No fio da navalha, o Montepio precisa dum ciclo criativo

  • João Simeão
  • 21 Novembro 2020

O presente no poder é a doença em si mesma e a sua continuidade tem desfecho anunciado. O presente fora do poder precisa de ir além das provas de vida periódicas a alertar os que estão alertados.

O Montepio, como o conhecemos há 180 anos, pode ter os dias contados. O novo Código da Actividade Bancária, em discussão pública, confere ao Banco de Portugal (BdP), o poder de ordenar a venda de parte ou da totalidade duma participação qualificada numa instituição de crédito, quando “esta se encontre em risco de incumprimento dos níveis mínimos regulamentares de adequação de fundos próprios “e o BdP não lhe reconheça capacidade financeira ou “considere que a falta de diversificação accionista gera riscos para a situação financeira ou para a gestão sã e prudente da instituição de crédito”.

Este é o retrato do Banco Montepio (BM), em incumprimento dos rácios de capital e detido a 99,99% pela mutualista que, por sua vez, tem o Activo sobrevalorizado (banco, seguradoras e créditos fiscais) segundo o auditor PwC, e está pressionada a reduzir o investimento no banco, pelo Plano de Transição às regras da gestão seguradora. Esta é o contexto e o desafio que se coloca ao presidente da mutualista, Virgílio Lima, e Carlos Tavares, “chairman” do BM, o que nos leva à questão: São os homens certos para o momentum?

Carlos Tavares é um homem do sistema, foi o presidente da CMVM que autorizou o aumento de capital do BES nas vésperas da sua derrocada, apesar de informado da situação do banco pelo seu auditor (KPMG). Autorizou a emissão das UP’s da CEMG, uma fraude que lesou os mutualistas e clientes do banco denunciada pelos media e o levou, mais tarde, a “arrepender-se”.

“Chairman” do BM há três anos, a pegada histórica que marca a sua liderança, após ter gasto seis milhões na concepção dum Plano de Transformação para o banco, foi a criação do Banco de Empresas Montepio, um projecto pessoal obscuro e contestado, e a abertura de sete balcões “low cost”, que não têm actividade.

Virgílio Lima é presidente da mutualista – a dona do grupo – por acidente, na sequência da saída forçada de Tomás Correia por falta de idoneidade. É um cinzento e soturno quadro da casa que entediava a reunião anual de quadros com as suas monótonas exposições.

A sua carreira de administrador iniciou-se com a presidência de Tomás Correia, em 2008, na Caixa Económica de Cabo Verde, no ano em que desapareceu dos balanços da CEMG e da AMMG sem deixar rasto, não se sabendo o paradeiro do dinheiro da venda. Seguiu-se a nomeação para a Lusitânia, que recebia o cancro Real Seguros que a viria a afundar, e abraçava o cartel dos seguros, que VL desconheceu durante os oito anos em que foi administrador.

No seu curriculum encontramos, ainda, a Credint e a N Seguros, extintas após acumulação de prejuízos. Um curriculum que gerou prejuízos que ultrapassam os 211 milhões. É o presidente da Montepio Gestão de Activos, desde 2015, que passou a acumular prejuízos nos últimos anos que vão, agora, contaminar a bem gerida Montepio Valor, absorvida na fusão que Virgílio Lima decidiu para esconder o seu mau desempenho. Não, Virgílio Lima e Carlos Tavares não são os homens do momentum. São mais do mesmo com a cassete do “tudo bem”, e das dificuldades serem “invenções dos que não gostam do Montepio”, com a validade expirada.

Não obstante a negação do que é evidente, reinvindicam mais tolerância e menos rigor ao auditor, aos supervisores, à tutela e aos jornalistas, que “não sabem o que é o mutualismo” nem entendem a sua “finalidade não lucrativa”, a que não se pode aplicar as regras e normas da gestão sã e prudente das empresas privadas ou públicas.

Ponhamos os pontos nos is. Em primeiro lugar, as mutualistas concorrem com as entidades prestadoras dos mesmos serviços, subordinados às mesmas normas e garantias que protegem os consumidores. Acresce que as mutualistas beneficiam de isenções fiscais e subsídios estatais diversos, uma vantagem face aos concorrentes privados. Por fim, porque o lucro é a manifestação da boa gestão das mutualistas e destina-se a reforçar a sustentabilidade das associações, a ser distribuído pelos seus associados e para recompensar os seus trabalhadores. Foi neste ideário que o Montepio se fez grande, com Costa Leal, que teve o mérito de libertar a criatividade interna.

A tolerância que os “tomasistas” reclamam não é para o mutualismo, mas para a sua gestão, onde os seus interesses pessoais se sobrepuseram aos da instituição. Reivindicam, à ASF, rácios de solvência inferiores aos da concorrência, mas destruíram milhares de milhões de capital, na última década. Evocam a finalidade não lucrativa do mutualismo, mas continuam a gastar, anualmente, muitas dezenas de milhões com o “status” sumptuoso de administradores e directores, sem correspondência nos seus desempenhos e indiferentes ao descalabro da instituição. E têm gasto centenas de milhões para se manterem no poder (e impedirem o escrutínio das auditorias) desde a OPA ao Finibanco, ao não terem promovido o ajustamento que permitiria sinergias de 180 milhões, em 18 meses, conforme tinham anunciado, um processo doloroso que afectaria a sua “popularidade” – estima-se em quatrocentos, o número de trabalhadores e directores excedentários desde então.

Em nome do rigor e da justiça, impõe-se o reconhecimento de que no deserto actual do Montepio persistem oásis de boa gestão: Lusitânia Vida, Futuro, Montepio Crédito, Montepio Valor, Montepio Gestão Activos SGFI, Silvip. Nos 54 anos que acompanho o Montepio, concluí que o normal da acção directiva é o acomodamento que descamba em crises e rupturas funcionais. Crises que originam ciclos criativos, protagonizados por quadros dedicados, competentes e mobilizadores, que acabam escorraçados da instituição logo que a inovação de é assimilada, num regresso à mediocridade (a engª. Isabel Ferreira, a mãe e o pai do maior salto de modernidade operativa que o Montepio conheceu, é um dos maiores exemplos). O Montepio dos jogos de poder não tem tradição de estimar os seus melhores quadros.

O Montepio está no cume da navalha e nunca dependeu tanto de quem o representa como no presente. Vai resistir à doença e sobreviver, ou a contaminação vai prosseguir até ao colapso final?

O presente no poder é a doença em si mesma e a sua continuidade tem desfecho anunciado. O presente fora do poder precisa de ir além das provas de vida periódicas a alertar os que estão alertados há muito. A complexidade da situação requer soluções e caminhos que só o conhecimento, a competência, a decência e o espírito de missão, que a instituição tem dentro de si, permitirão descortinar, na defesa dos mutualistas e do mutualismo, e no respeito pela longeva história da instituição. Soluções desenhadas em estiradores de corte e costura fora do Montepio, serão desalmadas, possivelmente ditadas por apetites salivantes, por mais juras de amor e boas intenções que as adornem. O momentum é de um novo ciclo criativo que revitalize “os valores que duram sempre” que o sangue novo dos seus melhores é capaz.

  • João Simeão
  • Antigo diretor adjunto do Montepio

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