Meia bola e força!

  • Fernando Sobral
  • 7 Março 2020

Este é o País do meia bola e força. Por aqui prefere-se o pontapé para a frente. E que o destino resolva o problema.

Entre as sofisticadas maneiras que as sociedades da Idade Média tinham para distinguir entre inocentes e culpados, uma era pouco desagradável. O acusado de um crime era forçado a comer um pão inteiro sem o mastigar. Se o conseguisse digerir assim, era considerado inocente. Mas se se engasgasse, era notoriamente culpado. Porque Deus ajudaria um inocente a comer o pão sem o mastigar.

Era uma justiça simples. Nos tempos modernos é mais sofisticada. Todos são inocentes até prova em contrário. Ninguém tem de se sujeitar a engolir um pão sem o mastigar. E sem ter fiambre ou queijo. Por conforto e segurança, os cidadãos acreditavam até há pouco tempo que a justiça era cega, surda e muda e tinha uma balança para equilibrar as decisões. Tal como acreditavam no Pai Natal e no Pato Donald.

Todo esse mundo idílico, feito de muitos santos e poucos pecadores, ruiu. Não é um acaso. As investigações sobre a corrupção arrastam-se até se extinguirem por cansaço. Ou por causa de recursos sucessivos. Juízes, que julgávamos estarem a um passo de se tornarem anjos, afinal parecem ser comuns mortais. O Tribunal da Relação de Lisboa, a acreditar no que é relatado, parece uma mesa de jogo de um casino clandestino. Quem acredita no xerife? Só Al Capone.

A Justiça não é orfã isolada. A política acompanha-a, numa sociedade anónima de responsabilidades. Exemplos não faltam. O sr. Chicão trocou todas as suas convicções sobre o aeroporto do Montijo depois de uma alegre cavaqueira com o sr. Pires de Lima. O sr. António Costa faz do Montijo a sua obra de regime. Mesmo contra o ambiente e a lei. Justiça e política beijam-se sem pudor. O Tribunal Constitucional, que o Bloco Central reservou para si, é um cozido à portuguesa para dois partidos. A Justiça, apesar dos esforços de magistrados, advogados ou funcionários sérios, parece o melhor bolo de chocolate do mundo. É partida e repartida pelos interesses que têm o monopólio do poder.

O problema é que a Justiça está agora à vista em trajes menores. Não é cega, surda e muda. Esquece-se de ver, só ouve o que quer, e só diz o que causa pouco embaraço. Deixou de ser respeitada. Os cidadãos percebem que outros valores se levantam. É uma versão distorcida do que Bart Simpson diz uma vez ao palhaço Krusty, que foi preso por evasão fiscal: “Desde que continues na televisão, as pessoas vão continuar a respeitar-te”.

Krusty, como se sabe, apesar de ser comediante, vendeu o seu nome a tudo o que dá dinheiro, de restaurantes de “fast food” a marcas de vodka. Só a presença na televisão lhe garante confiança. Estamos a caminho de um momento semelhante na Justiça? Só o uso da toga garante respeito?

Não admira. Este é o País do meia bola e força. “Pontapé para a frente e fé em Deus”, dizia-se. Ao olhar para mais uma espectacular operação contra os agentes do futebol, que redundará em nada, como é evidente, percebe-se porque tudo neste país é resolvido como um jogo do campeonato. Não interessa a beleza das jogadas. Importa só a gritaria por causa dos árbitros ou do VAR. Há alguns anos Arrigo Sacchi dizia que o “calcio” italiano padecia do síndrome do Coliseu. Na sua opinião os italianos tinham transposto para o futebol as regras de combate e sobrevivência que regiam o Coliseu romano.

Em Portugal o futebol não é mais do que uma luta de gladiadores. Os presidentes dos clubes só são confrontados com a Justiça depois de deixarem de o ser. O essencial não se discute. Ninguém dito responsável actua. Seja na violência no desporto. Na incitação ao ódio por parte de dirigentes, que vão destruindo aquilo que dizem querer ser uma indústria como há em Inglaterra ou em França. Tudo perante a complacência dos interesses instalados na Liga, na FPF e dos assobios para o ar, como convém a todos, do inexistente secretário de Estado dos Desportos. E depois admiram-se que não haja equipas portuguesas na Liga dos Campeões ou na Liga Europa. Não há competitividade, não há racionalidade económica, não há estratégia. Não há Justiça. Há comissões para uns e comichões para os adeptos, se perderem o campeonato nacional da paróquia. Portugal é um estádio, onde futebol e política se confundem.

Talvez todos devessem ler Cesare Beccaria, no fundamental “Dos Delitos e das Penas”, escrito em meados do século XVIII (e editado em Portugal pela Fundação Gulbenkian), onde deixava um alerta sensato: “Quanto mais pronta e mais perto do delito cometido esteja a pena, tanto mais justa e útil ela será”. Por aqui prefere-se o pontapé para a frente. E que o destino resolva o problema.

Sugestão da semana

“A Arte Eléctrica em Portugal”, de Leandro Ferrreira e Pedro Clérigo, que a RTP1 emite às terças-feiras à noite, é uma boa forma de recordarmos a evolução da música urbana nacional desde os anos 80. E de confrontarmos isso com os nossos ciclos de criatividade e de conformismo.

  • Fernando Sobral
  • Jornalista

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