Comunismo é miséria, com ou sem embargopremium

É triste que de cada vez que se fala na ditadura cubana, logo a contra-informação comunista com muitos apoiantes por cá se lembre de desviar as atenções para o embargo.

Escrever artigos quase todas as semanas num país como Portugal, onde não acontece muita coisa e o pouco que acontece é repetitivo (O que é que o Cabrita fez desta vez? Bocejo...), é desafiante. É particularmente difícil porque as poucas coisas dignas de nota que vão acontecendo são exploradas à exaustão pelas dezenas de colunistas que fazem vida disto. É sempre complicado arranjar um ângulo diferenciador.

De vez em quando tenho sorte e recebo inspiração de borla, permitindo escrever rapidamente artigos que se escrevem sozinhos. Há uns tempos tive a oportunidade de defender o regime económico da Irlanda, o país da UE com mais sucesso dos últimos 30 anos. Tive mesmo o privilégio de o fazer por três vezes e das três vezes ter a atenção e partilhas dos leitores apesar de dizer coisas óbvias: se um país cresceu mais do que os outros, provavelmente o seu modelo económico é bom. Esta semana voltei a ter essa sorte, novamente graças a uma colunista do Público, Raquel Ribeiro, que me dá a oportunidade de criticar o sistema económico de um dos países mais miseráveis do mundo: Cuba. Segundo Raquel Ribeiro, Cuba seria um país próspero não fosse o embargo americano. Era ali que o comunismo iria finalmente funcionar, não fosse o embargo impedir que aquele regime comunista pudesse beneficiar da malvada globalização capitalista.

É evidente que o embargo tem um impacto económico negativo na economia cubana. O comércio livre é gerador de bem-estar económico (curiosamente a única altura em que os comunistas concordam com isto é quando se fala do embargo a Cuba). Restrições ao comércio livre tendem sempre a empobrecer os intervenientes. Por defeito, sou contra qualquer tipo de embargos devido ao regime político de um país, salvo aqueles que impeçam a venda de produtos ou serviços que sirvam propósitos de repressão (equipamento militar, informação, dados pessoais, etc) ou que punam diretamente os líderes de regimes repressivos. Dito isto, o embargo a Cuba está longe de ser o principal responsável pela miséria cubana. Vamos aos factos.

Cuba tem um embargo apenas com os EUA, uma economia grande e próxima, o que alavanca o efeito desse embargo. Mas não há nada que impeça Cuba de negociar com os outros países do Mundo, desde que essas trocas não passem pelos EUA. Não existe um bloqueio comercial, naval ou de outro tipo. Na realidade, nada impede Cuba de comprar e vender produtos aos seus vizinhos da América Latina, à União Europeia ou à China. Cuba compra todos os anos cerca de mil milhões de dólares a empresas em Espanha, o seu maior fornecedor e cerca de 800 milhões à China, o segundo maior. No total, Cuba importa cerca de 5,3 mil milhões de dólares de 90 países diferentes (incluindo os EUA). O que impede Cuba de comprar mais coisas a países estrangeiros? A incapacidade do seu sector produtivo em exportar para obter divisas para importar.

Apesar de importar 5,3 mil milhões de dólares, Cuba apenas exporta 1,2 mil milhões, criando um enorme défice na sua balança comercial que só é parcialmente compensado pelas receitas do turismo que superam em muito as receitas de exportação. Note-se a diferença entre esta realidade e a propaganda comunista.

A propaganda comunista fala no embargo como criando dificuldades à compra de produtos essenciais, critica os EUA por não permitirem o acesso a bens alimentares, quando os EUA até são o maior fornecedor de carne para Cuba. Só que o principal problema da economia cubana não é o que não pode comprar ao estrangeiro, é o que não consegue vender por não produzir. O embargo deveria funcionar igualmente para os tipos de transação: importações e exportações, mas as exportações são bastante inferiores às importações. O factor limitador às importações, ou seja, ao que Cuba consegue comprar a países com os quais não tem embargo não é o embargo, é a incapacidade da economia cubana em produzir algo que os países com os quais não tem embargo querem comprar. Como não produz nada que os outros países querem comprar, depende do turismo e da ajuda externa para conseguir importar, daí a enorme diferença entre exportações e importações.

Porque é que Cuba não consegue comprar mais produtos de outros países com os quais não tem embargo? Porque o comunismo destruiu a economia ao ponto de não lhe permitir ter nada para vender e obter divisas essenciais para comprar mais. Se amanhã os EUA levantassem o embargo, este problema continuaria: Cuba não teria nada para exportar para além de açúcar, tabaco e algumas matérias-primas (que somam cerca de 90% das suas exportações actuais) e sem exportar não teria capacidade de importar.

O embargo tem um efeito negativo sobre a economia cubana. Cuba é ainda mais pobre do que seria de qualquer forma por causa do embargo. Mas essa não é a principal razão da sua pobreza. Cuba é pobre por causa do comunismo, porque é isso que o comunismo faz aos países. Em Cuba e em qualquer parte do mundo, comunismo é pobreza e miséria. Quanto mais comunista, mais pobre, como já deveríamos ter aprendido nos últimos 60 anos.

É triste que de cada vez que se fala na ditadura cubana, logo a contra-informação comunista com muitos apoiantes por cá se lembre de desviar as atenções para o embargo. Mas independentemente das avaliações subjectivas do impacto do embargo, Cuba é uma ditadura e isso não é culpa do embargo. Não é por culpa do embargo que há um partido único em Cuba, nem é por culpa do embargo que o clã Castro governou durante mais de 50 anos e não é culpa do embargo que não há imprensa livre em Cuba. Essa é uma decisão dos ditadores cubanos que, como em todo o lado, acharam que a única forma de manter o “paraíso comunista” era roubar a liberdade ao seu povo.

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