Financiar tabus: desafios de uma fundadora no mundo tech

  • Mariana Tomé Ribeiro
  • 2 Abril 2025

Precisamos de mais investidoras, empreendedoras e, principalmente, apoio àqueles projetos que tratam de temas considerados "tabus", mas cruciais para a evolução da sociedade, como a saúde sexual.

É um tema que tem feito correr rios de tinta: o ecossistema de startups tecnológicas tem sido um campo fértil para inovações que transformam a sociedade de A a Z. Mas, apesar da disrupção, quando se fala de financiamento e desenvolvimento de novas ideias, a realidade para as fundadoras de startups, especialmente aquelas que criam soluções disruptivas e inovadoras, ainda é árdua.

Tomo o meu caminho, como fundadora e CEO de uma app de relacionamentos distinta das que conheço, como exemplo. Criei a Quycky em 2023, com a proposta de transformar a forma como as pessoas se conectam. O percurso, pelas características do produto e minhas, tem sido desafiador: criar e escalar um projeto num mundo ainda dominado por homens, onde tabus sobre sexualidade e inovação se entrelaçam, e onde a procura por investidores é uma batalha constante, é a razão que me leva a partilhar convosco esta minha “jornada empreendedora”.

Fundadoras de empresas, especialmente no setor de tecnologia e inovação, enfrentam um alto grau de resistência por parte de investidores, que, em grande parte, ainda têm uma mentalidade conservadora e tendem a apoiar projetos com os quais estão mais familiarizados.

Vamos aos dados: segundo a PitchBook, apenas 2,3% do financiamento de startups, em 2020, foi para empresas fundadas por mulheres. Essa estatística é apenas a ponta do iceberg quando falamos sobre a disparidade de género no acesso ao capital de risco. Fundadoras de empresas, especialmente no setor de tecnologia e inovação, enfrentam um alto grau de resistência por parte de investidores, que, em grande parte, ainda têm uma mentalidade conservadora e tendem a apoiar projetos com os quais estão mais familiarizados.

Por isso, apresentar uma ideia inovadora como a nossa, que não só desafia o status quo das plataformas de relacionamentos tradicionais, mas também propõe um tema delicado como a compatibilidade sexual entre os utilizadores, faz-nos enfrentar uma barreira adicional. Muitos investidores ainda veem a sexualidade como um tabu a ser evitado, algo que pode prejudicar a imagem de uma empresa. Esse receio é reflexo da cultura conservadora que premeia boa parte do ecossistema empreendedor, e onde temas como sexualidade e prazer são frequentemente deslegitimados quando trazidos à tona por mulheres.

A inovação no mercado dos relacionamentos como o nosso não se limita à tecnologia. Ela também passa pela necessidade de desconstruir tabus e preconceitos enraizados na sociedade. A sexualidade é um tema ainda envolto em estigma, especialmente quando abordado em plataformas digitais. Para muitos, a ideia de uma aplicação que mede a “temperatura sexual” entre os matches pode parecer algo desconfortável ou até irresponsável. No entanto, a proposta vai muito além disso: queremos criar um ambiente onde as pessoas podem ser mais honestas e abertas sobre suas preferências e desejos, contribuindo para uma experiência de encontros mais verdadeira e, possivelmente, mais satisfatória. E, também, um lugar que os casais possam usar sempre que tenham dificuldade em conversar abertamente sobre alguns temas, através de um jogo que traz novas discussões para cima da mesa.

Segundo um estudo do The Kinsey Institute de 2020, mais de 40% dos entrevistados afirmaram sentir-se desconfortáveis em discutir as suas preferências sexuais em plataformas de encontros. Por outro lado, uma pesquisa da Statista revelou que, em 2022, cerca de 30% dos utilizadores de apps de encontros procuravam algo mais profundo do que apenas uma ligação superficial. Ambos os dados revelam que o mercado procura alternativas mais transparentes e compatíveis com as necessidades do mundo real, e não apenas com as expectativas impostas pela sociedade.

A presença feminina no campo da tecnologia e inovação é essencial para que o ecossistema se desenvolva de maneira mais inclusiva e representativa. Precisamos de mais investidoras, mais empreendedoras e, principalmente, mais apoio àqueles projetos que tratam de temas considerados “tabus”, mas que são cruciais para a evolução da sociedade, como a saúde sexual.

É nesse vácuo entre o que os utilizadores realmente desejam e o que as plataformas tradicionais oferecem que surge a oportunidade de inovar. Mas, para que essa atualização se concretize, é necessário mais apoio, mais investimentos e, sobretudo, uma maior abertura para lidarmos com questões que ainda são consideradas “desconfortáveis” ou “perigosas”. Dou como exemplo o foco da maioria das apps: a lógica centra-se na objetificação do corpo e do aspeto físico, e não na possibilidade genuína de fazer nascer e crescer um relacionamento.

Apesar dos desafios, a realidade do ecossistema de startups tem mudado. Quando criei a minha primeira empresa, noutra área de negócio, enfrentei algum ceticismo adicional, mesmo tratando-se de um produto muito mais “consensual”. Assistimos a um movimento de mulheres empreendedoras em franco crescimento, com fundadoras a dar cartas na gestão de pessoas, de expectativas e de recursos, ao mesmo tempo que desafiam normas e apresentam novas soluções para velhos problemas. Segundo a McKinsey, as startups lideradas por mulheres têm 1,5 vezes mais probabilidade de serem mais bem-sucedidas em termos de impacto social, justamente pela diversidade de perspectivas que proporcionam.

A presença feminina no campo da tecnologia e inovação é essencial para que o ecossistema se desenvolva de maneira mais inclusiva e representativa. Precisamos de mais investidoras, mais empreendedoras e, principalmente, mais apoio àqueles projetos que tratam de temas considerados “tabus”, mas que são cruciais para a evolução da sociedade, como a saúde sexual.

Olhando para a frente e, por mais que o caminho se vislumbre longo e repleto de desafios, acredito que o futuro das startups tecnológicas está na diversidade — de género, de ideias e de abordagens. Para que possamos superar os obstáculos que ainda existem, é essencial que o ecossistema se torne mais inclusivo, mais acolhedor e mais disposto a apoiar inovações que possam ser vistas como desconfortáveis, mas que têm o poder de criar um verdadeiro impacto no dia a dia dos utilizadores.

Enquanto fundadora de uma startup que lida com temas “sensíveis”, como a sexualidade, o meu trabalho é, não só, criar uma plataforma tecnológica disruptiva, como ajudar a desmistificar e quebrar tabus. O financiamento, acredito, virá com o tempo, à medida que a sociedade e os investidores se abrirem para o novo e para o diferente. Até lá, farei parte do movimento que luta por mais: visibilidade, financiamento e, acima de tudo, por um futuro onde as mulheres fundadoras têm, além de espaço no mercado, o poder de moldá-lo segundo as suas próprias visões.

  • Mariana Tomé Ribeiro
  • Fundadora e CEO da Quycky

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