Ilusão Vermelha

Para o PCP, a pandemia não só representa uma crise estrutural do capitalismo como tem exposto as profundas e insanáveis contradições do sistema.

Na cidade libertada, o Congresso do PCP. No Pavilhão estão os heróis da classe operária, as vítimas de uma campanha reaccionária contra o Partido e contra todos os seus ideais políticos. Sem testes Covid, sem medição de temperatura, cantam a Internacional num tom de outros tempos, celebram a memória centenária da resistência à sombra solene da Ordem de Lenine. Tenho na minha secretária um exemplar da Ordem Lenine comprada num flea market de Budapeste.

Mas vamos directos ao assunto que a Revolução não pode esperar. Existe um enorme equívoco em torno da crítica à realização do Congresso do PCP, sobretudo quando se utiliza o argumento da pandemia, o controle da saúde pública, o bem comum da segurança. Na lógica interna do PCP, o Congresso é um acto político por excelência que se assume como impune face à pandemia. Não existe argumento qualquer sobre a saúde pública que possa evitar a celebração política de um Projecto que está para além dos motivos menores impulsionados pelo lucro de uma sociedade capitalista. O fascismo ainda é o último estágio do capitalismo.

O Congresso é uma prova de responsabilidade e de coragem. O Partido não se pode entregar ao privilégio e ao egoísmo de se esconder e defender enquanto os trabalhadores estão nos seus locais de trabalho todos os dias, resistindo hoje e sempre contra a intensificação da exploração a pretexto da pandemia. O Partido não se esquece, não se esconde, não declina as responsabilidades quando os trabalhadores sofrem e enfrentam dificuldades. A realização do Congresso é a prova da superioridade moral do Movimento Comunista.

Depois há a evidência social do “retrocesso pandémico”. Por todo o lado circulam medidas musculadas que pretendem dificultar o protesto e proibir a luta social e laboral, para limitar as liberdades e os direitos cívicos. Todas as justificações contra a realização do Congresso são “artificiais”, são abusos do poder dominante, reforços do controle de massas, demonstrações de força para intimidar, desmobilizar, reprimir. A pandemia é uma máscara que vai minando a democracia. O PCP não aceita a depreciação e a desvalorização da actividade política porque tudo é política.

O PCP observa o mundo e coloca-se no centro de uma história que nos diz que o futuro tem um partido. Como é possível pretenderem proibir a história e com ela o futuro e a salvação da Humanidade?

Para o Partido a pandemia não só representa uma crise estrutural do capitalismo como tem exposto as profundas e insanáveis contradições do sistema, confirmando no processo a natureza exploradora, opressora, agressiva, predadora, constitutivas da mentalidade burguesa e da ganância capitalista. Basta observar a “pirataria” em torno da aquisição dos equipamentos de protecção médica, basta reconhecer o “negócio das vacinas”, tudo indicadores evidentes dos problemas insanáveis, profundos, estruturais, que a pandemia trouxe à evidência e à superfície de um regime injusto, caduco, criminoso. Esta é a lógica que motiva a brutal e contínua ofensiva ideológica contra o Partido com a clara intenção de intimidar e de criminalizar a luta social e política. Só o PCP é o Partido de todas as lutas e de todos os tempos.

Perante este cenário, a pandemia é para o PCP o produto industrial de uma sociedade capitalista decadente, a mercadoria que pretende dominar pelo medo da doença e pela ameaça da morte as aspirações da classe operária, evitar a erradicação da exploração do Homem pelo Homem, criar o grande horizonte capitalista numa sociedade de mercado governada pelas grandes multinacionais farmacêuticas. Face a esta conspiração do grande capitalismo internacional e pós-moderno, perante esta escalada do novo Imperialismo pós-pandémico, é urgente e necessário a criação de um Novo Movimento Comunista Revolucionário Internacional. O PCP tem o seu lugar nas fileiras da resistência.

A lógica interna do PCP parece a distopia de um romance escrito nos confins de uma cela branca de um hospital psiquiátrico. É a marca cruel de uma permanente esquizofrenia entre um ideal comunista intocável e puro e as práticas questionáveis que o socialismo real rasgou no rosto da Humanidade. Pretendendo mudar o Mundo com base na exclusão permanente de uma classe, gera uma visão do Universo Global que se reduz à projecção de um marxismo-leninismo como expressão única, última, exclusiva, de uma Torre de Babel que nos promete o Céu e nos leva ao Inferno. O PCP é o guarda que ficou esquecido numa ruína abandonada nos campos de Kolyma.

O Projecto Político de uma sociedade ideal gritada em milhões de aerossóis no Congresso do PCP entrará sempre em confronto com a existência de uma sociedade real, sendo que esse conflito não tem resolução política pela discussão e pelo diálogo, apenas e sempre pelo exercício da violência, pelas complexidades da mentira, pela falsa consciência de quem destruiu a linguagem política até à náusea. Os comunistas são impunes ao covid. Os comunistas são impunes à verdade. Os comunistas prometem a libertação. Quem liberta os libertadores?

Nota: O autor escreve ao abrigo do do antigo acordo ortográfico.

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