E se acabássemos de vez com a economia?

O turismo não nos serve, desprezamos a possibilidade de ter petróleo e a exploração da floresta deve ser reduzida. Gostava de ouvir dos que estão sempre contra tudo as alternativas que propõem.

Turismo e alojamento local? Não pode ser. Estão a transformar as nossas cidades em Disneylândias e a afastar as pessoas dos centros urbanos. Exploração de petróleo no mar português? Impensável. Há risco ambiental, estraga a paisagem e vai contra a tendência de travar as alterações climáticas. Economia da floresta e indústria de papel? Nem pensar. Temos que acabar com os eucaliptos que são os grandes responsáveis pelos fogos florestais.

Pego nestes três temas porque eles são actuais e suscitam discussões que estão em curso, algumas há décadas. Mas podia acrescentar outros: as grandes superfícies comerciais que “matam” o pequeno comércio (que agora revive com o turismo, mas isso já não interessa nada) ou as plataformas tecnológicas que fazem concorrência aos táxis.

Vamos lá ver. Qualquer actividade económica – ou humana – provoca impactos indesejáveis, aquilo a que os economistas chama externalidades negativas e que está bem expresso na estafada expressão “não há almoços grátis”. A questão será sempre, então, pesar custos e benefícios, tentando reduzir aqueles ao máximo para maximizar estes. E quando falo de custos e benefícios não penso na lógica contabilística das empresas e trabalhadores que se dedicam a estes negócios, mas sim num plano social mais amplo: o que é que o país e a sua economia têm a ganhar e a perder com eles?

A sustentabilidade ambiental e social não deve ser apenas uma expressão bonita e é para ser levada a sério.

Mas não é isso que é colocado em cima da mesa pelos que protestam, reclamam e, no seu entender, denunciam aquelas actividades ou projectos. Eles querem, simplesmente, travar esses negócios, misturando muitas vezes no argumentário questões laterais que podem ser importantes mas que nada nos dizem sobre a maior ou menos bondade de cada actividade.

Dois exemplos.

Os activistas que protestam contra a exploração de petróleo no mar português invocam muitas vezes a pouca transparência dos contratos feitos pelo Estado com os consórcios privados. Pode ser um bom ponto, mas é irrelevante para a avaliação do caso concreto. Um contrato pouco transparente ou que não defende o interesse público deve ser inaceitável e rejeitado tratando-se de uma prospecção de petróleo, de uma estrada no interior ou de um hospital oncológico. Porque por mais inquestionáveis que sejam estes dois últimos casos isso não pode nunca branquear a má gestão de recursos públicos ou o benefício ilegítimo de agentes privados.

Uma das críticas que pretendem desvalorizar a importância do turismo é a pouca qualificação e precariedade do emprego que cria. É verdade, mas é indiferente que seja em actividades turísticas, na construção ou no comércio. Se as empresas abusam e cometem ilegalidades nas relações laborais devem ser fiscalizadas e punidas de acordo com a lei, sejam de que sector forem.

Claro que este tipo de argumentos, laterais e sem relevância na avaliação intrínseca de cada actividade, pretendem engrossar o caso e o capital de queixa quando, na maior parte das vezes, o protesto não é suficientemente sustentado por dados e pela evidência cientifica. Estamos, claro, muito mais no campo ideológico e de visão da sociedade e os factos nunca devem atrapalhar uma boa narrativa.

O caso da exploração de petróleo é um deles. O impacto visual a partir da costa – o tal que afastaria o turismo, que ali já é bom – não existe porque a prospecção vai ser feita no alto mar a mais de 40 kms das praias. Mas se vamos falar disso, eu também não gosto de ver a paisagem das nossas serras cheias de torres eólicas nem os cursos dos rios travados por barragens. Vamos também acabar com as energias renováveis? E depois o que faz funcionar o frigorífico lá em casa?

Sim, devemos reforçar o caminho da descarbonização das nossas sociedades por todas as razões e mais algumas. Isso implica consumir cada vez menos combustíveis fósseis, revolucionar os transportes e reduzir drasticamente o consumo de plástico. Quando lá chegarmos a dependência e importância do petróleo será muito reduzida, o seu preço cairá e a sua exploração deixará de ser rentável.

Mas ainda não estamos aí. O que está a dizer-se então é: não no meu quintal, os países produtores de petróleo que fiquem com a poluição, com os riscos e com os impactos negativos que nós só queremos o conforto e os benefícios. Esquecendo também que usarmos derivados do petróleo implica receber petroleiros nos nossos portos para abastecer as nossas refinarias, com os riscos ambientais inerentes.

No caso da floresta – ainda recordo quando era o nosso “petróleo verde” – o eucalipto está eleito o alvo a abater. Pouco importa se as evidências científicas relacionam os incêndios muito mais com a gestão da floresta e do território do que com as espécies que a compõem. São detalhes sem importância porque é sobretudo o eucalipto que abastece a indústria da celulose e papel que, claro, pertence ao “grande capital”.

Mas então o turismo não nos serve, desprezamos a possibilidade de ter petróleo e a exploração da floresta deve ser reduzida.

Estamos a falar de mais de 10% da economia nacional com um peso maior ainda nas exportações e no emprego. Se não vamos tirar partido económico equilibrado e responsável do mar, da floresta, do sol e da praia, os grandes recursos que a natureza nos deu, gostava de ouvir dos que estão sempre contra tudo as alternativas que propõem. Porque é fácil, nos dias pares, ser contra actividades que geram emprego, fazem entrar receitas no país e pagam impostos para, nos dias ímpares, exigir mais e melhor emprego, um Estado social generoso alimentado por impostos e o combate à pobreza e às assimetrias regionais.

Deve haver certamente uma solução para esta estranha equação – acabar com actividades descentralizadas e criadoras de riqueza e emprego para aumentarmos a riqueza, o emprego e o desenvolvimento – mas não a conheço. Talvez a felicidade nos chegue acabando de vez com a nossa já frágil e anémica economia.

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