Debates & Debates

Entre o reality show e a sitcom, os debates permitem a difusão democrática do delírio institucional e político, com um discurso fantasioso e distante da dignidade que acompanha a figura do Presidente.

É um autêntico massacre. Horas e horas de debates presidenciais onde se discute tudo menos as presidenciais. É um desfile de moda crise em que os candidatos vão nus de ideias, despidos de inspiração, obcecados pelos pecados políticos dos outros e cegos à triste figura que espalham pelo País. Os debates não têm qualquer intenção de esclarecer ou explicar aos portugueses a razão de tanto empenho democrático. Os debates servem apenas para os políticos se enganarem enquanto nos enganam, estando eles também enganados. No fundo, tudo se resume a um exercício de retórica em que os candidatos falam do que não sabem para talvez acertarem no que não querem.

Estamos em presença de um menu político farta brutos. A qualidade política resulta sempre da depuração criteriosa da quantidade – quanto maior o número de delírios políticos agregados, maior a qualidade da democracia. Terrível desfeita que esgota a paciência e destrói a crença na democracia. Os candidatos parecem por vezes um lote de “analfabetos funcionais” que habitam um País desconhecido, transportados para o estúdio como gladiadores numa jaula com o propósito de fazerem prova de vida política ao derrotarem o seu adversário na arena. Para além da “morte em directo” sobra a pretensão, o irrealismo e a comédia.

E não faltam momentos de comédia. Entre o reality show e a sitcom, os debates permitem a difusão democrática do delírio institucional e político, com um discurso fantasioso e distante da dignidade e da responsabilidade que acompanha a figura do Presidente da República. São o arco-íris das pedras do mar, são as imagens maléficas dos ciganos, são os travestis de direita acusados pelo transformista de direita, são as frases liberais retiradas de um manual político ainda em fase de digestão, são os comunistas reciclados pela Europa, são os bloquista incomodados com Portugal, são os deserdados do PS, são as marcas da sabedoria milenar de um Zé-Povinho que afinal não faz o manguito. No fundo, debates que mostram até que ponto dentro dos políticos só existem políticos.

Quanto ao Presidente Candidato é o obscuro objecto do desejo político. O perfil do Presidente Candidato é interpretado por dois heróis em dois actores – o primeiro, sereno e paternal; o segundo, cínico e letal. As duas personalidades são completamente diferentes e antagónicas, mas o Presidente Candidato é exímio na gestão das personas, de tal modo que os portugueses olham o filme sem repararem no artifício. A necessidade que os portugueses têm de acreditar na genuinidade de uma personalidade política cria este ângulo de visão cego. Podemos não saber o que os candidatos pensam do exercício das funções presidenciais, mas também não sabemos o que o Presidente Candidato pensa do novo perfil político do Presidente Reeleito. Nesta omissão está o vazio completo relativamente a uma qualquer ideia para o futuro de Portugal.

Os debates têm assim decorrido numa bolha artificial, opacos à escalada da pandemia, distraídos de um propósito nacional em função de uma Europa em movimento, alienados de um Mundo complexo e em transição, centrados no provincianismo de um País periférico, em que o atraso se disfarça com camadas de verniz em frente ao espelho dos euros fáceis de Bruxelas. Portugal é um País virado para dentro, um País que se observa como uma peça num museu, onde a eminência da mediocridade desfila com impunidade na passerelle de todos os projectos políticos falhados. Os debates são o megafone de um atraso secular.

No entanto, na complexidade da reflexão política indígena, os debates encerram segredos que só os iluminados no labirinto da política à portuguesa conseguem entender, visualizar, enfim, perceber. É óbvio que nos corredores políticos de uma casa portuguesa existe com certeza uma chave de leitura para o coreto da “hipocrisia organizada”.

Os debates continuam a demonstrar que em Portugal não são necessárias ideias políticas, mas é obrigatório o domínio de um vocabulário pretensamente político. Dito de outro modo, para os fins internos a política são as palavras, ponto final. E que nos dizem as palavras políticas? Pois que o aparecimento de um candidato populista veio desorganizar a velha arquitectura instalada relativamente à hierarquia e à função dos debates. A Esquerda não sabe como combater o tom desbragado do populista único, não sabe como responder, como debater, perante um dilúvio de insultos saídos de uma máquina acéfala de palavras políticas. A Esquerda, perante um adversário político que não reconhece a sua superioridade moral, definha, hesita, gagueja entre a indignação e a escalada política verbal até ao limite do ódio. É o evangelho da democracia que colapsa na indústria das palavras.

Quanto à Direita democrática, desafiada no seu monopólio natural, percebe as limitações da Direita populista perante o irmão maior. A mesma Direita populista que sabe que precisa da Direita democrática para prosperar e só depois a poderá atacar e destruir. São irmãos de sangue separados por séculos de ideias e de experiências políticas. Interessante é facto de mesmo através da banalidade e da vulgaridade do debate político nacional, a realidade histórica da política acaba sempre por desafiar a mais inocente superstição democrática. Em tempos de paz nasce o apocalipse.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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