Cannes Lions – Resumo da edição de 2017 em 5 pontos

Portugal baixou consideravelmente a sua prestação nos prémios do festival de publicidade de Cannes.

O festival de publicidade de Cannes deste ano, não foi apenas mais um ano de festival. Foi o ano em que apareceram as primeiras grandes críticas à organização do mesmo, por parte de dois dos maiores grupos mundiais da publicidade. Foi também o ano em que as empresas de tecnologia e as consultoras digitais apareceram como os grandes sponsors do evento.

Foi ainda o ano em que Portugal baixou consideravelmente a sua prestação nos prémios, mas em que duas jovens da agência Fuel trouxeram da Riviera Francesa um Young Lion de Bronze na categoria de Design, tal como dois jovens da Unicer, mas, desta feita, na categoria de Marketing. Muito haveria para falar sobre o festival, mas o melhor talvez seja mesmo resumir tudo em 5 pontos:

1. Arthur Sadoun e Martin Sorell incendiaram Cannes

Sadoun é há apenas três semanas o CEO do Grupo Publicis, o terceiro maior grupo mundial de publicidade e detentor de agências como a Publicis, Leo Burnett, Saatchi&Saatchi e BBH. Sorell é o fundador da WPP, o maior grupo de agências de publicidade do mundo, e seu CEO desde 1985.

O primeiro, aproveitou Cannes para anunciar às suas agências que em 2018 estavam proibidas de inscrever prémios e delegados em Cannes, bem como em todos os outros prémios internacionais e locais.

O segundo, reagindo às declarações do primeiro, lembrou que este ano tinha cortado em 50% o investimento do grupo em Cannes e aproveitou ainda para questionar aquilo em que Cannes se tinha tornado: um festival demasiado caro e pouco focado na criatividade. Por fim, ainda sugeriu que a Riviera Francesa, em junho, não era o local mais barato e mais indicado para realizar um festival mundial desta envergadura – como alternativa, sugeriu Nova Iorque, Londres ou Paris.

2. Medo no Grupo Publicis e vontade de mudar na organização dos Cannes Lions

A Advertising Age estima que o Grupo Publicis tenha gasto, só este ano, cerca de 20 milhões de dólares em Cannes. Deste valor, apenas perto de 2 milhões dizem respeito às inscrições de trabalhos. O resto do valor terá sido gasto em ingressos para o festival, viagens, hotéis, festas e despesas de representação – ou, como a própria Advertising Age, ironiza: “gastos em rosé”. Segundo Arthur Sadoun, este valor será revertido para a criação de uma plataforma digital interna do grupo, que se chamará “Marcel” e que irá conectar todos os funcionários de todas as agências do grupo.

Na imprensa da especialidade, há quem refira que este pode ser um sinal da Publicis junto do mercado de Wall Street, preocupado com a preponderância que as consultoras como a Delloitte Digital e a Accenture Interactive estão a assumir no mercado.

Dentro da Publicis, outras publicações como a AdNews, dizem que impera o medo da reação que alguns grandes clientes globais possam ter pelo facto de não terem os seus trabalhos inscritos em prémios como Cannes ou os Effie. Por outro lado, teme-se também uma fuga de talentos criativos em massa, rumo a outras networks de agências de publicidade, ou mesmo a agências independentes, que irão continuar a inscrever os seus trabalhos.

A organização dos Cannes Lions, aproveitou esta contestação de dois dos 3 maiores grupos mundiais de publicidade, para anunciar que vai criar um grupo de trabalho com vista a reformar o festival. O mesmo será constituído por agências, grandes anunciantes (como a Unilever e P&G), e ainda pelo próprio presidente da autarquia de Cannes. Serão estas mudanças assim tão profundas? Apenas teremos estas perguntas respondidas na próxima edição dos prémios. No entretanto, importa ler com atenção a entrevista que o brasileiro Jose Papa, CEO dos Cannes Lions, deu em exclusivo ao The Drumm.

3. Um festival de criatividade que mais parecia um festival de tecnologia

Caro leitor, imagine que a sua empresa desembolsou uns 10.000 euros para lhe pagar a viagem até Nice, o Uber até Cannes, a entrada completa no festival e a estadia no hotel Carlton.

Mal chegasse ao seu hotel, iria reparar que a fachada do mesmo estava coberta por anúncios do Spotify. Entraria, faria o check-in e iria colocar as malas no quarto.

Depois disso, iria a pé (é uma distância de dez minutos) até ao Palais do festival, para tratar da sua acreditação.

Nesta viagem, iria passar por vários photobooths do Pinterest, seria acompanhado por uma facha azul do Waaze gravada no chão, passaria pela praia do Twitter, pela praia do Google/YouTube, pela praia do Facebook e pela praia da Oracle.

Já cansado e arrasado pelo calor abrasador da Riviera Francesa, qual seria a primeira coisa com que se iria deparar em frente ao Palais? Ora aí está, com uma roda gigante (daquelas de parque de diversões) patrocinada pelo Snapchat.

