“Cancelem tudo”

"Cancelem tudo” -- como escreve a The Atlantic -- o que não comprometer o abastecimento de bens e serviços fundamentais.

Este título não é um truque de mau gosto para prender o leitor. Também não é muito original (é uma tradução direta de um artigo publicado no The Atlantic. Também não é um título que eu alguma vez pensasse usar num artigo de opinião até ao dia de hoje… mas enquanto escrevia este texto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o COVID-19 uma pandemia. “Nas últimas duas semanas o número de casos de COVID19 fora da China aumentou 13 vezes e o número de países afetados triplicou. Existem atualmente mais de 118.000 casos em 114 países e 4.291 pessoas perderam a vida”, disse o Dr Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

Uso este título, consciente dos riscos, porque julgo que a janela de oportunidade que temos para evitar que se repita em Portugal (e no resto da Europa) a verdadeira tragédia que está a acontecer, por exemplo em Itália, é assustadoramente pequena.

Infelizmente hoje podemos olhar para os dados de vários países e observar que a propagação do vírus segue um padrão semelhante em todos eles, apenas com um desfasamento de dias ou poucas semanas (por exemplo, o Financial Times mostra estes dados). Em termos Europeus, claramente a Itália vai à frente.

Em Itália, o COVID-19 esgotou rapidamente a capacidade dos cuidados intensivos do sistema de saúde da sofisticada Lombardia, que com quase 900 mortos e 12.000 infetados, vive um “cenário de guerra”. O problema é que a Itália “apenas” vai à frente, dando-nos pistas importantes sobre o que se deverá seguir noutros países. Em praticamente todos os países europeus a propagação tem sido exponencial com curvas de crescimento assustadoramente parecidas à italiana. Também em Portugal sairemos da fase de contenção para entrarmos na de mitigação.

Estamos perante um vírus extremamente contagioso e bastante silencioso, ou seja, assintomático numa elevada proporção das pessoas, o que na prática significa que antes de se manifestar numa pessoa, esta corre o risco de ter infetado várias pessoas. Isso aconteceu já entre pessoas saudáveis e doentes, incluindo algumas internadas, mas que não se sabia que estavam infetadas… e que silenciosamente infetaram outros (de acordo com vários especialistas epidemiologistas).

Veja-se o caso da Dinamarca, onde resido, que a 3 Março tinha 2 casos confirmados; 30 casos em 9/3; que nos dias seguintes cresceram para 273 em10/3; e 442 no momento em que escrevo este texto a 11/3. O problema destes números é que, com toda a certeza, não representam a verdadeira dimensão do problema, uma vez que muitos portadores do vírus não têm sintomas e por isso nunca chegam a ser testados.

Por outro lado, o vírus tem uma mortalidade estimada de 3,4%, e de acordo com a OMS, este número pode estar sobrestimado (pelo facto referido de que muitos portadores do vírus não terem sintomas) ou subestimado, porque muito doentes diagnosticados podem ainda vir a morrer.

Infelizmente, e independentemente dos números, a melhor forma conhecida de combater o seu crescimento descontrolado é o “distanciamento social” e isolamento das pessoas, incluindo não apenas as pessoas já diagnosticadas como infetadas, mas de todas as pessoas, incluindo todas as que julgamos não estarem infetadas. Infelizmente temos de parar tudo o que puder ser parado. Cancelar já todos os eventos que não sejam absolutamente essenciais.

O isolamento é muito difícil de implementar porque é socialmente completamente contra-natura e hostil à atividade económica. É difícil explicar a um jovem ou adulto que se sente saudável (mesmo que seja Presidente da República) que tem de ter cuidados redobrados com contactos sociais e tem de ficar em quarentena, para proteger as pessoas que estão à sua volta, principalmente as mais vulneráveis.

Vejamos o que aconteceu na China, com a precaução de usarmos “estatísticas oficiais”. Antes da China cancelar todas as reuniões públicas, pedisse à população para entrar em quarentena, selasse a região mais afetada, o vírus estava a propagar-se de maneira exponencial. Só com a imposição do distanciamento social, o número de novos casos diminuiu em cada dia. Agora todos os dias temos notícias de números crescentes de doentes infetados com COVID-19 que estão curados, enquanto o número de novos infetados está a diminuir.

Porém, estas medidas (parar, cancelar, isolar…) tem muitos riscos e contraindicações várias.

Não podemos cancelar o que compromete o abastecimento de bens essenciais e prestação de serviços fundamentais, como alimentação e saúde. Naturalmente, em muito casos, é difícil estabelecer a fronteira entre o que parece ser essencial e aquilo que o é verdadeiramente. Por exemplo, pode parecer razoável encerrar um campus universitário, mas é sabido que para muitos alunos e frequentadores, esse campus é o único porto seguro que têm, o único local onde tem acesso a comida ou internet.

Obviamente já se observa uma inevitável travagem de toda a atividade económica, o que também não ajuda a própria “saúde”. A pobreza é também uma das principais inimigas da saúde.

Esperando que os nossos líderes estejam à altura do momento, temos todos individualmente a obrigação de contribuir com elevado sentido cívico individual. Devemos cumprir todas as indicações das autoridades de saúde, lavar regularmente as mãos e cumprir as medidas de higiene. Mas é com o distanciamento social e o auto-isolamento quando indicado, que melhor podemos todos contribuir, para evitar a aceleração da propagação, sendo também o que melhor podemos fazer para nos proteger e proteger também os outros, principalmente os mais frágeis e vulneráveis.

  • Colunista convidada. Professora Catedrática na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa

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