Caminhos comunistaspremium

Bloco e PCP continuam a alimentar o fundamentalismo igualitário, juntando às referências marxistas habituais um novo guru, Piketty, o pretendente a Marx do século XXI.

Hoje início uma apreciação aos programas partidários que vão concorrer às eleições de 30 de Janeiro, com ênfase especial na parte económica. Os primeiros são os dois principais partidos comunistas, o Bloco e o PCP, cujos programas estão disponíveis nos respectivos portais.

Um sinal claro do atraso de Portugal é a existência de 4 partidos comunistas (de raiz marxista) com lugar no Parlamento, uma situação sem paralelo em qualquer país desenvolvido (em muitos países o comunismo é proibido ou irrelevante) e, provavelmente, em qualquer país do mundo.

Destes 4, os programas dos comunistas do Bloco e do PCP (os Verdes nunca foram a eleições, são um truque do PCP para ter mais “tempo de antena” no Parlamento e nas notícias, e o Livre tem pouca expressão) são os mais relevantes pela sua representatividade junto do eleitorado. Um quinto partido, o PAN, não se sabe muito bem o que é, mas os tiques autoritários que apresenta quando tenta impor o modo de vida dos seus seguidores a toda a população aproxima-os dos comunistas. O seu programa ainda não está disponível.

Totalitarismo igualitário

O enquadramento implícito dos programas apresentados pelos dois partidos é totalitário porque neles tudo é subordinado à dimensão política, neste caso ao igualitarismo como um fim, copiando-se nas principais propostas que apresentam ao eleitorado. O eleitorado do Bloco é uma mistura da média baixa burguesia das periferias urbanas com a esquerda “caviar” endinheirada dos meios jornalísticos e dos bares e restaurantes da moda, e professores e profissionais liberais com pretensões artísticas e literárias. O eleitorado do PCP é também das periferias, mas é mais modesto pois não frequenta os restaurantes “gourmet”, assentando muito nas raízes rurais e operárias, e nos meios sindicais de alguns serviços públicos.

O PCP está a agonizar lentamente e o seu desaparecimento, a confirmar-se, será um sinal de que Portugal evoluiu. Quanto ao Bloco, é uma vergonha para o país que tenha crescido e chegado a terceiro maior partido nacional. Beneficiou da ajuda constante de jornalistas e do capitalismo da Sonae, através do Público, da TSF, quando estava no auge, e agora beneficia do capitalismo da SIC e do Expresso. O problema não é só o facto de o Bloco ser um partido comunista, é o risco de colocar o país numa ditadura se algum dia chegar ao poder.

Algumas das pessoas que votam no Bloco de Esquerda acham que se tornou um partido do sistema, que até defende valores democráticos, pelo que não constitui um perigo para a democracia. A “máscara” que o Bloco colocou e o favorecimento permanente que recebe de parte significativa da classe jornalística criaram esta ilusão em muita gente.

Mas os factos demonstram o contrário. O Bloco participa no jogo da democracia enquanto não tiver poder para lhe mudar as regras a seu favor. Não foi por acaso que o ano em que a líder do Bloco e alguns dos seus deputados se declararam publicamente sociais-democratas (para iludir o estigma comunista) foi também o ano em que o líder da Coreia do Norte se declarou social-democrata. À semelhança de Lenine e Trotsky que militaram no Partido Operário Social-Democrata antes de provocarem a morte de 10 milhões de russos. Na esquerda radical todos os meios são lícitos para se alcançar o fim que é a detenção do poder.

A falta de cultura democrática vê-se pela tentativa do Bloco, com mais dois ou três fundamentalistas radicais, de ilegalizar o Chega, que acusam de ser um partido fascista, mesmo que essa acusação não faça sentido e apenas sirva para legitimar e promover a ideologia antidemocrática que é o comunismo. A falta de cultura democrática também é visível com a recusa de Jerónimo de Sousa em debater com o Chega.

Mas a prova de que o Bloco comunista não defende valores democráticos é que coloca nas suas listas de candidatos assassinos responsáveis por mais de uma centena de crimes, nos quais morreram muitos inocentes (como se pode ver nos excelentes trabalhos que o “Observador” está a publicar sobre a esquerda radical das FP-25 (aqui ).

