Manuel Pinho e a lavandaria da rua de São Bento

O ex-ministro esteve três horas no Parlamento a falar de tudo menos de corrupção. Foi um exercício de branqueamento de imagem com o alto patrocínio dos deputados.

O S. Pinho recebeu dinheiro do Grupo Espírito Santo quando era ministro? Se recebeu, foram contrapartidas para beneficiar a EDP? Porque é que foi dar aulas para Universidade de Columbia depois desta receber importantes doações da EDP? É verdade que recebeu 3,5 milhões de euros? Porque é que é dono de sociedades offshores como a Blackwade, a Tartaruga Foundation ou a Masete II? Porque é que comprou um apartamento em Nova Iorque através de uma offshore? De onde vêm os 490 mil euros que declarou em 2005 por dois meses de trabalho no GES? Como é que foi o processo de compra da casa na rua Saraiva de Carvalho a um fundo do BES?

Estas são algumas perguntas a que Manuel Pinho deveria ter respondido esta terça-feira na Assembleia da República. Não respondeu a nenhuma. Falou de populismo, da poluição na China, do nuclear, das renováveis, da RTP e até se deu ao descaramento de fazer propostas para baixar a fatura da luz. Resumindo, o que vimos na Assembleia da República foi um exercício de tentativa de limpeza de imagem com o qual os deputados não deveriam ter pactuado nem aceite.

A Assembleia da República prestou-se a um papel de máquina de lavar. Depois de uma pré-lavagem, num monólogo de Manuel Pinho durante 30 minutos, programaram a máquina para três horas de lavagem, com um poderoso detergente chamado ‘falta de vergonha’. O tira-nódoa foi um deputado socialista: “Apenas Luís Moreira Testa questionou o antigo ministro exclusivamente sobre como baixar o preço da energia no consumidor e o defendeu das investidas do PSD, Bloco, CDS e PCP”, relatava o jornal Público.

Os restantes deputados tentaram por todos os meios que o ex-ministro da Economia falasse das suspeitas de corrupção, mas Pinho saiu do Parlamento enxuto, sem um único vinco. E quando os deputados insistiam, Pinho saiu-se com esta tirada: “Se eu convido alguém para vir ver futebol à minha casa, não o ponho a lavar o chão”. Pinho tem razão, não foi ao Parlamento para lavar o chão, foi para lavar a imagem.

E porque é que os deputados se prestaram a este papel? Recuemos alguns dias. Esta audição resultou de uma notícia do jornal Observador e de um statement de Rui Rio. Depois de o jornal ter noticiado que Pinho terá recebido dinheiro do Espírito Santo quando já era ministro, Rui Rio sentiu-se indignado e disse que ia chamar o ex-ministro ao Parlamento para responder à seguinte pergunta: “É verdade ou não é verdade que ele enquanto ministro recebia um salário paralelo de 15 mil euros por mês, que é muito dinheiro, do grupo Espírito Santo?”

Mas o PSD pôs-se a jeito. Quando os social-democratas formularam o requerimento para que Pinho fosse ao Parlamento, convidaram-no para responder sobre as suspeitas de corrupção, mas também para falar sobre o setor elétrico em Portugal. Esta segunda parte era desnecessária, não só porque decorre no Parlamento uma outra comissão que está a tratar os assuntos de energia, como também é irrelevante nesta altura saber o que pensa Pinho sobre o setor numa altura em que é alvo de suspeitas tão graves.

Manuel Pinho aceitou ir ao Parlamento, mas impôs como condição não falar de casos que estão a ser investigados pelo Ministério Público e limitou-se a perorar sobre o setor energético. Condição que os deputados não deveriam ter aceitado, sendo que o mais ajuizado era ter remetido a audição para a comissão de inquérito parlamentar que goza de poderes semelhantes aos das autoridades judiciais. Não o fizeram e, como dizia o slogan do detergente, branco mais branco não há.

A tolerância que os deputados tiveram com Manuel Pinho é, infelizmente, algo muito intrínseco à sociedade onde vivemos e até há estudos, como os de Luís de Sousa, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que mostram que nós, os portugueses, infelizmente somos bastante tolerantes com o fenómeno da corrupção e práticas menos éticas.

Eis três exemplos de notícias que saíram na imprensa ao longo desta semana:

  • O Público noticiava que um dos novos administradores que o Governo nomeou para o Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro é um militante socialista que esteve envolvido no processo de falsificação de fichas do PS de Coimbra.
  • No fim de semana, o Expresso contava o caso de uma funcionária do Ministério da Administração Interna que foi condenada em abril a dois anos e três meses de prisão com pena suspensa por dois crimes de abuso de poder, um crime de participação económica em negócio e um crime de falsificação de documento na sua forma qualificada por ter ajudado na viciação de contratos públicos. Três meses depois, foi promovida a diretora de serviços, na área do planeamento orçamental, no Ministério da Agricultura, devido à sua “reconhecida experiência” e “competência técnica e aptidão”.
  • Também o Expresso esta semana fazia parangonas com esta notícia: “Vice de Rio elogia suspeito na Operação Tutti-Frutti”. Conta o Expresso que Salvador Malheiro, vice-presidente do PSD, considera que Luís Newton, autarca do PSD na freguesia da Estrela, em Lisboa, e um dos principais visados na ‘Operação Tutti-Frutti’, é “o melhor presidente de junta do país”, e está a ser vítima de “uma caçada”.

Depois da máquina de lavar socialista só nos faltava o banho de ética do PSD.

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