Crianças 4.0

Neste admirável mundo novo, processar informação é coisa que algoritmos informáticos fazem com vantagem. Já o espírito crítico, a criatividade ou o sentido ético são próprios da natureza humana.

No outro dia, a quarta revolução industrial chegou ao meu telemóvel. Recebi um e-mail e, para meu espanto, constatei que o serviço de correio electrónico me oferecia três hipóteses de resposta automática prontas a usar, mas devidamente contextualizadas. Confesso que achei o Gmail um pouco intrometido, por me andar a “ler” a correspondência, mas chamam-lhe inteligência artificial. E dizem que o futuro é assim, com as coisas a ter internet e as máquinas a conseguir aprender por elas mesmas, através da análise do big data.

Nos últimos quatro dias, o Fórum Económico Mundial esteve reunido em Davos a debater este tema, entre outros. Segundo um seu estudo, há milhões de empregos que serão tomados por robots; em contrapartida, mais de metade das crianças que estão actualmente no ensino primário terão profissões que hoje não existem. Claro que isto de narrar o futuro é sempre um exercício complicado (bem recomendava o João Pinto que se fizessem os prognósticos no fim do jogo). Em 1930, Keynes escrevia um ensaio, “Possibilidades Económicas dos Nossos Netos”, no qual defendia que dali a 100 anos, graças aos avanços tecnológicos, as pessoas trabalhariam apenas 15 horas semanais, tendo muito mais tempo livre.

Até agora não tem sido essa evolução em Portugal. Contrariamente às previsões keynesianas, não vivemos angustiados por não saber como ocupar as horas que nos sobram. Pelo contrário, andamos atormentados com a dificuldade que é conciliar as vidas profissional e familiar. O que talvez ajude a explicar o terceiro lugar que ocupamos entre os países da OCDE no consumo de antidepressivos. Ou o aumento do número de crianças medicadas com ritalina. Dados que nos deviam fazer pensar sobre a sociedade que estamos a construir e, especialmente, sobre como queremos que ela seja.

Em Davos, foi o que andaram a fazer. “Criar um futuro compartilhado num mundo fracturado”, mote da reunião deste ano, obriga a que se arrisque uma antevisão e que se prepare um plano. Quando me perguntam que empregos irão sobreviver nas próximas décadas, costumo responder com “filósofo”. Não é tida como a mais antiga profissão do mundo, mas já cá anda há bastante tempo, sobrevivendo a umas quantas revoluções. E foi o berço de várias ciências, Economia incluída. Provocação à parte, neste admirável mundo novo que estamos a criar, o trabalho físico é facilmente substituído por máquinas e processar informação é coisa que algoritmos informáticos fazem com vantagem. Já o espírito crítico, a criatividade ou o sentido ético são próprios da natureza humana e pouco “robotizáveis”.

Estranhamente, parecemos achar que criar pequenos autómatos é que nos vai preparar para este amanhã. E andamos demasiado entretidos a discutir quem deve suportar os custos da creche. Mas aquilo de que as crianças precisam é de ser crianças, com tempo para brincar, para fazer de conta, para colocar questões, para explorar. Precisam de desenvolver a sua inteligência emocional, porque na artificial têm concorrência séria.

Davos termina hoje, mas 2030 ainda não chegou. Aumentar as possibilidades económicas dos nossos filhos ainda está ao nosso alcance. E podemos, tal como é a missão com que se comprometeu o Fórum Económico Mundial, melhorar o estado do mundo.

Nota: Vera Gouveia Barros escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

Disclaimer: As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente a sua autora.

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