Dias Mágicos

Calamidade na Europa resulta de um sentimento de arrogância e de impunidade alimentado pela prosperidade. Nunca, ninguém,pensou que um “vírus da China” iria resultar na corrente pandemia.

Quatro horas vive o vírus numa moeda. Com carros de polícia na rua e altifalantes estridentes – “Fiquem em casa”. E em casa os portugueses ficam rodeados do que têm e do que não têm com famílias numerosas ou simplesmente na solidão. Os mais vulneráveis arriscam-se a ser a moeda de troca numa situação desesperada e na lotaria dos ventiladores, fiquem os zoomers e vão-se os boomers.

A apologia do tempo em família parece um filme dos anos trinta, um episódio de propaganda política para legitimar o papel omnipresente do Estado. A família democrática parece ser mais domesticada, mais sintonizada numa harmonia comum e num convívio organizado. Repetem-se os conselhos didácticos de como entreter as crianças, as recomendações aos pais para serem professores em escolas fechadas e agentes de autoridade nas brincadeiras banais. Tudo parece perfeito, a tender para um anúncio do Ikea.

A certa altura é tal a perfeição da família democrática reduzida ao espaço vital de um apartamento que o observador desatento é capaz de confundir a apologia fascista da unidade básica da sociedade. Não se esqueçam que ainda estamos na primeira semana de um período de tempo desconhecido, mas que promete ser mais longo do que se pensa. Em casa estão no céu, porque o inferno são os outros. A rua é como o recreio de uma prisão, para ver o Sol e passear o cão.

Nestes dias todos os Governos falam do passado, para assustar; e falam do futuro, para elevar a esperança. Mas no essencial todos os Governos deviam falar no presente, no conjunto de acções concertadas e globais para fazer face à crise. A calamidade na Europa resulta de um sentimento de arrogância e de impunidade alimentado pela prosperidade. Nunca, ninguém, em tempo algum, pensou que um “vírus da China” iria resultar na corrente pandemia que progride pela Europa como em tempos medievais. Mas se a China exporta tudo para todo o Mundo, porque não também exportar um produto viral de fácil administração e resultado garantido.

São grandes os esforços do Governo da China para não ficar associado e este tempo de emergência, mas os factos desmentem o esforço ideológico e a ofensiva diplomática. É comum em sectores mais progressistas falar-se de indemnizações pelas injustiças do colonialismo, tal como se torna comum falar em reparações devidas pela China ao resto do Mundo pelo colapso económico e perda de vidas. Não é por acaso nem fruto de um altruísmo espontâneo que o Império do Meio organiza expedições humanitárias à Europa em nome de uma Humanidade comum e de valores universais que a própria China renega e reconstrói à medida dos seus interesses políticos. As máscaras, os médicos, os conselhos, os ventiladores, fazem parte de um package que expande o poder imperial da China ainda mais profundamente no coração do Ocidente debilitado.

Não existe vestígio de xenofobia na constatação de um facto, nem existe qualquer distorção que utiliza o critério das relações de poder para a análise da realidade contemporânea – este é aliás o impulso implícito nas perspectivas pós-moderna e pós-marxista e na fulgurante e dominante lógica da política da identidade. Entretanto, o Mundo recolhe-se na aparente segurança de quatro paredes, dois plasmas, quatro tablets, três laptops e incontáveis operações em smartphones transformados em extensões tecnológicas da mão humana.

Depois há a maravilha do tele-trabalho, uma versão hard da tele-escola em formato digital e controlo remoto. No horário de expediente põem-se as crianças a crescer em frente à televisão, ou a dormir uma salutar sesta quimicamente induzida, e a grande sociedade capitalista e industriosa retoma a actividade na clandestinidade do Mundo virtual e tele-assistido para o progresso e a riqueza das Nações.

Neste incessante intercâmbio, ensaia-se a lógica da Globalização no palco de um teatro amador, alimentando-se no entanto a ilusão de que a situação é saudável, sustentável, superlativa, quando comparada com a realidade concreta. Se os Algoritmos da Inteligência Artificial fossem perfeitos, poderíamos mesmo imaginar que o passado industrial e dos serviços não passam de uma fracção de segundo na mente da Humanidade. Convém sublinhar que estes são os mesmos Algoritmos que permitem o controlo epidémico da doença na China com métodos intrusivos em que os indivíduos são considerados como um conjunto de dados agregados em prol de um propósito politicamente designado. Cada indivíduo tem um código de barras atribuído pelo Grande Edifício da Administração.

Sobram as redes sociais. As redes sociais são como um café numa vila suburbana. Entre mensagens de celebridades, concertos de rock stars e a infantilidade dos adultos, aparece sempre o idiota da aldeia, o comerciante revoltado com a falta de apoio do Governo, o consumidor que não consegue comprar gel desinfectante, o diligente que não encontra papel higiénico, o altruísta disposto a ajudar a Humanidade, o delirante capaz de odiar a Humanidade, o camionista retido numa qualquer fronteira, ocasionalmente alguém com bom senso e ideias sensíveis. A Europa parece o rei Luís XVI enquanto a Assembleia Nacional decide o destino da guilhotina – na tranquilidade do palácio lê poesia clássica e sonha com a imortalidade.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

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No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

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