Eurolândia

O Euro é o paradoxo existencial de uma Europa política a meio caminho entre a matemática do futuro e a álgebra medieval do passado.

Vinte anos após a introdução do Euro que dizer sobre os percursos da Europa? Certos comentadores afirmam que a operação Euro promove a prosperidade dos cidadãos e das nações; que na crise de 2008, a nova moeda foi um instrumento decisivo para controlar o contágio e evitar o colapso económico e financeiro. Diferentes comentadores estabelecem que o Euro falhou na maior crise do capitalismo no pós-guerra; mais ainda, que o Euro amplificou a crise até ao limiar do colapso do sector financeiro; finalmente, que o Euro terá criado as condições para a desintegração do centro político na Europa. Uma história de sucesso no interior da narrativa de um desastre.

Em Maio de 1807, Napoleão escreve ao irmão a manifestar o desejo de criar uma moeda única para toda a Europa, facilitando desse modo o comércio no Continente. Na visão napoleónica estava a ideia de baixar o custo das transacções no espaço unificado pelo Império. Na perspectiva contemporânea, o projecto do Euro não está relacionado apenas com a diminuição do custo das transacções, mas é sobretudo a expressão monetária que visa promover a convergência das economias da Europa. Neste sentido, o Euro é um projecto político de largo espectro e maior complexidade, no limite, apontando politicamente para uma Europa Federal utilizando indirectamente as exigências de uma construção financeira.

François Mitterrand nunca acreditou no sucesso da União Monetária, mas era um político inteligente e florentino. Mitterrand sabia que a Federação das Nações da Europa seria um objectivo inalcançável de modo explícito e directo. No entanto, concedendo na reunificação da Alemanha, o Presidente Mitterrand antecipava que a insustentabilidade da arquitectura do Euro haveria de arrastar as Nações da Europa para a solução política da Federação. Em alternativa, o cenário só poderia ser o da catástrofe. Eis a Europa entre a Federação e o colapso do Euro, entre a implosão ou a explosão.

Entre 2000 e 2008 o Euro criou a fantasia da prosperidade suportada pelo dilúvio do crédito. Um período de crescimento exuberante criou duas realidades distintas na Europa – a visibilidade do deficit nas economias devedoras; a invisibilidade do superavit nos bancos credores.

Quando a realidade retomou o curso normal, foi então a surpresa perante a crise das dívidas soberanas, foi então o habitual espectáculo do Sul dependente face ao Norte omnipotente. E como Mitterrand antecipara, o Banco Central Europeu, sem a instituição de um Tesouro Federal, delegou o resgate das economias à beira do default nos 19 Tesouros Públicos nacionais. As consequências, para além de manter o Euro vivo, foi a proliferação do descontentamento público face à contracção económica, vulgo austeridade, a contaminação da política na Europa com a deflação dos grandes partidos do centro e o ressurgimento do grande discurso populista.

Um olhar para a Alemanha. No período entre 2000 e 2018 as exportações alemãs geraram 2.2 triliões de euros, ou seja, o superavit alemão é o reverso da dívida da Itália, da Grécia, da Irlanda, de Portugal. No entanto, o nível de desigualdade na Alemanha é o maior dos últimos 25 anos; 50% da população alemã tem menor poder de compra quando comparado com os números de há 15 anos; apesar do superavit, e corrigido pelo stock de poupanças e liquidez, o nível de investimento é o menor desde 1946. Agora imagine-se uma escalada na dívida soberana da Itália (2.7 triliões de euros) e a necessidade de um bailout suportado pelo esforço da Alemanha.

Aqui surge a distopia de uma visão política em que a Alemanha sai da Zona Euro ou até mesmo da União Europeia. A primeira consequência seria o colapso do Euro. A Europa fica dividida por uma linha imaginária que vai do Reno aos Alpes. A Alemanha retoma o Deutsche Mark, altamente valorizado. A Áustria, a Holanda, a Polónia, a Hungria, a República Checa, a Eslováquia e os Países Bálticos associam-se numa nova Zona D. Mark. De certo modo é o regresso de uma Europa Calvinista, a reafirmação de uma nova Liga Hanseática. Com a diminuição das exportações é o desemprego, a baixa dos preços, a deflação. O que resta da União Europeia terá de retomar as moedas nacionais, altamente depreciadas, o que implica uma espiral de inflação e desemprego. Dois cenários impensáveis e um retrocesso de 100 anos.

O Euro é o paradoxo existencial de uma Europa política a meio caminho entre a matemática do futuro e a álgebra medieval do passado.

(O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico)

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