Não fechem balcões, subam as comissões

Já ninguém quer saber o que levou à recapitalização da CGD. Depois dos SMS, agora a guerra é com o fecho dos balcões. A CGD precisa de tanto para cumprir o seu papel? Não resultou nos últimos anos.

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) registou os maiores prejuízos da sua longa história. Foram quase dois mil milhões de euros, um buraco que está já a ser tapado — quase tão rapidamente quanto o da Avenida de Ceuta. Um buraco resultante de anos de crédito fácil que ficou por pagar… mas que agora todos os portugueses são chamados a pagar. Afinal, é o banco de todos os portugueses, para o bem e para o mal.

Os prejuízos foram gigantescos — só o BES conseguiu um resultado pior, acabando por ser alvo de resolução –, mas agora parece que como o buraco está a ser tapado já não interessa quem minou o banco público. O inquérito à recapitalização da CGD está a ser suplantado pelo dos SMS trocados entre Mário Centeno e António Domingues. E quando a nova administração traça o mapa para o futuro do banco público, cai o Carmo e a Trindade.

Com tanto ainda por saber sobre o passado, mas também com tanto ainda por fazer para que a CGD deixe de pesar no bolso dos portugueses, a trica política centra-se, agora, nos balcões. “Ninguém peça à CGD para ficar em todos os sítios onde os outros bancos não querem ficar”, disse Paulo Macedo na apresentação das contas do banco, a mesma em que revelou que vão fechar balcões… muitos balcões.

O número de balcões, atualmente de 651, vai baixar para 470 a 490 nos próximos quatro anos. Para justificar o corte, o banco estatal faz a comparação do número de balcões em Portugal (541 por um milhão de habitantes), um nível que contrasta com a média europeia de 300 balcões por cada um milhão de habitantes.

A ideia é simples: reduzir custos. Se ficasse em todos os sítios onde os outros bancos não querem ficar, “então a CGD não saía dos seis anos de prejuízos que teve”, salientou Macedo. Ou seja, os cerca de cinco mil milhões de euros que agora estão a entrar no banco podem não durar muito se não se mudar o rumo dos acontecimentos. Mas, pelos vistos, nem todos concordam. No tempo de Pedro Passos Coelho essas agências existiam, diz o ex-primeiro-ministro, mostrando-se surpreendido porque têm agora de fechar.

Acusa mesmo comunistas, bloquistas e socialistas de “um cinismo atroz” ao verem o banco estatal fechar agências. Porquê? Na perspetiva do líder do PSD, mas também da vice-presidente, Maria Luís Albuquerque, este encerramento dos balcões é contrária à ideia de um banco público. É mesmo? Um banco público não deve ser um garante de estabilidade para os depositantes ao mesmo tempo que assegura o financiamento necessário para apoiar no crescimento da economia? E isso faz-se com balcões em cada esquina? Não é o que se tem visto.

Não é com uma estrutura de custos avultada que o banco conseguirá voltar a ser uma instituição sólida capaz de cumprir o seu papel na economia numa altura em que o setor financeiro português já não tem praticamente nada de português. Se calhar é melhor a CGD não fechar nenhum balcão e, tal como os restantes bancos do sistema, continuar a aumentar todas as comissões possíveis e imaginárias — destas poucos falam, e quase ninguém critica. E mesmo assim, daqui a pouco tempo voltar a chamar todos os portugueses para taparem mais um buraco.

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