Não sabíamos

Era importante que quem tem o poder e pede sacrifícios fosse capaz de explicar os próximos passos e os critérios para passarmos aos próximos passos.

Medo

Uma pessoa pode ter lido imensos artigos sobre o avião ser o meio de transporte mais seguro do Mundo. Pode conhecer as estatísticas de acidentes de alto a baixo e saber que as probabilidades de acontecer um acidente são ínfimas. Pode ser a pessoa mais racional do mundo, mas quando está sentada no avião e começa a sentir turbulência, o seu subconsciente só o leva para um pensamento: a possibilidade do avião cair.

O medo e a paranoia foram essenciais à sobrevivência humana noutros tempos em que os riscos eram mais frequentes. Noutros tempos, o medroso que se escondia ao ouvir um barulho podia estar errado 99 em cada 100 vezes. Mas 1 em cada 100 vezes, o corajoso morria e o medroso sobrevivia, passando os seus genes e aprendizagem à próxima geração. Por isso, o medo e a paranoia são características humanas tão comuns e a coragem é uma característica tão rara (e tantas vezes misturada com loucura) mesmo num tempo como o nosso em que os riscos são cada vez menores.

O medo, incluindo o medo irracional, tem sido essencial à contenção da pandemia. É o medo que mantém pessoas de baixo risco em casa, impedindo-os de serem agentes de transmissão para pessoas de alto risco. Mas o medo também pode ser perigoso. O medo é um instrumento de poder.

Perante o sentimento de impotência, aceitamos tudo o que pareça poder combater a ameaça. Damos ouvidos a todos os que nos aliviem o sentimento de impotência: desde os maluquinhos das teorias da conspiração aos homens providenciais que nos garantem que isto só se resolve com um Salazar em cada esquina e um Cunhal em cada fábrica. Somos capazes de tudo para aliviar a sensação de medo, até aceitar coisas que nos teriam metido muito medo umas semanas antes.

Esperança

Precisamos de saber qual é o plano. Obviamente a situação epidemiológica é muito difícil de prever. Mas era importante que quem tem o poder e pede sacrifícios fosse capaz de explicar os próximos passos e os critérios para passarmos aos próximos passos. O que é preciso acontecer para as restrições serem levantadas? Quando poderão abrir lojas e fronteiras? Quando aparecer um tratamento? Quando o número de infetados começar a diminuir de forma consistente? Quando o vírus for completamente erradicado do país (se é que isso é possível)? E se o vírus reaparecer?

Era importante que pessoas que estão há um mês fechadas em casa percebessem qual o caminho previsto, mesmo que existam incertezas nesse caminho. Era importante que empresários que estão a colocar o seu património pessoal em risco para continuar a pagar salários percebessem o que é que podem esperar do futuro. Pessoas que estão a fazer um enorme esforço pessoal para não serem agentes de transmissão – muitos apenas para defenderem a sociedade a que pertencem porque o seu risco individual é pequeno – precisam de saber qual é o plano. Ou pelo menos saber que existe um plano. Precisam de ter uma esperança qualquer. Para continuarmos todos a caminhar lado a lado, precisamos de saber em que direção estamos a ir.

Planos

Planos para o verão? Ir à praia. Passear pelo campo. Atravessar fronteiras. Jantar com amigos mesmo quando não apetece sair de casa. Concluir no final que valeu a pena, apesar da ressaca. Passar a tarde a fazer compras sem comprar nada. Escolher ficar em casa a ver televisão num dia bonito, sabendo que o fazemos por opção e que amanhã podemos fazer diferente. Jogar à bola na areia. Levar os putos ao parque. Beber um fino à beira-mar.

Éramos felizes e não sabíamos.

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