Com a pandemia, até os leões são digitais.

"Creativity moves us forward” diz o Festival que se tornou num evento digital de cinco dias, com um daily livestream e mais de 40 horas de pensamento criativo e conteúdos on-demand.

Costumo dizer que sou antiga no mercado. Antiga o suficiente para ter vivido o Cannes Lions, o maior festival de criatividade do mundo, que todos anos levava, em meados de junho, à Riviera francesa, a comunidade criativa global. Estavam lá todos, ou quase todos. Dos criativos que eram referência mundial, aos jovens talentos que anos depois se viriam a confirmar. E até de Portugal, um dos mercados com pouca expressão naquele ecossistema, iam comitivas de agências e jornalistas para conhecer em primeira mão, os grandes vencedores do ano em matéria de criatividade. Tempos em que muitas das campanhas não estavam disponíveis no Youtube, nem no Facebook. Muitas víamos pela primeira vez e era incrível conhecer em detalhe os cases que nos inspiravam para mais um ano de trabalho de trabalho.

Sou antiga o suficiente para recordar o ambiente do Palais (o nome pomposo que se dava ao “palácio” dos congressos de Cannes. De todos os finais de tarde procurarmos a praia com a festa mais elegante ou bem frequentada, de aguardarmos até ao último dia para sabermos quem venceria a chamada categoria nobre a concurso – a de Filme, e claro, usar o melhor vestido que levávamos na mala de uma semana intensa de trabalho, para a Gala de entrega dos Leões. E tive a felicidade de ver agências e jovens criativos nacionais a saírem de Cannes com leões na bagagem.

Sou antiga ao ponto de ter assistido à mudança. Aos criativos começaram a juntar-se, aos poucos, os clientes, as grandes marcas que chegavam ao palco para falar das suas estratégias. Já não se falava apenas de criatividade, falava-se também de eficácia. De resultados. E falo das grandes, da Coca-Cola à Procter. Começava a reinvenção do festival. Até porque sem as marcas, era complicado alimentar um gigante como o Cannes Lions.

A reinvenção continuou com a chegada das tecnológicas e das start-ups. Com elas vieram novos temas, novas categorias e um sentido hype ou cool se quisermos, na altura com o mundo com os olhos postos em Mark Zuckerberg, lá estava ele em palco a falar do seu Facebook. Vieram outras e vieram outros criativos, realizadores como Spike Lee abrindo o festival a categorias como o vídeo amador, até à lendária atuação de Yoko Ono no seminário da Grey, momento que dificilmente vamos esquecer.

Este ano, os tempos são outros e a pandemia também contaminou os leões. “Creativity moves us forward” diz o Festival que se tornou num evento de cinco dias digital que decorreu ao longo de toda a semana com um daily livestream e mais de 40 horas de pensamento criativo e conteúdos on-demand com alguns dos maiores nomes da criatividade atual. Ao contrário de outros anos, apenas assisti a poucas dessas 40 horas, onde se procurou discutir de forma coletiva as novas realidades e desafios da indústria. O que retive como grande novidade? A introdução de uma nova categoria – Creative Business Transformation Lion, que celebra a criatividade que faz os negócios andarem para a frente e irem mais longe, o pensamento criativo que traz mudanças à forma como as marcas se organizam, como a indústria trabalha e como se consegue um engage diferente com as pessoas.

Mais uma vez a reinvenção. Neste caso na forma como as marcas trabalham e proporcionam experiências aos seus clientes, uma categoria que avalia como a criatividade pode ajudar a gerar valor e a trazer vantagens competitivas às marcas através da comunicação, seja qual for o tamanho da empresa, transformative change é o que retiro. Transformação que traga mudanças positivas, já agora.

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