Moderação e maniqueísmo

Aristóteles, na Política, definiu dois tipos de regimes: os rectos e os degenerados. A cada tipo, corresponde um tipo de justiça.

Aos primeiros, corresponde um governo que almeja o interesse comum, em que a justiça abrange uma condição absoluta. Os regimes degenerados, por sua vez, não se coíbem de defender também a justiça, esta é, contudo, relativa a um só, a uns poucos ou até a muitos, mas nunca a todos.

A discussão acerca desta divisão rapidamente pode perder-se nas querelas capitalistas/marxistas, liberais/socialistas, conservadoras/progressistas, bastando que alguém preste excessiva atenção à precisão dos termos utilizados, qual Narciso debruçado sobre o lago. Mas interessa fugir desse excesso e sublinhar a intuição de Aristóteles: aos dois tipos de regime, há uma noção de justiça associada. Todos perseguem uma concepção de algo desejável e bom: a justiça. A diferença está, então, na partilha comunitária da visão daquilo que seja o interesse comum. Estas eleições europeias apresentam defensores desses dois tipos de regimes. Interessa a todos nós, europeus, “purificar” o nosso regime, não permitindo “silêncios” nas concepções de justiça dos nossos deputados europeus.

O potencial estrangulamento interno do Parlamento Europeu pode ser separado em duas concretizações coexistentes: por um lado, a possibilidade dos partidos dos extremos antieuropeus ocuparem cada vez mais assentos no Parlamento, o que implica, respectivamente, mais construtores de fantasias políticas; e, por outro lado, em reacção a isso, os partidos moderados europeus (os mais e os menos europeístas) sentirem que têm de “coligar” opiniões para “fazer frente” aos referidos extremismos.

Com efeito, o maior perigo destas concretizações seria o estrangulamento permanente da reflexividade dinâmica dos atores do espaço moderado, que é a raiz da sua competência e legitimidade democrática face à concorrência imoderada, que é indiferente à discussão e à realidade no seu todo. Esta indiferença à discussão prende-se, inevitavelmente, com a substituição da realidade por uma fantasia condicente com paixões imediatas – não pensadas – e geradas por novas fábulas de medos intemporais do Homem (como o da invasão por uma força estrangeira ou a perda de identidade).

Na linguagem aristotélica, as noções de justiça relativas não são só limitadas apenas a algumas pessoas, mas limitadas a algumas partes do ser humano: às suas paixões.

Ora, para combater esse perigo, é necessária uma discussão séria e informada sobre os assuntos que, urgentes ou não, alimentam as paixões do eleitorado europeu. Por mais que a Zona Euro ou o Mecanismo de Estabilidade Europeu sejam entendidos como fulcrais para o futuro da Europa, a crise das migrações ou a impotência da Europa face a potências estrangeiras preocupa mais o eleitorado europeu – pelo menos do tal ponto de vista passional.

O caso das migrações é paradigmático: o número de pessoas a entrar na Europa em 2018 representa cerca 10% do número de pessoas que entraram na Europa em 2015, altura do pico da chamada crise dos refugiados. Disse-o Juncker recentemente e di-lo também a Organização Internacional para as Migrações. Há, contudo, quem ainda considere que a entrada de 145 mil pessoas (números da OIM para 2018) no espaço comunitário ditará o nosso futuro, teimando em fazer do assunto uma bandeira de campanha.

Há um espaço de discussão sobre estes assuntos que tem de ser abordado e clarificado pelos partidos do espaço moderado europeu. E essa discussão não pode resultar num consenso de palmadinhas nas costas entre liberais, reformistas, socialistas e sociais-democratas europeus quanto à mera denúncia das mistificações dos imoderados. A concretização especifica da resolução de problemas como os imigrantes, a depopulação nacional, a crise económica, a política europeia de segurança ou a voz da Europa no plano global tem, essencialmente, de diferenciar-se não apenas contra a imoderação, mas também dentro da moderação. Esse equilíbrio da diferença da moderação é o desafio aos moderados europeus: têm de reinventar-se.

Há, ainda, um segundo perigo mais subtil. O silêncio político – invisível ao eleitor apaixonado pelas referidas fantasias políticas – é um cheque em branco para futuros governantes. Na exacta medida em que os moderados devem dar respostas às perguntas dos apaixonados, aos extremistas devem ser colocadas as perguntas dos desapaixonados.

Estas perguntas passarão por questionar como é que podem concorrer para o Parlamento Europeu tendo como bandeira uma resposta específica a uma crise que já não existe, nomeadamente, aquela da entrada de um número de imigrantes capaz de ameaçar as identidades nacionais, alimentada ad aeternum por filmes que circulam em grupos de Whatsapp e páginas autogeradas. Não desmistificar estas fantasias e permitir o silêncio aos partidos imoderados quanto aos outros assuntos comunitários mais técnicos é dar-lhes permissão democrática para degenerarem o regime europeu, pois, como a História Europeia nos conta, é no silêncio de hoje que se esconde a arbitrariedade futura da nossa governação.

O certo é que os imoderados não dizem apenas tolices e – alguns – ressentem-se de uma degeneração que teve lugar nos partidos moderados. Lembremo-nos da estagnação do consenso tecnocrático dos órgãos europeus, dos partidos europeus e dos partidos nacionais nos passados dez anos no que toca à crise do Euro. A ontologia do regime não é, nesse sentido, estática: o regime é degenerado pelo objecto da sua acção, mas rapidamente o podemos regenerar, discernindo as nossas posições, dialogando de forma verdadeiramente reflexiva e deixando-nos transformar pela validade que, cada um à sua maneira, encontre dentro do espaço moderado, aperfeiçoando, pouco a pouco, a nossa visão de uma justiça apontada para o interesse comum, formulado pela igual consideração de todos, por todos.

Nessa discussão – essencial para qualquer democracia –, não há demónios, nem dragões. O diálogo transformativo entre as diferentes noções de justiça, ao contrário do que os imoderados querem fazer parecer, não é sinónimo de uma luta pela eleição de uma visão perfeita. Grande parte do valor de uma democracia dos dias de hoje está exactamente no seu processo e, neste momento das eleições europeias, o processo reside na construção e manutenção de uma pluralidade dentro do espaço moderado e na exposição do vazio da imoderação.

Este domingo não tem de ser uma escatologia, um tudo-ou-nada. Na política, como em tudo o que é humano, não há espaços maniqueístas.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

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