E depois do storytelling?

Se por cá, no contexto do marketing, há de tudo – os que estão cansados e os que acreditam ainda na força da expressão, em Marrocos, por outro lado, o sentimento começa a ser de saudosismo.

Se há palavra que nos últimos anos nos habituámos a ouvir no discurso das marcas e das agências criativas foi storytelling. A cada nova campanha lá vinha, e vem, o storytelling como uma ferramenta para contar uma história endossada pelo fator estrangeirismo e que foi ficando…Ainda que algumas vozes nos dissessem que ele – o storytelling, esteve lá sempre, porque elas – as marcas, sempre tiveram e terão uma história para contar.

Se por cá, no contexto do marketing, há de tudo – os que estão cansados e os que acreditam ainda na força da expressão, em Marrocos, por outro lado, o sentimento começa a ser de saudosismo. Porque o verdadeiro storytelling (tal como o país o conhece) está talvez a ser substituído por um sentido de vida mais moderno e por consumidores de outros conteúdos.

Em Marraquexe, o storytelling é uma prática antiga, que se acredita remontar ao século XI e que contribuiu, de certa forma, para que a Praça Jemaa el-Fna fosse considerada Património Cultural Imaterial da Humanidade, da UNESCO: “A Praça, como espaço físico alberga uma rica e inatingível tradição oral “disse, na altura, o poeta espanhol Juan Goytisolo.

Mas são já poucos os storytellers – ou “hlaykia” – como são chamados. Alguns talvez para turista ver, já é difícil distinguir … curioso, que na edição deste ano, e fora de contexto, na House of Beautiful Business uma das talks tivesse como tema: “It’s All True: Storytelling in an age of fake news” … Serão originais ou fake os hlaykia que ainda vamos vendo na Jemaa el-Fna?

Tradicionalmente apareciam depois do sol se pôr na praça, onde se juntavam a músicos, encantadores de serpentes e a tatuadoras de hena, que sempre deram ao lugar um certo encanto e um certo sentido de que África começa ali. Noutros tempos, e não faz assim tanto tempo, assim que o muezzin chamava para a oração nas mesquitas, seguia-se a noite em que os storytellers se concentravam em plena praça. Contavam no seu árabe ou em berbere, antigas histórias, lendas, mitos, notícias vindas do outro lado do Atlas, no fundo histórias interpretadas quase de forma teatral e à sua volta juntavam-se os curiosos, que se agradados pelas historias que ouviam, lhes devolvia como agradecimento algumas moedas.

Hoje basta percorrer a Medina e percebe-se que há outras formas de se ficar a saber das novidades e das histórias de outros lugares. Há a televisão, o telemóvel, os turistas…, mas como diz um antigo ditado “when a storyteller dies, a library burns”, porque muitas das histórias que por ali ser ouviam eram orais, narrativas guardadas e passadas de geração em geração, por estes verdadeiros contadores de histórias. Alguns morreram, outros deixaram de conseguir ganhar a vida, e o storytelling aos poucos vai fazendo apenas parte memória.

Mas nem tudo se perdeu. Em 2016, na Bienal de Artes de Marraquexe, a exposição “Al Halqa – The Human Treasures of Jemaa El Fna” recuperou as suas histórias. Halqa é o nome dado ao círculo que se forma de curiosos que querem ouvir as histórias e ver as interpretações. A exposição com filmes, fotografias e com uma caixa para contadores de histórias, onde cada visitante podia gravar a sua, integrou um projeto maior, um documentário do realizador Thomas Ladenburger “Al Halqa – In the Storyteller’s Circle” que fala da transmissão da arte de um pai para o filho, e a criação de uma plataforma que permite que os storytellers, ainda que em extinção, continuem a viver na história da cidade. Aprendemos desde pequenos que as histórias nos enriquecem, nos ensinam, nos fazem sonhar. Venham as marcas com boas histórias que há sempre espaço para ouvir um bom storytelling…

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António Costa

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