Calamidade sem Emergência

Para o primeiro-ministro o discurso político tem de transmitir o “calor branco” que promete e que defende, que afirma e que avisa, que avança e que recua.

O primeiro-ministro tem um novo fato. Os fatos vão e vêm conforme as ocasiões. Os fatos são como as máscaras – temporárias, descartáveis, convenientes. Os fatos e as máscaras servem para construir uma personalidade política de acordo com as circunstâncias do tempo. Os fatos e as máscaras fazem parte de uma narrativa política em que cada um deve saber o seu lugar. O lugar do primeiro-ministro é o de actor principal no grande drama da Nação – optimista, realista, pessimista, ponderado. Os portugueses tiveram direito a uma versão encenada do perfil pós-confinamento do líder do Governo. Não deixa de ser estranho que uma “calamidade” seja menos grave do que uma “emergência”. Portugal sai da emergência e entra na calamidade. Portugal abre as portas e as janelas e abraça a liberdade.

O realismo do primeiro-ministro mais parece um “conceito estético”. O realismo não se define pelo conjunto de fatos e de máscaras com os quais se compõe o discurso político. O realismo é mais uma tentativa de responder do modo mais eficaz possível às circunstâncias do Mundo em que o político se desloca. O realismo depende da natureza das ilações retiradas sobre o fundamental das circunstâncias e não deve ser confundido com o exercício de uma técnica política.

Em rigor, o que se observa na entrevista do primeiro-ministro é uma espécie de “naturalismo mimético”, ou seja, um olhar superficial sobre as aparências. O líder do Executivo é exímio nestes exercícios, a longa experiência política tem as suas vantagens, mas a entrevista recorda-nos que o discurso político é demasiadas vezes entendido como um raciocínio limitado e administrativo. Mesmo quando é proferido sob conselho e vigilância médica.

O que falta na entrevista é a dimensão própria de um “discurso ético”, a asserção de uma responsabilidade política ilimitada, a ausência do cálculo político em função de circunstâncias imponderáveis e contingentes, a revelação do incontornável e incontrolável conflito entre a natureza da política e a natureza da realidade.

Para o primeiro-ministro o discurso político tem de transmitir o “calor branco” que promete e que defende, que afirma e que avisa, que avança e que recua. Os portugueses gostam de romances de viagens e o primeiro-ministro vai sentado na primeira fila da primeira carruagem. Quando vier a luz ao fundo do túnel, a visão será sublime. A nova persona do primeiro-ministro é a ficção de um contador de histórias que perde a sua própria identidade para se abrir à vida e à expectativa dos portugueses. Esta generosidade política só está ao alcance de um grande Estadista.

Naquele cenário de um apartamento urbano comum a tantos portugueses, a entrevista do Primeiro-Ministro podia sem esforço da imaginação integrar a parcela de um capítulo da saga de Harry Potter. Sobretudo numa cena em que fizesse parte um “boggart”, uma criatura que assume a forma dos mais tenebrosos medos que assolam o indivíduo incauto, mas também os medos do político mais preparado. Perante o terror do maior dos pesadelos políticos, a forma de contrariar o “boggart” é através de um feitiço denominado por “riddikulus”, um dispositivo mágico que transforma a mais terrível aparição na mais ridícula e cómica criatura. Depois da explosão de riso e satisfação, o poder do “boggart” evapora-se no éter e este desaparece da cena, do capítulo, do livro, da vida. No dispositivo político do Executivo a ofensiva mediática teve todas as características de um “riddikulus”, os portugueses riram-se em comunidade, exorcizaram os demónios e regressam homéricos à normalidade.

Mesmo com reservas e precauções, o Mundo não é assim tão simples. Na admirável complexidade da Natureza, a universalidade das redes de contacto cobrem toda a superfície terrestre, sem santuários nem excepções. Depois os “pássaros com penas iguais voam em bandos iguais”, um fenómeno conhecido por “homofilia”, e que reinventa tribos, acentua a polarização, cria incontroláveis “câmaras de eco”. As ideias tornam-se virais, as conexões transformam-se em redes sociais, os comportamentos reproduzem-se à velocidade da fibra óptica encurtando distâncias e atitudes. O Mundo é demasiado pequeno, os elos da cadeia infinitos e incontroláveis, o contexto do contágio é uma realidade persistente e permanente. A liberdade enfrenta o “determinismo viral”, resistente e imune à vontade de cada indivíduo e de cada Nação. Não há pessimismo nem optimismo neste cenário e nesta narrativa, apenas a consciência de que o Mundo do Antropoceno é vulnerável à resiliência do Mundo Natural. Nenhum político instalado no conforto de uma sala de estar pode dar qualquer garantia. Esta é a responsabilidade e o risco de estar vivo e de existir para o Mundo.

Pessoalmente, passado o falso esforço do confinamento, vou chamar um Über e viajar para o campo. Vou levar papel e lápis de todas as cores. Vou desenhar o campo em todas as variações de vermelho, flores como túlipas negras e com o amarelo preencho todas as estrelas do Universo. O caminhante ao longe vai usar uma túnica de cetim azul como uma virgem sagrada numa longa peregrinação. Como não sei desenhar vacas, faço manchas brancas no papel que assinalam as almas das criaturas. O céu, a terra, o espaço, o horizonte a perder de vista é todo desenhado em riscos de cor-de-rosa pela mão virtuosa do Primeiro-Ministro.

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