Indústria 4 ponto o quê?
Não há adaptação e resiliência que resista à falta de pessoas para acrescentar valor às empresas.
Bem sei que está quase tudo de férias mas ganhem lá mais um minuto: não resisto a escrever umas linhas sobre o que a indústria mais exportadora do país pensa sobre o futuro próximo nos domínios da economia e da formação (sim, é a metalurgia e metalomecânica que mais exporta em Portugal com o impressionante número de 14,6 mil milhões de euros em 2016).
Comecemos pelo que quase todos os empresários falam, mas ninguém parece acreditar: não temos recursos humanos para continuar a crescer ao ritmo que a indústria metalúrgica e metalomecânica tem crescido nos últimos anos. Aliás, não temos recursos humanos para o possível crescimento das atividades de manufatura, seja ela de outros setores industriais, seja da vital “indústria do turismo”.
Este facto é tanto mais preocupante se tivermos em conta que nos próximos 10/15 anos o mundo profissional vai mudar mais do que nos últimos 50 anos; se pensarmos que as mudanças tecnológicas se estão a dar a um ritmo alucinante; se verificarmos que os consumidores estão a mudar e a seguir tendências que terão implicações brutais nos produtos e serviços que deverão ser apresentados no mercado.
A “economia circular” não é mais uma moda. É uma certeza. Basta ver a forma como os “milleniuns” olham para a partilha de carro, de férias ou de casas. Ou mesmo do posto de trabalho…Este processo é irreversível. E juntando a digitalização (eu sei, já esgotei todas as buzz words permitidas neste artigo…) dos processos e produtos, temos uma combinação explosiva.
Com este cocktail, o que resta à indústria nacional perante tais desafios? A resposta óbvia é: “adaptar-se”. Mas não é isto que toda a indústria tem feito nas últimas décadas? Com relativo sucesso, dada a nossa dimensão e posição global? É, de facto. Mas não há adaptação e resiliência que resista à falta de pessoas para acrescentar valor às empresas. Mesmo com a “robotização” das tarefas. (bolas, lá foi mais uma buzz word).
É por isso que falar da “nova economia”, de start-ups e de Indústria 4.0 até fica bem no discurso político mas não chega. Falta a estrutura. E a estrutura essencial são as pessoas.
Como queremos aproveitar a atratividade de Portugal enquanto país de investimento se não acautelamos o futuro? Como pretendemos ser a “Califórnia da Europa” – expressão muito feliz que eu oiço frequentemente à minha querida companheira de Unidade de Missão Portugal In, Chitra Stern e com a qual concordo – se não temos massa crítica para apresentar? Dificilmente aguentaremos esta boa imagem (que é real) se não atuarmos já!
A formação e os apoios à formação, que são legítimos e necessários no contexto europeu e dos fundos estruturais, não podem ser alvo de cativações e do jogo político e económico associado ao défice. Não pode.
Dando um exemplo muito prático, o CENFIM, Centro de formação para a indústria da metalomecânica, não vai abrir turmas em setembro por causa da política de cativações do Ministério da Educação. Se já tínhamos dificuldade em recrutar pessoas para certas áreas fundamentais do negócio, como será dentro de dois anos, em que não teremos ninguém a sair dos centros de formação dedicados que “alimentam a indústria”? Impossível, até porque a oferta formativa da educação não dá resposta ao mercado de trabalho.
E não haverá ‘power point’ ou campanha sobre a indústria 4.0 que nos faça alcançar os resultados que todos queremos.
Diria que o país se está a preparar para todos estes desafios apesar deste enquadramento. O investimento tem aumentado. As exportações crescem de forma sustentada – embora nos preocupe o aumento das importações – e a imagem do país moderno melhora todos os dias. Ótimo. Mas não conseguiremos aguentar este crescimento sem resolvermos rapidamente este problema estrutural.
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