De frágil a ágil: a proteção social do século XXI

Perante a ineficiência dos modelos de proteção social e um complexo mercado laboral onde a noção de empregabilidade enfrenta uma profunda transformação, essa proteção depende de novas soluções

A disrupção tecnológica transformou o nosso quotidiano. Chamamos um motorista a partir do smartphone, compramos produtos online e gerimos o nosso dia a dia com o apoio de assistentes virtuais inteligentes, por exemplo. Tudo isto de forma simples e altamente personalizada.

No entanto, à medida que o mundo se torna cada vez mais tecnológico, importa lembrar que as pessoas permanecem no centro da economia digital. E que, em vez de empregos estáveis, muitas pessoas acumulam trabalhos flexíveis, rendimentos extra e negócios em nome próprio.

Hoje esbatem-se fronteiras entre empregos tradicionais e irregulares. É a era da gig economy – que agrega empregos temporários, autónomos e freelancers –, de novos empregos e de diferentes valores. Os millennials, por exemplo, mudam mais de emprego do que qualquer outra geração e são mais propícios a pausar a carreira em troca de prioridades como família, formação ou viagens.

Este novo mercado laboral está, contudo, francamente desprotegido perante uma conjuntura adversa, acidentes ou carências na idade da reforma.

O futuro da proteção social

Torna-se cada vez mais evidente que os sistemas tradicionais de proteção social estão a perder a capacidade de proteger, efetivamente, as pessoas. Os constrangimentos financeiros dos Estados, o baixo índice de natalidade e o crescente aumento da idade da reforma e da longevidade expõem a insustentabilidade dos modelos públicos, desenhados para uma lógica ultrapassada de “emprego para a vida” e uma demografia cujo paradigma mudou definitivamente.

O financiamento dos sistemas atuais de proteção social baseia-se nas taxas sobre salários. Mas que resposta poderão dar, por exemplo, à agilidade da gig economy, às carreiras não-lineares ou às pessoas que procuram, simplesmente, uma reforma em part-time?

Situações como estas ilustram a crescente complexidade do mercado laboral. Os percursos profissionais tornam-se cada vez mais diversos com o desvanecer da carreira tradicional, mas todos devem ter acesso a sistemas de proteção seguros e justos. É urgente construir novas soluções de proteção ágeis, que possam dar respostas efetivas a esta realidade.

A partir destes desafios, os novos modelos de proteção social deverão conseguir assegurar certas premissas: proteção contínua ao longo da vida, adaptada às diferentes fases da carreira; Mobilidade entre empregos, sem perda de benefícios ou poupanças; E longevidade de cada carreira, com uma abordagem gradual à reforma. Estas são, aliás, algumas das reflexões iniciais de um projeto de investigação a três anos do Grupo Zurich, em parceria com a Universidade de Oxford, centrado na “Proteção Ágil”.

O futuro da proteção social passa por soluções inteligentes e individualizadas, sem eliminar – por uma questão de equidade – soluções coletivas para certos setores ou geografias. A agilidade moldará também o financiamento destas soluções, com uma responsabilidade partilhada entre indivíduos, comunidades, empregadores, seguradores e governos.

Adiar uma resposta concreta apenas agudizará insuficiências nos sistemas atuais de proteção social. Como sociedade, é-nos exigido que antecipemos novos modelos sustentáveis para um apoio efetivo às pessoas na sua realização pessoal e profissional. Só deste esforço conjugado entre indivíduos e entidades é que poderá nascer uma verdadeira proteção social do futuro: ágil, segura e à medida de cada um de nós.

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