China SA, China 5G (Parte I)

Dominar os fluxos de informação, apreender toda a torrente dos metadados é vital para a estratégia chinesa. Portugal é peça de um dominó complexo cujo jogo agora começou.

Na última década e meia, o peso da China transformou a economia mundial e o centro de gravidade passou do Atlântico para o Pacífico. A China é potência económica que mais faz pela globalização, pelo multilateralismo e pelo comércio livre. Agora, corre pelo acesso a informação e assusta a Europa e os Estados Unidos.

  1. O meu filho Francisco tinha nascido há pouco e eu acabara de fazer 40 anos. Diante do homem que previra o Fim da História e o Último Homem, arrisquei a pergunta, timidamente: quando ele chegar à minha idade, como será o Mundo? Francis Fukuyama perdeu o formalismo, escancarou um largo sorriso diante da câmara e exclamou: He should learn chinese! O gelo quebrou-se logo ali. Durante uma hora conversámos sobre o novo livro que o trazia a Portugal e por que razão as instituições eram decisivas para que umas nações fossem ricas. E outras não.
  2. Desde o ano 2000 que temos assistido a uma transferência do poder económico do Atlântico para o Pacífico. De forma lenta, mas inexorável, Estados Unidos e União Europeia perderam um quarto da sua influência económica mundial, enquanto a China multiplicou por três o seu peso no comércio. Espaço europeu e americano contavam mais de 60 por cento de todas as importações e exportações à entrada do milénio. No dealbar da terceira década, esse valor desce para perto dos 40 por cento. Após a queda do muro de Berlim, a globalização permitiu multiplicar por quatro o volume das trocas comerciais. E, em parte, da prosperidade. A China foi o principal ator dessa mudança. Não a Europa. Não a economia americana. A China e a Ásia emergente.
  3. Nenhum escrúpulo, nenhum preconceito, apenas o lucro. Nesse aspeto, não pedem meças ao que foi à avidez europeia em tempos históricos de expansão e descobrimentos. A China é hoje uma espécie de firma à escala global, onde só o negócio interessa. Aos EUA vende o triplo do que importa. Para a União Europeia encaminha o dobro do que compra. Somente com o Japão tem um saldo a tender para o equilibrado, ainda que favorável. Apenas com a Alemanha admite um défice comercial. A palavra ‘excedente’ tem uma distinção própria na nomenclatura do partido comunista chinês. Tanto como depreciação artificial da moeda.
  4. Eis a nova arquitetura do palácio do imperador Pequim: nenhum interesse em exportar o seu modelo político e impô-lo além – fronteiras. Todos os regimes são amigos, independentemente das suas ideologias. Abertura total para trocar matérias primas por mão de obra e construção de infraestruturas. Nenhuma ingerência nos assuntos internos dos países com quem firma acordos, assim como não é admissível qualquer movimento inverso. Discutir direitos humanos ou exigir liberdades políticas é proibido, sob pena de se perder o salvo conduto para o maior e mais frenético mercado do mundo.
  5. Para alguém viver a crédito, outros têm de poupar e emprestar. É isso que a China faz, enquanto o Ocidente vive da confiança no futuro e na prosperidade vindoura. Durante décadas, Europa e Estados Unidos acumularam défices e dívida pública porque na Ásia a poupança era imensa e equilibrava o sistema. Seis em cada dez dólares de dívida americana estão em mãos chinesas! Mas o perfil está a alterar-se: A China está a envelhecer e as novas gerações descobriram os encantos do consumo. O próprio Partido Comunista Chinês deixou de considerar o lucro um crime e afana-se em dar solidez ao mercado interno capaz de reduzir a dependência das exportações.
  6. ‘The Silk Road’ é o regresso da China a um Mundo que só não é seu porque historicamente abdicou dessa ambição. Agora, quer fazer da nova Rota da Seda a maior rede de infraestruturas de sempre, por onde fluam as riquezas da sua imensa produção. Sines é, nesse sentido, um ponto estratégico, competindo com o Pireu, Valença e Roterdão. Uma corrida que se estende aos interesses americanos que usam o porto de águas profundas para fazer chegar à Europa gás liquefeito e, futuramente, gás de xisto. O novo terminal Vasco da Gama vai ter uma palavra importante nessa corrida entre o Urso e o Dragão. E que vai marcar as próximas décadas. Tal como o acesso à informação e às redes 5G. São elas que vão determinar o vencedor neste século XXI, a par da manipulação genética e da conquista do espaço.
  • Jornalista. Subdiretor de Informação da TVI

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