Histórias da Fronteira

Da Rússia ao Mediterrâneo, a tragédia da morte e a comédia da vida são a marca da esperança para sempre inscrita na natureza humana.

Estou sentado numa esplanada de Berlim, mas o Mundo insiste em tomar um lugar à mesa. É verdade que Greta Thunberg é celebrada como um pioneiro climático na viagem de travessia do Atlântico a bordo de um veleiro. Mas também é verdade que a activista russa Olya Misik é praticamente ignorada no Ocidente.

A jovem de 17 anos é vigiada pelo FSB e ameaçada pelo Comité de Combate ao Extremismo. A entrada na Universidade é quase uma impossibilidade face ao comportamento “subversivo” da activista. O crime de Olya reside no facto de se sentar nas ruas de Moscovo, entre a Polícia de Choque e os Manifestantes, e ler para as Autoridades os Direitos inscritos no texto da Constituição da Rússia.

Estas sessões de leitura e de esclarecimento já lhe valeram uma viagem nos braços da Polícia em autocarro forrado de cortinas até à Esquadra mais próxima. As eleições locais são em Setembro e os candidatos da Oposição foram banidos do conclave eleitoral – as manifestações duram há 6 semanas.

Em Berlim até os Museus exibem muros. No Museu Pergamum o visitante é surpreendido com gigantescos arcos triunfais românicos e com um vasto segmento dos Muros da Babilónia, incluindo o Portão Ishtar em azulejos azuis e dourados. Muros e portões. A cidade de Berlim usa a história da Alemanha sob a forma de uma cicatriz de cimento e arame.

De Portugal chega a proposta de criação de um Serviço Nacional de Saúde para cães e gatos. Os portugueses já são tratados como cães no clássico Serviço Nacional de Saúde, agora só falta reconhecer o estatuto de Humanidade às espécies oprimidas. O cérebro do PAN é um misto de Danton e Robespierre, a permanente cruzada pela pureza, a perpétua adolescência de um monge cruzada com a indelével ingenuidade de um delinquente, meticuloso na avaliação do respeito e excessivo na imposição de uma igualdade fabricada. No fundo, um delírio desumano em nome de uma qualquer Humanidade.

Na esplanada de Berlim um amigo conta-me a história de um homem que saltou o Muro 15 vezes. Não existia qualquer razão ou motivo para aquela fixação ritual, mas quando Berlim sucumbia ao nevoeiro, quando o tédio se instalava em casa e o sossego invadia a rua deserta e cinzenta, o homem não resistia à aventura e saltava o Muro para sentir que existia e que estava vivo e que o Muro era a versão berlinense do Everest, uma Montanha Mágica à espera de ser vencida.

As águas do Mediterrâneo também chegam aos passeios de Berlim. Os navios das ONGs continuam a alimentar o tráfico humano nas duas margens do Mare Nostrum. Moria, o maior campo de refugiados da Europa, é uma zona de guerra para quem diz que foge da guerra. O desastre, a desolação, a insegurança, a violência, o fracasso e a fraqueza da Europa face a uma invasão que não pode, não sabe, mas que sobretudo receia impedir.

Em Berlim as luzes de Lampedusa também brilham na noite do Continente. Os sírios são conhecidos por comprar roupa e as lojas de telemóveis vendem cartões a eritreus, somalis, afegãos, para rapidamente ligarem à família e para informarem que estão a falar com vista para o Reichstag em pleno coração da Europa.

Há aqui uma certa ironia das coisas e da História, uma vez que a limitada atmosfera de Berlim foi um dia uma ilha num mar de terra. E nos mapas, o Muro em Berlim tal como o Mediterrâneo entre a África e a Europa, são muitas vezes assinalados por uma delicada faixa cor-de-rosa, mas na realidade representam um espaço onde o Mundo que se conhece acaba e começa a geografia do desconhecido.

E subitamente são as nuvens negras da Amazónia em chamas que invadem o céu azul da cidade. Indignação no Mundo, ignorância em Brasília, o fogo percorre em estilo ‘promenade’ uma vasta zona da floresta tropical, uma floresta com a dimensão da Europa. E logo cruzam o Atlântico sanções por violação do Acordo de Paris e a sempre velha e actual acusação contra a Europa “colonialista”.

As Alterações Climáticas estão a enervar o Mundo até ao limite do desespero, e ao mesmo tempo que se agrava o problema, apela-se para o engenho humano no sentido de poder inventar máscaras térmicas que permitam que o Mundo continue a ser o espaço da aventura e da novidade.

De novo a realidade da esplanada de Berlim acaba por se impor com uma estranha história que o meu amigo me conta com prazer. É a história de um casal que resolve divorciar-se mas que, em vez de vender o apartamento e mudar a vida para novas moradas, resolve construir um muro dentro da antiga casa comum. A casa foi dividida em duas de acordo com um eixo vertical de cimento feito, e os membros do casal ainda lá vivem, cada um no seu lado da casa agora transformada em duas residências individuais. Como manda o rigor de uma vida nova, os antigos membros do casal ignoram-se mutuamente como se de perfeitos estranhos se tratasse.

Em Berlim os habitantes gostam de contar parábolas da cidade e acreditam que as parábolas são as histórias verdadeiras que representam a cidade. Estas parábolas são as histórias dos homens que só encontram as suas identidades num qualquer lugar de fronteira. A fronteira pode ser o destino da morte ou a promessa de uma nova vida. Da Rússia ao Mediterrâneo, a tragédia da morte e a comédia da vida são a marca da esperança para sempre inscrita na natureza humana. Numa esplanada de Berlim, entre um café e uma Perrier, as histórias da fronteira continuam a sussurrar-me – “Liberta-te da Esperança e Liberta-te do Medo”.

Nota: Por opção, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

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