Estado da Noção

O plano de António Costa e Silva, ventiladores e hidrogénio. É o estado de uma nação sem noção e da noção que parece já não ter nação.

Há uns tempos enquanto visitava um lar de idosos, apareceu a funcionária na sala de visitas com as refeições. Um dos utentes gritou, para gargalhada geral, que tinha prioridade por ser idoso. Possivelmente inspirado por esta história, António Costa e Silva apresentou um plano decenal para o país em que constam as seguintes prioridades: a educação, a saúde, o mar, a energia, o litoral, o interior, a Europa, o Atlântico Norte, a lusofonia, a floresta, as bicicletas, a agricultura, a biotecnologia, as telecomunicações, a criatividade, a reindustrialização, os portos, a ferrovia, as universidades, etc.

O plano decenal para o país é como aquelas máquinas nas salas de espera que só distribuem senhas prioritárias. Esperamos o mesmo tempo para ser atendidos, mas sentimo-nos mais importantes. De todas estas prioridades, destaco a reindustrialização. Numa fase em que as economias desenvolvidas se viram para o setor dos serviços e digital, há mesmo quem ache que o futuro do país é a reindustrialização. Neste aspeto, o país não mudou muito desde que, mais de um século depois da revolução industrial no norte da Europa, o Governo do Estado Novo achava que era na agricultura que o país devia apostar. Estamos sempre umas décadas atrasados graças aos visionários que vamos tendo a querer coordenar a economia.

Numa entrevista, António Costa e Silva disse que Portugal tem muitas pessoas com um ego demasiado grande. Tem razão. Assim, de repente, lembro-me de uma pessoa que tem um ego tão grande que acha que consegue, sozinha, em poucas semanas, definir aquilo que uma economia de mais de 10 milhões de pessoas irá fazer nos próximos 10 anos.

Quando havia o receio de que faltassem ventiladores em Portugal, uma empresa portuguesa de Matosinhos adaptou-se rapidamente e começou a produzi-los. Produziu alguns e distribuiu-os por alguns hospitais. Problema: continua sem obter a certificação do estado (ou saber porque seria rejeitada). Nós aceitamos ventiladores “certificados” pelas autoridades chinesas, possivelmente pelos mesmos burocratas que certificam o bilhete dos Uighurs para os campos de concentração, mas não temos capacidade para certificar ventiladores produzidos cá. É o típico problema português.

Uma empresa conseguiu em tempo recorde adaptar-se a uma situação complicada e produzir um equipamento complexo que Portugal precisa, julgava que tinha feito a parte mais complicada, mas estava enganada. A parte complicada em Portugal não é produzir, é ultrapassar a burocracia de um estado gordo e ineficaz.

Para produzir um ventilador é necessário o trabalho de dezenas de engenheiros, mecânicos, soldadores, electricistas, matérias primas de vários tipos vindas de várias partes do mundo e, também, um autocolante certificador do Estado. Como em muitos outros casos, tudo o resto fez-se de forma rápida e fácil, menos o autocolante. Quantos outros processos produtivos e negócios ficam paralisados à espera de um qualquer licenciamento ou certificação em Portugal? Infelizmente, a parte mais complicada de produzir em Portugal ainda vai sendo essa, a parte que cabe ao estado, ou que nem deveria caber, mas que os burocratas inventam para fingirem que são úteis. Mesmo assim, não falta quem queira que o estado se meta em mais coisas e que se dê mais poder aos burocratas.

Se não percebe nada sobre a estratégia do hidrogénio, não fique muito preocupado, nem o Governo parece perceber. O secretário de Estado responsável pela estratégia em entrevista à televisão só conseguiu justificar o investimento com o dinheiro que vem da Europa. Apesar de ninguém perceber nada sobre hidrogénio, de ser uma tecnologia ainda rodeada de muita incerteza, lá apareceram 74 candidaturas aos apoios do estado português a projectos de hidrogénio.

De onde surgiram 74 empresas e consórcios capazes de investir numa área muito específica, que ninguém sabe muito bem se vai funcionar? Porque muito provavelmente são as mesmas entidades, com os mesmos administradores e os mesmos consultores e advogados, que se candidatariam a qualquer programa que oferecesse apoios públicos, fosse a produzir naves aeroespaciais, patinhos de borracha ou a plantar morangos. É uma das indústrias mais poderosas e desconhecidas de Portugal, e a única resistente a todas as crises: a indústria do minério de guito europeu.

O Hidrogénio é o futuro da energia? Não sei, ninguém sabe, nem sequer quem está a investir. Mas para quem investe nisto, não há forma de perder. Se funcionar, terão grandes lucros. Se não funcionar, os contribuintes pagarão a conta como fizeram no passado com outras “apostas”. Para os governantes também não há grandes problemas: se a estratégia funcionar serão vistos como visionários. Se não funcionar, pagam os contribuintes e daqui a 10 anos inventarão outra estratégia qualquer para desviar as atenções.

A Estratégia para o Hidrogénio soa a mais uma daquelas sequelas de filmes chatas e repetitivas em que só apetece andar para a frente e ver a parte em que o Ministério Pública começa a investigar os contratos. Isto se ainda houver um Ministério Público independente nessa altura.

Este é o estado de uma nação sem noção e da noção que parece já não ter nação. Tudo isto é tão chato, tão repetitivo, tão previsível. Como o resto da vida política portuguesa, diga-se.

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