Gilet Jaune

Macron é hoje observado como a representação pós-moderna de uma classe política deslocada da realidade, um tecnocrata arrogante bem colocado na lista exclusiva dos grandes interesses corporativos.

Paris brilha ao sol de Inverno. Macron é a sombra no Eliseu. O poster boy da nova França chegou ao poder há 19 meses com um programa político anti-partidos e anti-políticos. Na narrativa presidencial, Macron é o “rebelde reformista”, o outsider capaz de controlar as velhas “castas” republicanas e construir o edifício de uma França moderna, liberal e progressista. A ambiguidade constitutiva do macronismo ignora deliberadamente alguns factos essenciais, a saber: que as receitas do Governo francês capturam cerca de 57% do PIB; depois, que a França gere défices como receita corrente desde 1974; finalmente, para além de representar o expoente do dirigismo centralista, a França é cativa de uma perversidade política excepcional, ou seja, os franceses exigem todas as reformas em abstracto, mas recusam todas as reformas em concreto.

Como tal, Macron é hoje observado como a representação pós-moderna de uma classe política deslocada da realidade, um tecnocrata arrogante bem colocado na lista exclusiva dos grandes interesses corporativos. Tudo resulta num índice de aprovação de 25%. E a sombra cansada de um Presidente cada vez mais isolado.

Em pleno caos na Place de la Concorde centenas de coletes amarelos de alta fluorescência bloqueiam o trânsito. A Polícia recolheu às esquadras. Alguns autocarros de dois andares, para turistas, ficaram trancados no protesto. Os passageiros chineses e excitados precipitam-se a registar o happening com os respectivos smartphones, como se estivessem na presença de um flash mob em promoção da arte francesa. Os coletes fluorescentes são o novo símbolo da nova revolta popular em França. Contra o aumento do preço dos combustíveis, mais de 280,000 pessoas bloqueiam estradas e ruas por toda a França em cerca de 2000 pontos nevrálgicos para a circulação no país.

Os manifestantes são essencialmente membros da classe média suburbana e das zonas rurais. O protesto não tem líderes formais nem organização específica, tendo mesmo recusado a colaboração dos partidos políticos e dos sindicatos. O movimento é assumidamente rural, suburbano, anti-políticos e contra os grandes aglomerados urbanos, mas não exibe qualquer deriva populista, nem à esquerda, nem à direita. Na origem estão uma série de petições online e de blogs, sem qualquer nível de acção concertada, mas que resulta numa mensagem política directa emergindo da França profunda. O protesto é politicamente difícil de definir e será difícil de controlar pelo discurso cosmopolita de Macron. De acordo com algumas fontes, o protesto poderá vir a integrar a participação dos camionistas e dos agricultores e tal representará a paralisação da França e, por extensão, o efectivo bloqueio de mercadorias na Europa.

Curioso é que o protesto parece seguir a tradição francesa do levantamento popular das classes baixas, sem líderes, sem programa político, mas com uma reivindicação material precisa – a clássica representação de La France d’en bas. O protesto tem sido comparado a uma versão contemporânea da Jacquerie, a rebelião camponesa do século XIV, ou até mesmo ao levantamento em massa dos estudantes durante o Maio de 68. O circunspecto Le Figaro designa a revolta nas estradas como uma “Jacquerie Digital”, tendo em consideração a origem virtual do movimento. Também já alguém fez a comparação com o protesto anti-impostos e anti-estado liderado pelo lojista Pierre Poujade, corria o ano de 1950, e que é a origem da palavra “poujadism” no léxico político gaulês. Um curioso paradoxo toca o protesto dos coletes amarelos – tendo uma base anti-governo, os manifestantes são pró-estado e pró-investimento público, uma revolta contra Paris que não investe em infra-estruturas nas zonas suburbanas e nas zonas rurais, concretizando-se o sentimento de que existem duas Franças, a França do privilégio e a França da parkour. E a dicotomia expressa-se em várias configurações, nomeadamente, urbanistas vs. ambientalistas; cidade vs. campo; novos vs. velhos; classe trabalhadora vs. empresários.

Subitamente são as grandes clivagens da Revolução Industrial que afloram à superfície política da França, uma França política sempre incapaz de definir um consenso liberal em torno das grandes questões do desenvolvimento e da riqueza.

E enquanto a França se afasta e se divide, Macron retira-se para Honfleur numa pausa para descansar e recuperar dos ofícios da governação. Talvez o Presidente comece a acreditar no seu próprio mito – o Júpiter dos nossos dias, o Pequeno Napoleão, o Grande Rei-Sol, são ficções políticas de elevada toxicidade.

Macron passou todo o primeiro ano de mandato a exibir a sua magnífica visão da França e do Mundo em sucessivas vagas de discursos, exibições de arrogância, 170 visitas oficiais em França e 66 viagens ao exterior. Uma tournée plena de pompa e de circunstância para acabar cada vez mais iludido e ainda mais isolado. Na Europa, Macron pretende ascender à liderança na ausência de Merkel, mas dispara a metáfora da “lepra” sobre todos os nacionalismos e populismos de expressão europeia. A Macron falta a inteligência política dos pequenos passos, do gradualismo político, seja numa route anónima de França, seja nos corredores de Bruxelas. A França tem este instinto fatal para a pureza da virtude.

Nota: Por opção própria, o autor escreve segundo a antiga ortografia

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