Fomos ao futuro e temos más notícias: só lá havia homens

Os horários de trabalho que se praticam em Portugal são estúpidos. Muitos gestores preferem o incompetente que passa 12 horas no escritório a fazer pouco ou nada do que o produtivo.

Era impossível olhar para a foto e não reparar. Quase quatro dezenas de pessoas alinhadas em três filas e, num primeiro olhar, apenas uma mulher. Depois, vendo melhor, descobriam-se mais duas mulheres no meio dos habituais fatos azuis escuros e cinzentos, a farda corporativa masculina.
É a “foto de família” da iniciativa “40 Líderes Empresariais do Futuro com menos de 40 anos”, promovida pelo Expresso, que esta semana divulgou a lista de 2018.

A lista oficial, que está publicada na edição em papel deste sábado (no caderno de Economia), esclarece que entre os 40 “gestores do futuro” há 38 homens e duas mulheres. Sim, não pode ser.
O fácil aqui é matar já o mensageiro cravando-lhe duas balas justiceiras pela afronta e seguindo sem olhar para trás à procura do próximo sinal exterior de machismo. Mas, como é bom de ver, isto é uma consequência e não uma causa, é um sintoma agudo da doença mas não é o agente causador da doença.

Projectos como este fazem todo o sentido editorial. São uma forma de dar a conhecer pessoas, ideias e projectos novos, para além dos 50 gestores do costume, muito batidos, que aparecem há anos em 95% das notícias sobre empresas e de quem já não esperamos que nos surpreendam. É tentar diminuir um défice que há na ementa editorial diária: diversificar fontes e protagonistas das notícias e ir à procura de novidades.

É uma óptima iniciativa do Expresso, do Fórum de Administradores de Empresas e de todos os parceiros envolvidos que premeia o mérito e dá a conhecer novos valores.

Então os novos valores da gestão são quase todos XY? O futuro da gestão é quase exclusivamente masculino? A avaliar por esta pequena amostra, a reposta é: parece que sim, pelo menos dentro do pequeno micro cosmos das lideranças empresariais mediáticas, que têm acesso aos jornais e que até são pouco representativas do tecido empresarial português. E isso e uma péssima notícia.

Não está em causa, obviamente, o valor de cada um dos gestores que integram a lista, profissionais já com provas dadas e com muito mais para dar. O problema é o que isto nos diz sobre a sociedade que somos e, tragicamente, continuaremos a ser no futuro.

O primeiro pensamento que veio à cabeça de algumas pessoas quando viram a foto foi “deviam ter feito uma discriminação positiva para que houvesse mais mulheres”. Não concordo.

Primeiro, porque se trata de um concurso. Depois, porque o problema é anterior à lista. O Expresso diz-nos que recebeu 204 candidaturas válidas para a iniciativa, mas não sabemos a divisão entre gestores e gestoras. E se o mundo das lideranças empresariais é machista, como sabemos, como é que isso não se haveria de reflectir numa iniciativa como esta? Por fim, porque precisamos de ser confrontados constantemente com estas realidades para que alguma coisa possa, de facto, mudar.

Este é, então, um espelho do que somos. Se este ano há duas mulheres entre os 40 gestores do futuro, no ano passado havia cinco. Uma variação que não é relevante numa iniciativa destas. Se são 5% ou 12,5% é pouco importante. São muito poucas mulheres numa lista com uma idade média de 35 anos, num país que tem uma maioria de população feminina e onde elas são 60% das pessoas que frequentam o ensino superior nos cursos de Ciências Sociais, Comércio e Direito e 43,3% dos cursos de Ciências, Matemática e Informática. Mesmo considerando que são apenas 27,7% da formação superior em Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção, a sub-representação é óbvia. Será uma praga global?

Fui espreitar as listas da Forbes – “30 under 30” – e, nas áreas que me parecem mais comparáveis (finanças, indústria, marketing, comércio) há um muito maior equilíbrio de género em todas as geografias.

Não há rigor científico nestas análises, como é evidente, mas não ficamos surpreendidos porque conhecemos a realidade. E esta é que temos um problema cultural, profundo, que demora a ser resolvido e para o qual expedientes como a imposição de quotas podem ser apenas um paliativo para o que está em causa.

O problema da desigualdade não nasce na vida adulta e no mercado de trabalho. Ele começa em casa, desde a educação mais precoce, e, por regra, até tem o alto patrocínio das pessoas mais insuspeitas do mundo: as mães. Verifica-se, por exemplo, quando se distribuem as tarefas domésticas por filhos e filhas.

A noção de haver “tarefas de mulher” e “tarefas de homem” acentua-se logo a seguir quando os jovens adultos passam a ser membros de um casal. Aí, por regra, ele já “não tem jeito” para nada que possa envolver tachos e panelas, fraldas e biberons, lidar com o aspirador ou dar seguimento à rotina do tratamento da roupa. Como se alguma destas coisas tivesse um décimo da complexidade do que é a condução de um automóvel. Se ele “não tem jeito” e se há outro alguém lá em casa que faça, com ou sem jeito, já há uma solução. E esse alguém é ela, naturalmente.

Quando se chega ao mercado de trabalho, por regra, já é tarde. E a forma como está (des)organizado o trabalho nas empresas só acentua o problema. Os horários de trabalho que se praticam em Portugal são estúpidos e, muitas vezes, desumanos. Mesmo quando não têm de o ser. Começa-se tarde e acaba-se demasiado tarde. Alguém que saia às 17h00, depois de um dia produtivo que começou às 8h00, é visto como um parasita que não faz nada e que só quer ir beber copos para a esplanada no final de tarde.

Muitas vezes, é o salve-se quem puder, não só para manter o emprego, como para garantir o aumento ou a promoção, agradando ao chefe. Um certo mundo corporativo e profissional não permite distrações nem caprichos como estar em casa a horas de jantar com os filhos, quanto mais ir buscá-los à escola. Dizem que quem faz isso “não está a vestir a camisola da empresa”. Preferem o incompetente que passa 12 horas no escritório de corpo presente a fazer pouco ou nada do que o produtivo que faz o que tem a fazer, e bem, em seis ou sete horas. Felizmente, começa a falar-se disso.

Esta cultura perversa tem nas mulheres as principais vítimas. Em regra têm dois trabalhos – este e o de casa -, e menos disponibilidade horária. São as mais chamadas à escola das crianças – reparem no desequilíbrio entre pais e mães nas reuniões escolares de fim de período -, a ir buscá-las ao fim do dia, a ir com elas ao médico. E, claro, dá-se o caso de engravidarem, de cumprirem licenças de maternidade – coisa que algumas já nem fazem por inteiro para não prejudicar a carreira -, de terem direito a horários reduzidos, etc.

No mundo altamente competitivo – muita vezes estupidamente competitivo, porque de algumas destas práticas não resulta nenhum benefício para ninguém nem sequer um maior lucro para a empresa – como é o da gestão em médias e grandes empresas, não admira que este enorme desequilíbrio afaste as mulheres. A nossa cultura familiar e profissional é-lhes altamente adversa.
A má notícia é a confirmação de que este país não é para mulheres. A boa notícia é que as mulheres, como principais educadoras, podem e devem ter um papel fundamental para acelerar estas mudanças. E isso deve começar em casa, bem cedo na idade das crianças.

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