Do Museu ao Gulag

Nos dias que correm haverá inúmeras pessoas que pensam ser escandaloso falsificar um manual científico, mas não veriam mal algum em falsificar um facto histórico a favor da única e verdadeira “Causa”.

Está um calor lento e opressivo, o Verão domina a paisagem da cidade, a cultura da ignorância absorve a discussão política, mas Portugal apodrece ao Sol sem decência e sem memória. Para o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, é escolhida por “concurso público” uma militante comunista sem credenciais académicas e sem experiência profissional. O importante parece ser a proposta para a Programação do Museu, um recital de lugares comuns que passam por uma “visão integrada e inclusiva” da Instituição, mais um “conjunto de temáticas contemporâneas” onde não pode faltar as “questões de género” nem a obrigatória “inclusão social”. A melodia ecoa na Arcádia contemporânea como o Hino dos Pioneiros para disfarçar o saque político da verdade.

A questão que se levanta não é uma composição corporativa, nem será tão-pouco a afirmação de uma preponderância profissional. Num tempo de incerteza radical, num tempo em que a soberania da memória domina o debate político internacional, num tempo em que a “cultura do cancelamento” se afirma como uma guilhotina progressista e pós-moderna, é “escolhida” para guardião da memória da resistência e da liberdade uma personagem que desconhece ou que nega os atentados contra a resistência e contra a liberdade protagonizados pela Ideologia Soviética que ainda hoje suporta e sustenta a visão do Mundo do PCP.

O Gulag não existe no vocabulário comunista. O Gulag é uma invenção da propaganda ao serviço do grande capital. A visão oficial do PCP contém o cinismo da cobardia política, é uma ofensa à Humanidade, é o desprezo e o ódio por todos aqueles que por discordarem pagaram com a vida e pagaram com a morte. Neste particular, o PCP está parado no tempo, mas o tempo tem de ser impiedoso com as responsabilidades e cumplicidades históricas e políticas do Partido.

O pensamento anti-democrático primário e sectário do Secretário-Geral do Partido é como o fogo de campo ao cair da noite e que se propaga como uma praga ao espaço livre das complexidades e das culpas da História. O PCP não tem o monopólio do sacrifício e da resistência contra um regime fascista que dominou e domina ainda uma significativa parcela da mentalidade política portuguesa. Os Funcionários do Partido não são a vanguarda da verdade, mas Comissários de uma mentira que dominou as consciências políticas do século XX com a ideia tóxica dos “Amanhãs que Cantam” e o oceano vermelho da ferrugem nas colinas de Kolyma, restos abandonados que sobraram da construção do “Homem Novo”.

Enquanto na Europa e na América a campanha “Black Lives Matter” domina os conflitos culturais no debate contemporâneo, um debate que concretiza de modo absolutamente radical a vertente pós-marxista da política da identidade, uma identidade baseada na cor da pele e na expressão de um “racismo estrutural”, onde não é possível a discordância com a ortodoxia sem o risco do ostracismo e da intolerância na forma de um cancelamento, em Portugal é a apatia.

O cancelamento é a condenação ao silêncio pela ditadura da minoria, o cancelamento é a supressão intelectual de uma opinião divergente, o cancelamento é a execução simbólica de todos os que não se resignam e insistem em ter opiniões na exigência da liberdade e no exercício da resistência. Numa visita ao Jardim das Estátuas de Lenine, vi ratos do campo com as suas pequenas calças brancas, e aranhas, e lagartos, e a memória e o silêncio de todos aqueles que não sobreviveram ao inferno branco do Gulag.

Como afirma a clássica cartilha revolucionária, como estipula o “Pequeno Livro Vermelho”, como se faz em tempo de “Revolução Cultural”, como se debate hoje no Mundo Contemporâneo, não pode haver tolerância para os apologistas da intolerância, não pode haver liberdade para os inimigos da liberdade.

A nova Directora do Museu do Aljube deve distanciar-se das posições ortodoxas do PCP, deve assumir a realidade da “escravatura ideológica” praticada nos “Campos de Trabalho” da Era Soviética, deve demarcar-se da Grande Estrutura Burocrática e assumir o risco da liberdade, embora na lógica do Socialismo Real estar só e pensar pela própria cabeça é ideologicamente criminoso e humanamente arriscado. Que a nova Directora tenha a coragem para assumir o vigor respeitável associado à dignidade humana. Não se esconda na sombra de um Muro da Memória, não desapareça no silêncio do Centralismo Democrático.

Uma sociedade não democrática que tivesse conseguido perpetuar-se a si própria estabeleceria um sistema de pensamento esquizofrénico, no qual as leis do senso comum seriam válidas na vida normal, mas poderiam ser ignoradas pelo Político, pelo Historiador, pelo Sociólogo.

Nos dias que correm haverá inúmeras pessoas que pensam ser escandaloso falsificar um manual científico, mas não veriam mal algum em falsificar um facto histórico a favor da única e verdadeira “Causa”. É no momento em que a História e a Política se cruzam que o totalitarismo vem à superfície e exerce maior pressão sobre a verdade. A esquizofrenia sistemática da “Causa” deve ser combatida até ao limite da dignidade humana para reposição da possibilidade de pensar, pelo exercício da Resistência e pela exigência da Liberdade. Este é o projecto para um Museu da Resistência.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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