Heróis do teclado, Soares, figuras públicas e o jornalismo

Que em 2017 o bom jornalismo expurgue este lixo. Quem lutou pela liberdade, e quem vive e gosta dela, não merece a barbárie.

Uma autêntica vergonha o que se passou nas redes sociais nos últimos dias, onde muita gente decidiu gozar, ofender, vilipendiar, um homem de 92 anos que está no leito de um hospital sem qualquer capacidade de defesa. Mário Soares fez muitas coisas más, têm todo o direito de o criticar por decisões erradas, agora desprezarem uma vida humana, qualquer que ela seja, é ignóbil.

Talvez a maior evidência do seu trajecto político, a sua principal herança, é, paradoxalmente, a capacidade que ele deu a estes cobardes, que vestiram a fatiota de heróis do teclado, de poderem escrever todos os disparates que lhes apetece sem ter uma polícia política ou um bando de algozes para os silenciar.

Sim, Soares era um homem de liberdade e democracia, voluntarioso nas causas, expondo-se a combates, alguns que perdeu, apenas porque acreditava nos homens ou nas ideias que apoiava. Será sempre recordado como uma das figuras de proa na luta contra a ditadura, nos primeiros passos da consolidação de Abril e como homem que nos colocou na Europa da CEE.

Errou na descolonização, na Emaudio, na preparação da sua sucessão no PS, com sobranceria desvalorizou Cavaco e, sobretudo nos últimos anos, devia ter protegido melhor o seu legado e alargado a sua base de apoio para os portugueses e a História lhe darem o lugar que merece sem tantas divisões de opinião.

Ora, são os mesmos que destilam ódio sem pudor contra Soares, que vão para páginas de figuras públicas arrasar sem dó nem piedade. Uma moda que a imprensa, infelizmente, está a apanhar para ter visualizações e ganhar uns cobres com esses “views”, é a de agarrar em comentários escritos nessas páginas e depois fazer notícias com eles.

Tipo: “Look de Cristina Ferreira criticado pelos internautas” ou “Rita Pereira está gorda dizem os fãs”. Isto não é notícia nenhuma, é apenas lixo. Estão a tornar o complexo de porteira em pseudo-jornalismo, dando-lhe roupagem de notícia quando é apenas bílis a escorrer sem qualquer tipo de vergonha.

Darem gás a gente da qual não se sabem as motivações, trazendo o pior dos sentimentos humanos, a inveja, o ressabiamento, a mesquinhez, o ódio, para um campo onde dominava o “gate-keeper”, que filtrava o que era importante para o jornalismo que o trabalhava para a comunidade, é das maiores perversões da imprensa actual.

Este exercício suicida é matar o jornalismo, é tirar credibilidade a uma profissão magnífica e importantíssima para uma sociedade democrática onde o valor da tolerância deve prevalecer. Que em 2017 o bom jornalismo expurgue este lixo. Quem lutou pela liberdade, e quem vive e gosta dela, não merece a barbárie.

Nota: Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

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No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

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António Costa

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