Moinhos de vento

O que conta na indústria dos media e conteúdos? O fator humano, a criatividade, a capacidade tecnológica, a abertura ao risco, a vontade de inovar.

Como devem as organizações reagir à pandemia? Que ações tomar perante este cisne negro que coloca em causa a economia e a sociedade? Que prioridades estabelecer num contexto absolutamente disruptivo? O que fazer no curto prazo, pensando também numa lógica de futuro?

Na RTP temos focado a nossa energia em iniciativas que marquem claramente o papel distintivo que cabe ao operador de serviço público, atuando como alavanca do setor audiovisual, produzindo conteúdos com impacto para os cidadãos, completando lacunas que o mercado não consegue preencher e promovendo as indústrias criativas.

Começámos pelo lançamento de um pacote de apoio à produção audiovisual independente e ao cinema português, acelerando encomendas aos criadores nacionais, adiantando tesouraria às empresas com projetos concretos em produção, antecipando consultas de conteúdos para que o setor mantenha uma perspectiva de continuidade. Trouxemos assim previsibilidade e suporte a toda uma fileira de produtores, realizadores, guionistas e atores: talentos com capacidade criativa e potencial de afirmação em mercados externos, profissionais com uma dinâmica para a qual a RTP contribui de forma recorrente nos tempos normais e que merece ser continuada em tempos excepcionais.

Apostámos em conteúdos educativos, com o muito bem sucedido #EstudoEmCasa. Aqui temos um exemplo em estado puro do que é serviço público: disseminar conhecimento numa plataforma de acesso universal, assegurando que ninguém fica para trás; e contribuir para a formação de centenas de milhares de crianças, complementando a atuação do sistema educativo e das comunidades de professores. Mas não quisemos simplesmente reeditar a velha telescola, produzimos em tempo recorde uma oferta atualizada, moderna, apelativa, tecnológica, com presença na TDT, na RTP Play, em Portugal continental, nas regiões autónomas, e em África.

Reforçámos a nossa presença nas plataformas digitais, com inúmeras novidades e reforços de rubricas, gerando enormes crescimentos de procura, como no caso do RTP Ensina, que passou de 50 mil para 150 mil visitantes únicos por semana. E lançámos um projeto de grande envergadura, a RTP Palco, um novo site e app exclusivamente dedicados às artes performativas, divulgando num ambiente muito próprio a produção de música, dança e teatro, e reunindo um conjunto relevante de entidades culturais e parceiros em todo o país. Trata-se de uma montra nova para os espectáculos de palco, com uma curadoria cuidada, que passam a ter uma projeção muito mais vasta do que os espaços físicos tradicionais permitem. É uma oferta única no mercado nacional e inovadora mesmo a nível europeu.

Estivemos particularmente ativos na divulgação de campanhas de sensibilização e no apoio a ações de angariação de fundos, viabilizando investimentos críticos e ajudando milhares de cidadãos, quer seja na montagem de hospitais de campanha, em Lisboa e no Norte, quer seja no fomento à produção de ventiladores made in Portugal, quer seja em recolhas para ajuda alimentar de emergência.

Neste conjunto de iniciativas há características comuns, sobre as quais vale a pena refletir, pois abrem pistas para o futuro.

  • Em primeiro lugar, a incontornável convergência entre plataformas, aproximando cada vez mais a rádio e a televisão, com um peso crescente do digital na base de tudo o que fazemos.
  • Em segundo lugar o trabalho da RTP “em articulação com”, em rede, em parceria, com artistas, com fundações e instituições culturais, com entidades do setor educativo, com associações setoriais, atuando como uma plataforma aberta, recebendo e projectando iniciativas da sociedade civil.
  • Por fim, a noção que várias destas iniciativas nascerem num contexto especial, de emergência, mas trouxeram méritos que são permanentes. É o caso das apostas nos conteúdos educativos e nas artes performativas, embriões de novas ofertas estruturais da RTP. Ações de curto prazo que geram fortes impactos devem tornar-se permanentes e ganhar presença titular no portfólio da empresa.

Há um provérbio chinês que me acompanha: quando sopram ventos fortes, não devemos construir muros de abrigo, mas sim moinhos de vento. É isto que temos tentado fazer na RTP. Desenvolver novas valências e afirmar novas razões de ser, num contexto de adversidade. E mais uma vez fica claro aquilo que realmente conta na indústria dos media e conteúdos: o fator humano, a criatividade, a capacidade tecnológica, a abertura ao risco, a vontade de inovar.

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