Irlanda, episódio 7premium

Deixo um desafio a Bárbara Reis. Que me dê um exemplo de um país que, estando na cauda da Europa, tenha conseguido crescer graças a impostos elevados e nacionalização da economia.

No dia 23 de Janeiro Bárbara Reis escreveu um artigo no Público sobre um “autocolante” recebido por Whatsapp onde se comparava a situação portuguesa e irlandesa, questionando se a Irlanda estava de facto numa situação melhor que Portugal. Respondi-lhe uns dias depois, respondendo às suas dúvidas, e a Bárbara Reis gentilmente respondeu de volta. Eu respondi aqui, ao que a Bárbara Reis ripostou não com um, mas com dois textos.

Mantenho-me confinado ao tema esta semana até porque vou percebendo alguma evolução importante, nomeadamente o facto de ambos já aceitarmos que a Irlanda está em circunstâncias bastante melhores do que Portugal, algo que não parecia estar muito claro no primeiro texto de Bárbara Reis.

Começando pelo mais importante. A Bárbara Reis chama a atenção para o impacto da educação no crescimento da Irlanda, apontando vantagens muito anteriores ao actual crescimento. Tem razão. A educação é importantíssima para o crescimento económico de um país (e também para o crescimento pessoal dos indivíduos, mas isso fica para outro artigo). Mas a educação precisa de oportunidades para a complementar e retirar todo o proveito económico possível.

Um país que forme pessoas altamente qualificadas, mas que não seja capaz de atrair o capital para as empregar, apenas formará emigrantes e pessoas insatisfeitas com as suas oportunidades. Aliás, como Bárbara Reis refere muito bem nos seus artigos, a Irlanda passou décadas a enviar jovens altamente qualificados para o estrangeiro, especialmente Reino Unido e Estados Unidos. Capital e educação complementam-se. Um país capaz de formar astronautas, mas sem capacidade de atrair capital para investir em foguetões, está na verdade a formar emigrantes ou condutores de Uber frustrados. O mesmo se passa com engenheiros, gestores, médicos e outros profissionais altamente qualificados. Sem capital para os empregar não se pode retirar todos os benefícios económicos dessa formação.

Diz a Bárbara Reis que comparar Portugal com Irlanda é enganar os jovens porque a Irlanda tem 0% de analfabetos há 100 anos e Portugal ainda tinha 40% em 1973. Tem razão. Este é um dos factores do nosso atraso. Mas não é o único. Em 1973, Portugal tinha 40% de analfabetos e a Irlanda 0%. Nesse ano, a diferença entre o PIB per capita dos dois países era de cerca de 28%. Em 2019, a Irlanda continuava nos 0% de analfabetismo e Portugal estava já próximo disso (pelo menos entre a população activa). No entanto, o PIB per capita da Irlanda era 223% superior ao de Portugal. Claramente houve aqui outro fator relevante. O analfabetismo foi uma razão de atraso em relação à Irlanda, mas certamente haverá outras, como demonstra o facto de termos reduzido essa diferença de escolarização e, mesmo assim, a diferença de PIB per capita ter aumentado bastante.

Diz a Bárbara Reis que “a Irlanda cresceu mais do que Portugal, mas não tanto como se julga”, colocando depois o crescimento médio anual nominal dos dois países entre 1960 e 2009 (incluindo os anos do Estado Novo em Portugal, mas excluindo os últimos 10 anos devido ao impacto das “big tech” americanas na Irlanda). Calcula que o crescimento na Irlanda foi de 9.24% versus 8.86% em Portugal, para concluir que a diferença não foi assim tão grande.

Sobre isto há várias coisas a apontar:

  1. No princípio desta discussão já tínhamos acordado que usar valores não ajustados pela inflação e poder de compra era errado, assim como utilizar como ponto de partida/chegada nas comparações anos excepcionais. Vou assim então considerar que a utilização do valor nominal não ajustado a inflação e poder de compra e o ano de chegada coincidir com a maior crise económica na Irlanda nas últimas décadas foi apenas um lapso.
  2. A exclusão de 10 anos de dados (2009-2019) com a justificação que a partir daí houve um grande impacto das Big Tech também faz pouco sentido numa discussão que é precisamente sobre o impacto dos impostos baixos na atracção de investimento de grandes empresas. É precisamente para poder acontecer em Portugal o que aconteceu na Irlanda nos últimos 10 anos que uma política de baixos impostos seria útil.
  3. Se retirarmos a década de 60 das contas, porque grande parte das políticas do Tigre Celta apareceram nos anos 80-90, e até para não parecer que estamos aqui a elogiar a política do estado novo em Portugal, o que temos é que entre 1974 até 2019 o crescimento médio do PIB per capita (a preços constantes) foi de 3,9% na Irlanda versus 1.8% em Portugal (3,5% vs 2,0% se contarmos só até 2009). Com números ajustados pela inflação e poder de compra dá para perceber melhor a dimensão das diferenças. O crescimento da Irlanda em relação a Portugal foi sempre em torno do dobro durante este período.
  4. Mesmo dando de barato todas as questões metodológicas anteriores, dizer que uma diferença de crescimento médio anual de 4 décimas ao longo de 50 anos é irrelevante não faz muito sentido. Seria como dizer que a Sara Sampaio apenas cresceu mais 6 milímetros por ano do que o Fernando Mendes, ou que de este apenas engordou mais 500 gramas por ano do que a Sara Sampaio. Quando se trata de comparações de séries longas e cumulativas, as discrepâncias pequenas importam porque revelam diferenças permanentes e estruturais de políticas e comportamento. Aliás, como qualquer pessoa que olhe para a Sara Sampaio e o Fernando Mendes perceberá.

Esta temporada dedicada à Irlanda já vai longa. Eu não me importo de prosseguir, até porque são artigos fáceis de escrever (sinto que estou a roubar os acionistas do ECO quando me pagam para escrever uma coisa que sai em 20 minutos) e, nisto estou de acordo com Bárbara Reis, é divertido.

No entanto, até para não aborrecer os leitores, deixo o mesmo desafio a Bárbara Reis que antes. Que me dê um exemplo de um país que, estando na cauda da Europa, tenha conseguido crescer graças a políticas de impostos altos e nacionalização da economia. Apenas um contraexemplo à Irlanda que justifique o apoio a esta estratégia que Portugal anda a seguir há demasiado tempo e a aversão à estratégia seguida com tanto sucesso por outros países.

Podemos abrir uma segunda temporada a falar desse país. A não ser que não exista, claro. E aí fica uma questão importante: porque é que rejeitamos um modelos que funcionou em tantos lados e continuamos a apostar num que não oferece um único exemplo de sucesso

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