Como se vai governar a Europa?

No meio desta “salganhada” em que se estão a tornar os parlamentos e as coligações governamentais, o grande desafio que a generalidade dos estados europeus e a própria UE têm é a governabilidade.

A Europa é historicamente um espaço de turbulência política. Por aqui não faltaram regimes totalitários, genocídios, guerras, revoluções. Só a criação e o desenvolvimento da atual União Europeia permitiu conquistar décadas de estabilidade, progresso e paz. Apesar de estas conquistas serem difíceis de abdicar, no ADN do europeu não está um espírito de união e solidariedade. Provavelmente, só a memória fresca da tragédia da guerra e dos extremismos do século XX permitiu o desenvolvimento de tantas políticas comuns. Sendo que, sempre que a integração europeia se confrontou com a democracia direta, os resultados não foram propriamente animadores.

Face ao que tem vindo a ocorrer na generalidade dos países, é difícil ser otimista quanto à estabilidade política nos próximos tempos no espaço europeu. Sem estabilidade dificilmente há progresso. E, sem progresso, a paz (pelo menos social) também pode ficar comprometida.

A crise das dívidas soberanas e a obsessão pela austeridade, o terrorismo, a perturbação que o fenómeno das migrações tem causado (com a incapacidade de ter uma resposta comum compreensível), a fraqueza das lideranças e o descrédito dos políticos, a estagnação económica e até uma desagregação da cultura histórica europeia em prol de uma certa ditadura do “politicamente correto”, desgastaram demasiado uma fatia importante do eleitorado, começando a ter efeito relevante nas urnas. Isto é assim, não obstante a Europa continuar a ser a geografia mais equilibrada do mundo em termos económicos e sociais, ao ponto de ser tão ambicionado por aqueles que tiveram o azar de nascer em regiões manifestamente desfavorecidas.

A Era do “centrão” dominador e moderado terminou (pelo menos, por agora). Não há governo democrático sem consensos e concessões, mas também é fundamental que os executivos sejam capazes de tomar decisões eficazes. E a grande dúvida que se coloca é saber como se poderá alcançar isso com partidos tão extremados, como os que rapidamente têm vindo a emergir em quase todos os países europeus. No meio desta “salganhada” em que se estão a tornar os parlamentos e as coligações governamentais, o grande desafio que a generalidade dos estados europeus (e a própria União Europeia) tem pela frente é o da governabilidade. Como se governa assim?

Outro problema que acresce é o facto de na globalização económica os principais concorrentes da Europa não terem este tipo de problemas. Na China de partido único, que consegue ser comunista e capitalista ao mesmo tempo, é óbvio que isto nem é tema. Quanto aos E.U.A., por mais que Trump se esforce em perturbar o sistema democrático, o bipartidarismo – relativamente moderado em temas económicos fundamentais – não parece estar em causa.

Não deixa de ser curioso que Portugal tenha sido precursor nesta nova fase das “geringonças”, conseguindo trazer para o sistema um partido comunista ortodoxo e um partido da extrema-esquerda, tradicionalmente anti poder. Em termos de estabilidade governativa não se deu mal. No entanto, foram anos de puro jogo político cínico, sem reformas abrangentes e sem uma política económica geral que se percecione como coerente, duradoura e descomplexada em relação à iniciativa privada e à liberdade económica.

Seja como for, não vale a pena ter ilusões. Perante o cenário atual que os eleitores estão a escolher, mais do que lideres ideologicamente esclarecidos, os governos terão que ser liderados por quem seja capaz de jogar este jogo político e construir pontes entre as diferentes tendências, por mais distantes que se afigurem. E, neste capítulo, talvez não seja mal visto António Costa começar a fazer roadshows pela Europa a explicar como se “sobrevive”.

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