Está bom para a erva e os cogumelos

Greta Thundberg erra quando atribui aos governos, e às suas decisões sobre o assunto, uma importância excessiva, esquecendo que é nas pessoas comuns e nas empresas que estão os motores mais poderosos.

Este Outono tem sido extraordinário: chuva persistente, aguaceiros, abertas solarengas, dias cinzentos, chuva molha-tolos, vento, frio contido, calor mediano, enfim, um Outono claramente outoniço.

É de facto extraordinário que a meteorologia, em alguns momentos, corresponda ao padrão climático e isso poupa-nos muita conversa chilra quer dos negacionistas que acham que umas semanas frias e húmidas no Verão demonstram que não há aquecimento global nenhum, quer dos alarmistas que acham que uns dias de canícula no Inverno demonstram que o apocalipse é amanhã.

Talvez seja útil aproveitar esta pausa nas discussões extremadas para retomar alguma racionalidade. O primeiro ponto talvez seja sublinhar uma questão básica: meteorologia e clima são coisas completamente diferentes, tal como o buraco resultante de uma micro-explosão provocada por Vihls é completamente diferente do resultado do conjunto de micro-explosões que usa para transformar uma parede.

Sendo mais concreto, a meteorologia consiste na descrição do tempo que faz em cada momento, e que tem uma enorme variabilidade, sendo possível dizer que nevou em Évora, num determinado dia. Esse dia em que nevou em Évora está muito longe de definir o clima de Évora, porque é um dia excepcional e muito raro.

Meteorologia e clima são coisas completamente diferentes, tal como o buraco resultante de uma micro-explosão provocada por Vihls é completamente diferente do resultado do conjunto de micro-explosões que usa para transformar uma parede.

Henrique Pereira dos Santos

O que define o clima de Évora é a norma, não a excepção, a norma climática é definida a partir da determinação dos valores observados em trinta anos de observações, isto é, se a neve em Évora é um fenómeno meteorológico muito interessante, nomeadamente por ser raro, só será um fenómeno climático interessante se, em vez de um ou dois dias de neve em trinta anos, passar a haver vinte ou trinta.

Em climas muito variáveis, como é aquele em que vivemos — há outros climas muito mais estáveis, tal como há outros com maior variabilidade — o extraordinário é que haja um tempo de várias semanas muito próximo da norma, o mais habitual é que as condições meteorológicas estejam afastadas dessa norma climática teórica, umas vezes num sentido, outras vezes no sentido inverso.

O que interessa na discussão sobre alterações climáticas são os padrões, e não um Inverno extremamente frio e chuvoso ou um Inverno extremamente seco e com temperaturas acima da média. Ora é um facto que a variação climática é inquestionável. E é outro facto que sempre houve variação climática. E é bem provável que essa variação esteja a alterar-se.

A esmagadora maioria da ciência que diz que a variabilidade actual é provocada, ou pelo menos influenciada, pela libertação de carbono de que depende o nosso modelo social e económico.
Sobre esta discussão a minha opinião é completamente irrelevante: O assunto é demasiado complexo para o que sei, portanto aceito o que a generalidade da ciência diz, tal como aceito que é a Terra que gira à volta do Sol, por mais que os meus sentidos digam o contrário, porque sou incapaz de avaliar a correcção dos cálculos astronómicos que demonstram que é a Terra que gira e roda, e não o Sol.

De uma maneira ou de outra, sejam quais forem as razões que estão na base das variações climáticas em curso, a verdade é que é prudente e sensato adaptarmo-nos a um mundo em mudança: Se a ciência dominante estiver errada, os riscos sociais e económicos associados à transição energética são geríveis pela sociedade, nomeadamente o risco de serem socialmente injustas ou economicamente ineficientes. Mas se a ciência dominante estiver certa, o risco de a ignorar é brutal e as consequências sociais e económicas são de uma enorme dimensão.

Greta Thundberg não está errada quando fala sobre as mudanças que estão a ocorrer no clima, Greta Thundberg erra quando atribui aos governos, e às suas decisões sobre o assunto, uma importância excessiva, esquecendo que é nas pessoas comuns e nas empresas que estão os motores mais poderosos de evolução da sociedade. E, acima de tudo, comete um erro colossal, e uma injustiça da mesma dimensão, quando diz que nada está a ser feito para gerir o problema. Sobre isso escreverei noutro dia que hoje tenho de ir aproveitar este Outono que está do melhor para os cogumelos.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

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