À semelhança do PCP, que continua a admirar assassinos e a justificar assassinatos em massa, desde o seu início que o Bloco promove terroristas. O Dr. Louçã protegeu em Portugal assassinos da ETA com as mãos sujas de sangue e testemunhou a favor de Otelo no processo das FP-25, apesar da evidência reunida que confirmou, sem margem para dúvida (até advogados de Defesa concordaram com as sentenças), a autoria moral dos assassinatos.

Nos últimos anos foram vários os terroristas das FP-25 que integraram as listas do Bloco de Esquerda: José Ramos dos Santos, condenado a 12 anos de prisão por organização terrorista, foi o candidato a presidente da Câmara Municipal de Grândola em 2017, e continua a afirmar publicamente que “tem orgulho do seu passado político – inclusive dos assassinatos de que foi cúmplice”; Teodósio Alcobia, condenado a 15 anos e meio, e a companheira, Helena Carmo, condenada a 12 anos de prisão, nunca se arrependeram do mal que fizeram e foram eleitos vogal na Junta de Freguesia de Agualva Mira Sintra e deputada municipal em Sintra, respectivamente. Fernando Pinto Lacerda, 14 anos de prisão, candidato a vereador para a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

Pedro Goulart, outro dos membros das FP-25 responsável pela morte de pessoas inocentes, incluindo bebés, e que não cumpriu a pena para o qual tinha sido condenado (como a maioria dos outros condenados) é aqui homenageado pelos comunistas do Bloco de Esquerda, que, se poderem, usarão de todos os meios para chegar ao poder, e se tiverem essa oportunidade usarão de violência para chegar ao poder absoluto. Esta é a realidade do Bloco de Esquerda que muitos dos seus eleitores ignoram, ou optam por ignorar quando colocam o voto na urna.

Álvaro de Sousa Monteiro, operacional das FP-25, condenado em tribunal a 12 anos e candidato pelo Bloco à Presidência da Assembleia de Freguesia em Santa Vitória/ Mombeja, depois de já o ter sido em 2017. Ou Armando Herculano Lopes Ferreira, operacional condenado a 12 anos de prisão, que seria o candidato do Bloco à Presidência da Câmara Municipal de Vila do Conde, mas optou por renunciar.

Luís Filipe Gobern Lopes, condenado a 17 anos (que não cumpriu) e que também nunca se arrependeu da violência que promoveu, afirmando “situando-me na altura em que as coisas ocorreram, considerando a forma como eu pensava, como eu sentia, como eu via as coisas, não posso dizer que me arrependa de nada. Não tenho de que me arrepender. Todas as coisas foram feitas com uma atitude consciente”. Apesar deste radicalismo foi jornalista da TVI (actual CNN) e candidato a Presidente da Junta de Freguesia de Santo António da Charneca, onde ficou em quarto lugar. Em Novembro de 2021, há pouco mais de um mês, voltou a candidatar-se pelo Bloco à Camara Municipal do Barreiro.

Perante isto, é mais fácil perceber a dualidade de critérios que os mesmos jornalistas e os mesmos órgãos de comunicação social que realçam permanentemente os defeitos do Chega sempre aplicaram aos comunistas do Bloco de Esquerda, a quem tudo desculpam apesar de ser um perigo bem maior para a democracia em Portugal. O jornalismo que “valida” a participação de assassinos, que não se arrependeram nem cumpriram pena, em listas comunistas é também um significativo sinal do atraso de Portugal.

Estes casos indicam que a única explicação possível para o duplo critério da comunicação social é o sectarismo político de muitos dos seus profissionais, o mesmo sectarismo que alimentou a subida do Bloco e o fez receber meio milhão de votos em 2019 (esta semana isso foi mais uma vez visível na apreciação do Expresso, da SIC, da CNN e de outros ao debate entre Ventura e Catarina Martins, por exemplo). Meio milhão de pessoas que implicitamente caucionaram com os seus votos o terrorismo e o derramamento de sangue de inocentes.