Depois de revistado, entraria finalmente no festival. Daria a sua identificação e era-lhe entregue uma credencial, cujo lanyard era patrocinado pela Accenture Interactive. Já no interior do Palais, umas promotoras iriam entregar-lhe uma pulseira (também da Accenture Interactive) com um chip Bluetooth que se ligaria ao seu smartphone e que lhe permitiria trocar contactos com os restantes delegados do festival.

Poderia continuar este exercício e referir a ativação do Instagram, as iniciativas da Delloite Digital, o workshop de VR da Nokia e por aí adiante. Em suma, aquilo que era suposto ser um festival de criatividade publicitária, parece ter-se transformado numa enorme feira de tecnologia. Sobre isto, importa ler a crónica de Ricardo Monteiro, o português que até há pouco tempo presidia ao grupo mundial Havas, na Meios & Publicidade.

4. A Portugal, valeu-nos a FCB Lisboa, as jovens designers da Fuel e os jovens marketeers da Unicer

O ano passado foi um ano dourado para Portugal. No total, as agências portuguesas haviam conseguido trazer para Lisboa um total de 8 leões.

Este ano, as inscrições de trabalhos portugueses no festival, baixaram de 246 para 185 trabalhos. O que faria antever, uma quebra de resultados nacionais este ano.

Até ao momento em que esta crónica foi acabada de redigir, apenas a FCB Lisboa conseguiu trazer um leão de bronze, na categoria de Health. No total, a agência de Edson Athayde, conseguiu acumular ainda 8 shortlists.

No meio das más notícias, brilharam duas jovens designers da Fuel, de seu nome Elsa Rodrigues e Inês Coelho, que conseguiram um bronze na categoria de Design dos Young Lions. Tornando-se desta forma, em dois nomes a ter em conta no mercado criativo nacional e internacional.

Ainda nos Young Lions, existiram dois outros portugueses a brilharem. São eles Mário Alves e José Pedro Silva, ambos da Unicer e que trazem para casa também um Young Lion de Bronze, desta feita, na categoria de Marketing.

Ainda é um pouco cedo para o mercado português fazer uma análise séria e estruturada sobre o porquê da nossa indústria ter tido dado este trambolhão em Cannes. Mas seria bastante interessante que as várias organizações representativas do setor liderassem este debate, de uma forma clara, aberta e inclusiva – sem desculpas, sem lutas de egos, sem amiguismos e sem o discurso habitual do “coitadinhos, somos tão pequeninos”.

5. O que realmente interessa em Cannes é o que realmente sempre interessou

Depois das 17h00, o festival de Cannes tende a transformar-se em algo parecido com uma estância balnear espanhola durante a época do Spring break universitário. Tudo começa com as festas no Oracle Deck, que se expandem depois para a Connection Beach e logo de seguida para as “cabanas” dos patrocinadores.

Acabados estes “sunsets”, alguns delegados decidem ir jantar. Os outros, deslocam-se diretamente para as várias festas das mais variadas praias – alugadas pelos sponsors do festival – que por norma decorrem até às 2 da manhã.

Pelo meio, existem ainda as festas das agências, clientes, produtoras e consultoras, que tanto decorrem em suites de hotéis de 5 estrelas, como em iates de luxo abarcados na marina.

Invariavelmente, mais no final da noite, todas as pessoas terminam de copo na mão, entre o Carlton e o mítico Martinez, invadindo (literalmente) as duas faixas da Croisette de Cannes. O bar aberto das primeiras festas, faz com que facilmente nos esqueçamos do absurdo que é ir depois pagar 30 euros por um copo de rosé no Carlton, ou 11 euros por uma Corona no Martinez.

É certo, que muitos destes momentos se transformam em bons momentos de networking. Mas também é verdade, que às tantas da noite o networking mais se parece com um imenso notworking.

Em suma, o que realmente continua a interessar nos Cannes Lions é aquilo que realmente sempre interessou: ver bom trabalho e ouvir excelentes conferências (estas continuam de uma qualidade irrepreensível). Para quem tiver interesse em ver em detalhe todos os trabalhos premiados este ano, deve aproveitar e aceder a este site, que os irá expor gratuitamente apenas até ao final de Julho.

Durante estes dias na Riviera Francesa, fui escrevendo no ECO todas as novidades dos Cannes Lions. Gostaria, antes de mais, de agradecer ao ECO e à sua direção editorial por este convite, mas também a todos aqueles que foram acompanhando estes artigos de opinião.

Aceitei fazer este trabalho, por entender que o mesmo pode servir para realçar a importância da indústria publicitária no mundo empresarial português – espero que, pelo menos em parte, este objetivo tenha sido cumprido.

Em jeito de despedida, deixo-vos ficar uma galeria de fotografias, tiradas por mim e que servem para ilustrar um pouquinho do que se passou durante estes dias.

Até para a semana!

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

Cannes Lions – Resumo da edição de 2017 em 5 pontos

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião