Marcelo, Costa & Companhia

Gostava que cada leitor pensasse num jingle para o Portugal político contemporâneo. Qualquer coisa entre Cabaret Voltaire, Kraftwerk, Information Society, Dead Combo.

Vou começar em Skype. O Presidente da República visita o Oceanário para encanto dos pinguins que, de acordo com os tratadores, sentem a falta dos turistas. As reflexões políticas presidenciais e oceânicas cantam a glória de um encontro de culturas entre o Governo, o Presidente, o Parlamento. A

s Teses de Maio sobre a política nacional são escritas numa prosa delico-doce onde tudo é unidade, harmonia, paz e compreensão. Um Presidente de Direita e um Primeiro-Ministro de Esquerda definem um momento político histórico que não se faz em gabinetes, mas sim no reencontro de uma consciência nacional que concilia a ordem e o respeito à Direita com a mais desvairada loucura das massas no apogeu da Esquerda. Todas estas afectações líricas são causadas pelos efeitos leves da pandemia, a ideia de uma Nação em marcha em direcção à saúde, ao emprego, à riqueza, enfim, ao progresso. O cenário tem o enjoativo tom cor-de-rosa onde habitam os flamingos com uma perna enterrada no lodo.

Na ficção de uma novela ou filme romântico tudo isto seria perfeito, com um final feliz e o Sol a esconder-se no horizonte de Almada. Mas a política não se compadece destas ilusões passageiras e de conveniência. O Presidente da República e o Primeiro-Ministro encarnam o destino comum da Nação e decretam a suspensão da política. As hostes socialistas mais radicais revolvem-se na indignação e exigem o regresso da dignidade da Esquerda através da escolha democrática de um candidato vocal e socialista, aberto, tolerante ao Mundo e sensível aos valores imortais da velha Esquerda insubmissa. No arquipélago das ilhas exóticas à Direita pois acham que não é curial a apropriação político-cultural do Presidente da República pelo oportunismo do Primeiro-Ministro. A Esquerda grita de indignação, a Direita resmunga de impotência, enquanto Presidente e Primeiro-Ministro sobem o Chiado de braço dado percorrendo o País com a palavra da salvação.

Há um ponto político importante. Nas trezentas e setenta e sete histórias de Agatha Christie, o cadáver político encontrado escondido no arbusto de um jardim inglês dá origem a uma intriga com personagens que se movem num esquema clássico de acção. As personagens na versão portuguesa estão imóveis como figuras de cera num museu muito visitado por políticos e outros peregrinos.

O que está verdadeiramente em questão é que Belém e São Bento têm um entendimento da acção política como um drama estático em que as ideias, ideologias e afins, se perspectivam como bens absolutos independentes da ordem material e da sequência histórica. Mais importante do que a Democracia, para a qual não pode existir valores políticos universalmente absolutos, exclusivos, para Belém e São Bento os valores políticos são a visão ambígua de uma sensibilidade descentrada pelo caleidoscópio de um nacionalismo eurocêntrico e pela vertigem sonâmbula do poder. Esta união política tem um preço que se cobra com o dedo em risque na forma de uma sentença contra todos os democratas defensores da diferença e do debate político.

Vou continuar em Zoom. O Presidente da República almoça com o líder do PSD. Há um “prenúncio de morte” no discurso Social-Democrata, palavras que vêm de um outro Mundo, talvez de um hemisfério mais ao Norte onde a política não procura caminhos novos para andar, pois prefere as teias velhas que vidram as janelas políticas num exercício de medo e de ocultação. Em Portugal a Direita está assim, sem plano, sem pronúncia, talvez no luxo de uma deriva perigosa que haverá de acabar no inferno de uma ilha deserta.

O líder do PSD não está infectado pelas ideias políticas, não tem qualquer posição de relevo ou influência política, não perspectiva uma ocupação próxima como inquilino de São Bento, nem esbanja os sentimentos primários da espécie no reino profundo das Autarquias. Belém é o que resta da Direita democrática. Só que a Direita democrática não sabe como retirar dividendos políticos da “Magistratura de Influência” do Presidente da República. Pelo contrário, o Presidente da República parece ter origem num outro partido que não o PSD, um partido que concilia em termos de identidade política a social-democracia com a democracia-cristã, mais um certo catolicismo social à esquerda que tanto seduz e encanta o Primeiro-Ministro. Nesta equação política, o PSD, liberal, social, agnóstico, não tem lugar, não tem função nem ministério, limita-se a ser a personagem que descobre o cadáver no arbusto, chama as autoridades e recolhe-se rapidamente no jantar político mais próximo denunciando a falta de segurança e os instintos selvagens dos Portugueses.

Gostava que cada leitor pensasse num jingle para o Portugal político contemporâneo. Qualquer coisa entre Cabaret Voltaire, Kraftwerk, Information Society, Dead Combo. “À volta do adro duas ou três casas, dois bancos vermelhos, ao meio uma cruz, ali num café ao lado da igreja, dois homens parados e uma linda luz”. A política em Portugal desafia a gravidade, tal como os pássaros no azul político do céu. Como escreve William Shakespeare em Hamlet, existe uma previdência especial até na queda de um pássaro. Se é agora, não vai ser depois; se não for depois, será agora; se não for agora será a qualquer hora. Estar preparado é tudo. Que os Portugueses estejam preparados.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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