Quando dois partidos com uma ideologia radical, que ainda dão vivas à revolução comunista soviética e organizam congressos sobre as virtudes da aplicação prática do marxismo e de como a utopia ainda está por realizar, representam 17% dos votos em Portugal, torna-se claro o porquê do atraso do país.

A Economia que promove a pobreza em nome da igualdade

Tal como a ideologia que enquadra os dois programas, na área económica as propostas são muito similares e a apreciação geral é muito negativa. Eis porquê:

  • Nenhum dos partidos tem como base das suas propostas sociedades abertas e descentralizadas, a base da democracia e da liberdade.
  • A tónica dominante é o reforço do centralismo burocrático e o crescimento do Estado, dando-lhe cada vez mais funções e menosprezando totalmente a vontade das pessoas.
  • Nenhum dos partidos se preocupa em aumentar o crescimento económico nem apresenta propostas para a criação de riqueza, evitando encontrar explicações para a estagnação económica nacional ocorrida nos últimos 20 anos.
  • A produtividade e os factores que a determinam, assim como a tentativa de aplicar os escassos recursos de uma forma mais inteligente e produtiva, são secundarizadas.
  • Não há qualquer preocupação com a competitividade externa da economia portuguesa.
  • A opção de Bloco e PCP é distribuir ao máximo a riqueza que existe, não se importando com a situação de estagnação da economia portuguesa, sem olhar para o futuro e sem considerar qualquer critério de justiça para os que fomentam o desenvolvimento.
  • A dialética capital-trabalho é o discurso preferido, como se fosse um jogo de soma nula. É com base na promoção desta ilusão, de que os ricos enriquecem porque roubam os pobres, o que em Economia é uma falácia porque assume que a riqueza é sempre a mesma e não cresce, que Bloco e PCP alimentam o seu discurso populista.

A fundamentação implícita dos dois programas é a mesma: Bloco e PCP continuam a alimentar o fundamentalismo igualitário, juntando às referências marxistas habituais um novo guru, Piketty, o pretendente a Marx do século XXI.

Os preconceitos marxistas misturados com umas meias verdades ou com mentiras explícitas estão sempre presentes. Os números da desigualdade de rendimentos que, supostamente, não para de crescer desde 1980 são destacados. Os números sobre a melhoria efectiva das condições de vida dos portugueses à medida que se foram eliminando as políticas marxistas defendidas por estes partidos no pós-25 de Abril não são apresentados.

Os culpados da “desigualdade” para os comunistas do Bloco e do PCP são essencialmente os mesmos: o sistema de tributação que prejudica os mais pobres, apesar de ambos exigirem mais e mais impostos enquanto se queixam das subidas nos preços da energia (o PCP ainda se preocupa com os efeitos da inflação no rendimento das famílias, o Bloco nem isso); as privatizações e a lei laboral que prejudicam o desenvolvimento económico e ao qual contrapor com a pobreza a que conduzem os regimes antidemocráticos que elogiam seria uma pura perda de tempo.

Entrando em alguns detalhes, o programa do PCP é mais completo e o do Bloco limita-se apenas a abordar alguns temas. Mas têm várias coisas em comum:

  • Ambos apresentam muitas propostas de aumento de despesa, sem explicarem de onde vem o dinheiro: para aumento de despesas sociais – saúde, educação, segurança social - e salários; em termos genéricos, para aumento de investimento público.
  • O aumento dos impostos é um ponto comum aos dois partidos e a única forma de compensar parcialmente o aumento da despesa descontrolada que apresentam. A contradição aqui é evidente: como a população portuguesa é relativamente pobre, o aumento de impostos defendido pelos comunistas vai prejudicar essencialmente aqueles cujos interesses supostamente defendem no seu discurso populista: os trabalhadores. A retórica de que o “capital” é que deve pagar impostos é mero populismo. Não há ricos suficientes para espoliar e pagar o excesso de despesa que propõem (entre os militantes do Bloco, para além do ex-vereador Robles, deve haver vários nos 1% mais ricos do país, mas o seu número total em Portugal é muito baixo).
  • O Bloco e o PCP reforçam o seu discurso populista com as queixas sobre a falta de investimentos estruturais em nome de uma “ditadura” orçamental, mas não referem todos os orçamentos socialistas que aprovaram recentemente e que cortaram o investimento público de uma forma como nunca tinha acontecido nos últimos 40 anos.
  • Ambos abordam as questões das alterações climáticas e da transição energética sem explicarem como conciliar os seus custos acrescidos com as dificuldades que a vida das pessoas irá sentir ao longo do processo, sendo que apenas o PCP alerta para a necessidade de uma transicção gradual, mas sem explicar como.
  • Ambos querem nacionalizar os CTT, um negócio sem futuro, mas não estão preocupados sobre quem é que irá pagar (o custo para os portugueses da nacionalização forçada da TAP não é referido por nenhum dos programas). O PCP porque quer controlar a empresa como faz em outras casos e o Bloco porque continua a viver na ilusão de que pode desalojar o PCP no controlo de alguns sindicatos.
  • O Bloco não quer pagar a dívida que ajudou a criar com as propostas irresponsáveis que apresentou ao longo dos anos. Relembre-se que o Bloco ficou famoso no final da década de 2000, na véspera da bancarrota, por ter proposto, num só ano, gastos num valor correspondente ao dobro da despesa contida no Orçamento de Estado.
  • Os partidos não se referem às questões da descentralização/regionalização e não apresentam medidas para que o Estado português funcione melhor nem para a responsabilização dos funcionários públicos.

Um exemplo concreto das contradições em que assenta todo o programa dos dois partidos comunistas é a habitação. O discurso é cheio de boas intenções que os eleitores vão apreciar: casas para os jovens, casas nos centros das cidades, casas baratas, rendas congeladas. O problema é que não dizem como é que o vão conseguir, o que é, aliás, um dos problemas do comunismo na maioria das propostas que apresenta.

Curiosamente, ou talvez não, defendem o voltar ao antigamente, à prática de Salazar de congelar as rendas. O programa do Bloco pretende dar um ar de sofisticação com o truque do valor de uso diferente do valor da propriedade (chama-lhe a função social da propriedade). Mas é apenas uma forma de esconder que os preços não se alteram e de congelar as rendas sem o admitir. Se as rendas são baixas e não sobem e os custos de construção e manutenção vão subir com os aumentos salariais que os dois partidos defendem, como é que se vão manter os edifícios e evitar a sua degradação, como aconteceu ao longo de todo o século XX? O Bloco e o PCP não respondem a esta questão porque não têm resposta para dar.

Não só não têm resposta como ainda prejudicam o mercado de habitação ao defender a abolição ou a limitação de todo o tipo de actividades que permitem a recuperação das habitações e a regeneração dos centros das cidades portuguesas.

Em termos práticos, é fácil perceber o que é que os dois partidos pretendem. A resposta implícita contida nos programas para a habitação é a passagem progressiva das propriedades das pessoas para a posse do Estado, que as irá manter ou recuperar (o dinheiro logo se verá de onde virá). Esta espoliação dos legítimos proprietários que os comunistas propõem com a sua transferência para o “colectivo”, é a negação do Estado de direito e da dignidade da pessoa humana, nomeadamente do direito à propriedade privada. É uma colectivização disfarçada de boas intenções que é comum às duas propostas. No meio de mentiras sobre o despejo de inquilinos, a receita comunista é a habitual: aumentar impostos para gastar mais dinheiro em habitação social. No comunismo tudo é fácil, de onde vem o dinheiro não interessa, é apenas uma questão de se gastar.

A verdade é que, em conjunto, os dois partidos comunistas vão gastar como autênticos capitalistas nas próximas eleições, tendo orçamentados mais de 1,3 milhões de euros, dinheiro que é tirado aos portugueses através de impostos.

Em suma, é fácil concluir dos programas que o comunismo não promove a liberdade. Basta sentir a alegria de um vídeo de Pharrell Williams ou de Bruno Mars para se perceber que a riqueza da liberdade se encontra apenas nos países capitalistas e que o comunismo promove uma vivência monótona e sensaborona em que a uniformidade de valores e de ideias leva à pobreza na igualdade. É esta utopia medíocre que o Bloco e o PCP propõe aos portugueses e, infelizmente, há ainda muitos que se deixam convencer.

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