Kabul é uma Mulher

Abandonar estas mulheres ao arbítrio Islâmico é um crime intragável. Retirar estas mulheres da sociedade afegã é condenar o país a cem anos de solidão e a cem quilómetros de cemitérios.

A queda de Kabul tem o corpo de uma mulher. O Ocidente em pânico descobre num gesto de tapeçaria imperial que as mulheres afegãs são o fantasma da presença americana. É como se o Afeganistão fosse o País das Mulheres, uma extensão fantástica dominada pela mitologia das ideias erradas, das ideias desfeitas, levadas pela realidade de uma tempestade que desce das montanhas. A versão que circula no Ocidente assustado é a visão de uma violação perpétua, persistente, profunda, de todas as Filhas do Oriente.

Bloqueados entre a culpa colonial e o colapso do intervencionismo liberal, o Ocidente em retirada refugia-se na fragilidade das mulheres como corpo jacente de todos os sonhos democráticos num país estranho à democracia e ainda mais estranho à dignidade das mulheres. Mas esta visão da mulher-vítima é um atentado à própria dignidade da mulher afegã e, por extensão, uma redução do papel da mulher nas sociedades ocidentais em transformação e em mudança. É a circunscrição da mulher às contingências de um género apropriado pela codificação de uma estrutura social rígida, patriarcal e estagnada no tempo.

O Ocidente recorre então à religião humanitária para salvação dos seus erros políticos, estratégicos, militares. Entre o caos do aeroporto e o caos da história recente, o propósito é então o de estabelecer uma ponte aérea que liga o Inferno Islâmico ao Paraíso Ocidental, o Paraíso imperfeito em que se julga possível receber milhares de refugiados e com esse gesto proteger as consciências pesadas perturbadas com os gritos de Kabul em convulsão nas bocas secas com o pó das ruas.

O que se transporta no convés dos aviões são corpos dilacerados pelas ilusões de um futuro adiado ou destruído, são a dimensão material de uma mercadoria feminina, mas nunca a dignidade, a alma e a sensibilidade de uma cultura que Goethe designaria por “Eterno Feminino”. A igualdade não é o estatuto de um refugiado, tal como um refugiado interno não goza da igualdade de um cidadão inteiro.

Perdida a guerra no terreno, pela opção e pela vontade, a guerra muda-se agora para o corpo das mulheres afegãs observadas à distância como máquinas de prazer, aparelhos de reprodução, estátuas inertes que deslizam na reclusão dos lares-prisão e no Paraíso das Virgens do Profeta. Perfeitas, imóveis, como um insecto preso para a eternidade no amarelo do âmbar.

Não se consegue salvar um país com uma ponte aérea. Qualquer evacuação é um gesto de desespero, a última alternativa no elenco das piores alternativas. Pior ainda quando todo o empreendimento moral tem como fundamento a fragilização do estatuto feminino no Islão mais extremo. O mesmo estatuto feminino violado pelas comunidades islâmicas na Europa e defendido e justificado por argumentos multiculturais em nome de uma mais perfeita inclusão – a inclusão da barbárie, a dominação do corpo feminino, a mesma barbárie que hoje se denuncia em pânico na distância que vai de Lisboa a Kabul.

Percebo o medo e o desespero de quem se abriga do Sol junto ao cimento gasto dos muros do aeroporto, sentadas em penitência sobre as barras de ferro contorcido e ferrugento, percebo o trânsito das crianças que voam sobre o mar de mãos da multidão até encontrarem o abrigo nos braços de um soldado estupefacto. Mas não quero perceber a hipocrisia culpada e cobarde de um Ocidente que simplesmente desiste, abdica, abandona todos aqueles que em si depositaram a vida e o futuro de um país mesmo na forma de um estado falhado.

Após vinte anos de presença do Ocidente, o que deve ser sublinhado e reforçado é que o estatuto das mulheres é o melhor marcador para o progresso da sociedade afegã. O que deve ser reforçado e sublinhado é a coragem das mulheres face à ameaça do Islão Fundamentalista. O que deve ser enaltecido é o papel das mulheres na construção de uma fábrica social mais coesa, com maiores índices de participação e de igualdade, no fundo as bases invisíveis de uma nova sociedade asfixiada pelos timings políticos e pela pulverização tribal. O futuro do Afeganistão está nesta legião silenciosa que absorveu as lições da liberdade e da democracia.

Neste ponto surge um paradoxo e um dilema. Abandonar estas mulheres ao arbítrio Islâmico é um crime intragável. Retirar estas mulheres da sociedade afegã é condenar o país a cem anos de solidão e a cem quilómetros de cemitérios.

Portugal está disponível para receber 50 refugiados afegãos, especialmente mulheres e crianças. Seria hilariante se não fosse trágico. O discurso do Governo português alinha com o coro internacional após o colapso do Afeganistão. A hipocrisia continua a escorrer das declarações da colossal comunidade internacional. Portugal é pequeno e os problemas do Mundo são demasiado grandes, a começar pelos problemas dos portugueses em particular e do País em geral. Mas é comovente o alívio da consciência e a satisfação de um Ocidente confrontado com as chamas da sua incompetência. Como é bonito o bazar de Kandahar na margem esquerda do Tejo.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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