Covid Convida

Os portugueses merecem um Governo que não os reduza à passividade do medo nem à agressividade selvagem do egoísmo.

Lisboa está a 625 Km da capital covid da Europa – Madrid. A mesma Madrid que entra em estado de emergência por um período de duas semanas. Mas a livre circulação de bens, pessoas e capitais continua normalmente.

Estudantes Erasmus vindos de Espanha estão na origem de um surto epidémico numa Universidade portuguesa. Na França o número de infecções diárias cresce sem apelo nem agravo. Na Alemanha o Governo afirma que a pandemia pode ficar descontrolada e atingir o número dos 10,000 casos diários. Na Grã-Bretanha é o caos e o descalabro com a contabilidade das infecções diárias a atingir as 19,000 ocorrências. Em Portugal os casos crescem há meses e o Governo enche a cabeça de areia porque o Orçamento está em negociações com a sensibilidade da Esquerda. Aliás, a Esquerda e a Direita em Portugal têm um pensamento político zero sobre como enfrentar politicamente a pandemia. Talvez por essa razão se façam acompanhar por uns senhores com batas brancas, estetoscópio ao pescoço, como as máscaras, enquanto os políticos debitam teorias e fantasias sobre aquilo que não sabem nem conseguem prever.

O discurso é tão desconcertante que por vezes é possível imaginar que os excelentíssimos governantes trocaram o uniforme do hospício, vestiram fatos e tailleurs a condizer, tomaram a medicação para a esquizofrenia e vêm a público exibir a normalidade que não existe ao sabor dos conselhos das batas brancas. Qualquer português consciente deve sentir vergonha pelo espectáculo da incúria e da omissão que pode acabar confortável na profundidade dos pulmões de cada leitor desta crónica.

Parece que o País vive em negação. Parece que em cada responsável político existe um pequeno génio que assobia para o vazio porque tem medo do escuro. Entre o delírio das grinaldas no discurso que não dispensam o kitch plástico das borboletas encantadas, Governo e especialistas recomendam o mais científico distanciamento social em apartamentos minúsculos, mais a etiqueta respiratória no cubículo confinado dos escritórios, mais álcool gel nas avenidas estreitas de uma carruagem do Metro, e quando chegarem a casa não se esqueçam de lavar as mãos com uma barra de sabão duro no fundo de um frasco cheio de água.

Há em todo este circo um módico de fatalidade e de resignação, como se cada português cidadão fosse um pedinte num passeio sujo de uma cidade à espera de uma esmola que vem sempre acompanhada com a frase automática – “Tenha paciência, não tenho moedas”. Um Governo sem moedas mas que se prepara à pressa e em pânico para gastar as subvenções da Europa a bem da Resiliência da Nação.

Em Portugal, a abordagem política da pandemia não é tecnocrática nem pretende ser holística. A tecnocracia é a proliferação dos quadros e dos gráficos que quando separam a informação do contexto social funcionam como uma exposição de arte abstracta e politicamente nula. A aproximação holística observa a realidade social como um todo orgânico, mas na circunstância do Governo a realidade são as paredes do Conselho de Ministros e as Directivas de Bruxelas. Tudo somado, a política pandémica do Executivo é um cortejo de improviso com carros alegóricos à Ignorância, à Incompetência, ao Cálculo Político, à Insensibilidade Social. O cortejo do Governo encerra a lógica demente que antecipa o cancelamento do Carnaval.

Por respeito e deferência, os portugueses devem ser informados que a eventual supressão do vírus é actualmente uma impossibilidade. Com as vagas que o vírus entender e que o comportamento individual e colectivo possa estimular, não deixando de contabilizar a contribuição política, o covid talvez tenha entrado na cadeia de contágio humano para ficar confortavelmente entre nós. A vacina que todos esperam pode não ser o elixir da longa vida que vai libertar a Humanidade da pandemia. O futuro imediato está escrito nos tons de uma obra-prima onde as fraquezas humanas chocam com as incertezas das inclinações políticas.

Os portugueses também deviam ser informados que há sempre um grupo de alienados que habitam entre nós. Sejam negacionistas, seguidores das teorias da conspiração, fracos de espírito e de constituição, farão tudo como se nada fosse. Os alienados julgam-se sempre invencíveis, superiores à massa social normal, imunes por natureza, autoritários por vocação. São uma quimera perigosa com cabeça de leão, corpo de gazela, cauda de serpente. Encerram a mitologia de todos os perigos.

Depois da crise de saúde pública, depois da crise económica que se aproxima, virá certamente uma crise cultural a tocar a civilização. A visão talvez seja a imaginação de uma Distopia política onde predomina uma nova hierarquia social. Os Alphas no topo da pirâmide, os Betas ao comando da produção, os Gammas e os Deltas como trabalhadores menores, os Epsilons no lugar último da sub-classe. A hierarquia do vírus reproduz na exactidão a hierarquia social entre a imunidade e a morte. Entre o desgaste do medo e a fadiga psicológica, os portugueses merecem um Governo que não fuja da informação e da verdade. Os portugueses merecem um Governo que não os reduza à passividade do medo nem à agressividade selvagem do egoísmo.

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