Fazer reset a 2011 não chega

A pobreza de visão a nível das propostas autárquicas não é senão uma amostra, à escala local, da mesma miopia exibida pelo Governo central.

Este tempo de pré-campanha autárquica traz à luz a falta quase absoluta de visão estratégica dos responsáveis políticos em Portugal, desde logo desses que buscam a eleição para cargos locais, mas, também, dos partidos que à escala nacional toleram e, não raras vezes, incentivam as tomadas de posição mais inconcebíveis por parte dos candidatos autárquicos que escolheram ou apoiam.

Não são as promessas bizarras nem os outdoors delirantes que me preocupam, mas sim as propostas supostamente sérias e credíveis que se podem agrupar em duas categorias distintas: as que vão onerar as contas da respetiva autarquia durante várias gerações e as que ignoram olimpicamente a evidência de que o mundo mudou desde a última eleição, para não ir mais longe.

A proposta de um novo aeroporto internacional em Coimbra é o caso mais conhecido – e megalómano – do primeiro tipo de propostas, mas está longe de ser caso isolado. Milhares de candidatos por todo o País prometem pavilhões, rotundas (ou a sua remoção), centros disto ou daquilo na convicção, supõe-se, de que será isso que convencerá os eleitores o que, a ser verdade, ainda é mais deprimente.

Quanto a contas, fontes de financiamento, anos para recuperar o investimento, etc., o máximo que conseguimos arrancar é o de que ‘a obra’ será realizada recorrendo a fundos comunitários. É bom lembrar, nesta altura, que os fundos comunitários não são dinheiro do Monopólio, que normalmente só financiam uma percentagem que, em média ronda os 50% do total, que se forem gastos em coisas inúteis é como se fossem atirados à rua e deixam de poder ser gastos noutras coisas que tenham, sei lá, nexo.

Claro que para encontrar projetos que possam ter nexo, leia-se, ajudar a melhorar as condições e a qualidade de vida dos munícipes é preciso pensar um bocadinho. Ora, pensar dá trabalho e pode não apetecer aquecer os neurónios demasiado nos meses de verão que antecedem as eleições.

Em primeiro lugar, deveria vir a consciência de que o bem-estar das populações depende, certamente, de um conjunto de questões materiais importantes mas que estas, por si só, não chegam. Salvo raríssimas e honrosas exceções, os aspetos subjetivos, aspiracionais, de soft power (chamem-lhe o que preferirem) estão totalmente ausentes das propostas políticas. Ignorar que são estes os aspetos que, em última análise, atraem ou fixam residentes, investidores ou turistas é não perceber mesmo nada de como o Mundo funciona.

Isto para não falar da ausência absoluta (mais uma vez, há algumas exceções) de reflexão sobre os impactos substanciais que as inovações em domínios tão diversos como as smart cities, a inteligência artificial, a mobilidade elétrica, o marketing digital, etc., etc. terão na vida das pessoas e, sobretudo, nas atividades económicas já instaladas, ou que possam vir a instalar, em cada território.

Dir-me-ão que esta pobreza de visão a nível das propostas autárquicas não é senão uma amostra, à escala local, da mesma miopia exibida pelo Governo central, cujo único princípio estratégico parece ter sido, nesta primeira metade da legislatura, o da ‘reposição’. Se calhar é esse o problema: se quem nos governa dá o sinal de que basta voltar a 2011 para o País se endireitar, porque razão hão-de os autarcas aspirar a fazer diferente?

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