Camaradas, Cidadãos, Europeus

A França de Macron está tomada por um clima de ódio. Os alvos do ódio são múltiplos e facetados – judeus, jornalistas, polícias, deputados, ministros, os ricos e sobretudo o Presidente.

Em carta continental, Macron dirige-se aos 510 milhões de europeus. Em crise, a Europa falha na protecção dos povos face ao choque do Mundo Moderno. Observada como um mercado sem alma, a União precisa de um novo Renascimento Europeu suportado por três pilares essenciais da civilização – Liberdade, Protecção, Progresso.

Desde logo, ameaçada e manipulada na sua dimensão política e económica, a Europa deve garantir a liberdade das escolhas livres e democráticas, sugerindo Macron a criação de uma “Agência Europeia para a Protecção das Democracias”. Depois, perante a necessidade de equilibrar politicamente a realidade do mundo e o esforço de reconciliação interno, surge o imperativo de conferir aos Europeus um sentimento de pertença e de segurança garantido pela grande fronteira entre a União e o Mundo, propondo então Macron a criação de um “Conselho Europeu para a Segurança Interna”.

Recuperando o espírito do Progresso, a Europa deve estar na vanguarda da justiça e da ciência, quer privilegiando a convergência face à competição, quer garantindo a transição ecológica, dois objectivos políticos a concretizar pelo “Banco Europeu para o Clima” e pelo “Conselho Europeu para a Inovação”. Macron propõe ainda a realização de uma “Conferência para a Europa”, com a participação de painéis de cidadãos, de modo a garantir que os valores do Progresso e da Justiça não são apenas um episódio histórico, mas um ideal permanente no percurso da civilização da Europa.

A carta de Macron é idealista, estatista, centralista, restritiva dos poderes soberanos, apontando para uma visão da Europa unitária, burocrática, integrada, regulada e administrada por um colectivo de sábios. A Europa de Macron é um sistema rígido que nos remete para a finalidade e o propósito do COMECON, Conselho de Assistência Económica Mútua e cujo objectivo político seria o de integrar em termos económicos os países socialistas da Europa de Leste. Aprofundando a analogia implícita na perspectiva de Macron, a proliferação de Conselhos e de Bancos, a multiplicação de instâncias burocráticas, remete o ideário político para uma ideia de GOSPLAN, uma agência central de planeamento económico na antiga União Soviética e organizada metodicamente em 40 ramos diferenciados da economia, chegando a ter no final dos anos 70 cerca de 27 Ministros das Finanças.

A carta do Presidente da França é ainda mais ambiciosa e vai para além do âmbito do GOSPLAN, pois pretende integrar o comércio, a competição, a defesa, a inovação e a ciência; pretende controlar as alterações climáticas, a imigração, o nacionalismo, o populismo e todas as forças políticas e económicas que colocam em causa a visão autocrática, burocrática e francesa da Europa. A carta de Macron é uma declaração da hegemonia da França na consagração do Projecto Europeu. Mas mais ainda. A visão de Macron transforma a ideia de Europa numa ideologia da Europa, a visão predestinada de uma religião secular tão ao gosto da história, da cultura e da política de França.

A carta à Europa confunde-se com o manifesto eleitoral do Presidente da França. Peculiar é que o Presidente incapaz de governar a França pretenda numa espécie de salto quântico apresentar-se como o futuro da Europa. No Grande Debate Nacional, Macron conversa durante 14 horas com agricultores franceses no mais importante show anual do ramo. Na Grande Digressão Nacional, Macron responde à França profunda em longas sessões de 6 e 7 horas, tomando notas e conselhos. O Presidente pensa mesmo em coligir os melhores argumentos e organizar um referendo em torno das propostas populares. Inédito, desesperado, demagógico, populista.

A França de Macron está tomada por um clima de ódio. Os alvos do ódio são múltiplos e facetados – judeus, jornalistas, polícias, deputados, ministros, os ricos e sobretudo o Presidente. Numa das muitas manifestações que animam as ruas e cidades de França, uma efígie do Presidente Macron foi queimada ao som da Marselhesa.

O anti-semitismo também ressurgiu à superfície política de França. Um cemitério judeu foi vandalizado com cruzes suásticas pintadas nas lápides; uma loja de Paris acordou com a palavra “Juden” a toda a largura da montra; o rosto da antiga ministra da República e sobrevivente de Auschwitz, Simon Veil, desenhado a spray num prédio de Paris foi deformado com uma cruz suástica; Alain Finkielkraut, filósofo francês de origem polaca, foi insultado e ameaçado em plena Rive Gauche.

O anti-semitismo tem raízes profundas na política francesa, não apenas com o regime de Vichy, mas com uma visão da direita radical estabelecida em torno da obra de Edouard Drumont intitulada “La France Juive” e publicada em 1886. Talvez não haja precedente na 5ª República de uma convergência tóxica entre o anti-parlamentarismo e o anti-semitismo. O nexo parece residir na percepção política clássica de uma elite privilegiada face a uma população sacrificada.

O Presidente Macron não tem resposta política para a intensidade de um sentimento nacional sem precedente desde os anos de 1930. Incerto no seu destino político, Macron propõe-se a salvar a Europa para talvez poder salvar a França.

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