e da conversação in loco. Toda a esfera do espaço público migrou para o mundo virtual da internet, os interlocutores dispersam-se pelo mundo e as conversas decorrem ao ritmo das teclas que juntam letras e formam as palavras de um discurso. Mas mesmo nessas cápsulas individuais assinaladas por um cappuccino, o espírito da civilização dos cafés persiste transformado pelo tempo do progresso, pois através do silêncio dos teclados circula uma infinidade de discursos, opiniões, discussões, fóruns. Perdeu-se o romantismo das fardas aprumadas e dos grandes lustres no tecto. Sobrevive o princípio intangível da liberdade de pensamento e do pluralismo de opiniões. Sobrevive pois o espírito fundador da civilização da Europa.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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