O céu de chocolate de António Costa

O último orçamento de António Costa antes das legislativas não pode ser uma festa. Mas também não podia ser uma noite escura. Vai daí, o primeiro-ministro decidiu distribuir bombons

Esta noite, mesmo antes de ir ouvir a entrevista de António Costa à TVI, as minhas filhas pediram-me que lhes contasse de novo a história do “Céu de Chocolate” do José Jorge Letria. O conto é uma delícia – e não é por ser de chocolate. O que eu não adivinhava era, que durante aquela hora e meia de entrevista sobre o próximo Orçamento do Estado, me lembrasse tantas vezes daquele céu que lhes descrevi antes de elas adormecerem.

Para que possa perceber porquê, deixo-lhe a história que se lê num instante:

“Era uma vez um país distante e quase desconhecido que tinha um céu feito todo de chocolate. O céu era espesso e muito doce e representava um problema para os habitantes desse país, porque não os deixava ver o sol, a lua e as estrelas, no pano escuro e luminoso das noites.

As pessoas gostavam muito da doçura do céu de chocolate, mas viviam tristes e cabisbaixas, por terem aquela imensa massa castanha sempre em cima das suas cabeças.

Dando-se conta da tristeza dos habitantes de quem tanto gostava, o céu pediu ao sol para enviar raios mais fortes e vendo esse pedido satisfeito começou a derreter-se lentamente.

Sobre as cabeças daqueles que, tristes e desiludidos, já começavam a pensar em partir de vez, começaram a cair pequenos pedaços de chocolate, ao mesmo que tempo que, lá no alto, se avistava já o rosto radioso do sol….

E foi assim… que nasceram os bombons”.

O último orçamento de António Costa antes das legislativas não pode ser uma festa. Mas também não podia ser uma noite escura. Vai daí, o primeiro-ministro decidiu distribuir bombons: não terá bem o impacto de um grande bolo de chocolate, mas adoça a boca e dá para distribuir melhor por todos os convidados.

Na entrevista desta noite à TVI, deu para medir melhor o Orçamento que vem aí, negociado com os parceiros de governação:

  • O IVA da eletricidade não pode descer para os 6%, mas o Governo promete “reduzir os encargos financeiros das famílias” de outra maneira, na conta que lhes chegará a casa;
  • Os transportes públicos não vão ter uma revolução, mas o Governo vai dar-nos o passe único, que reduz os custos para os milhões que habitam as duas grandes áreas metropolitanas;
  • O IRS não tem como descer muito mais, mas sempre virá “uma segunda fase” da aplicação dos novos escalões e uma subida do mínimo de existência social, de onde resulta que “mais famílias vão ter alívio de IRS”;
  • As pensões não vão poder subir tanto como nos últimos anos, mas “a boa notícia” é sobem já em Janeiro, “0,5% acima da inflação para 68% das famílias”;
  • Aos funcionários públicos não sairá a sorte grande, mas “há uma margem para negociar” que permite que também “faça parte desta melhoria de rendimentos que aconteceu para todos os portugueses”. Pelos vistos dá 5 euros a cada um, se for para todos.

Para lista não está mal, porque se distribui um bocadinho por tanta gente que todos terão alguma coisa a ganhar. Para a oposição parecerá tudo tão poucochinho que dificilmente poderão dizer que isto dos bombons é só por causa das eleições. Enfim, pelo menos são bombons, não são frigoríficos, certo?

Mais ou menos. Porque o ano orçamental continua a correr bem e o Governo tinha sempre duas opções para 2019: aproveitar a margem que ganhará (1,5 mil milhões de euros só com a redução do desemprego, mais um tanto com os juros) e baixar um pouco mais o défice e na dívida; ou aproveitar cada euro até ao último cêntimo e fazer o milagre da distribuição dos bombons, adoçando um pouco a boca de cada tipo de eleitor. António Costa, pelo que ouvimos ontem, preferiu a segunda.

Verdade seja dita, também haveria uma terceira opção: era distribuir não bombons, mas bolos de chocolate por toda a gente, como antes vimos outros fazer. Mas precisamente porque já o vimos antes, também já sabemos qual é o sabor do céu a cair-nos sobre as cabeças – ainda que seja de chocolate.

É provavelmente por isso que, chegando o momento de votar o Orçamento, ninguém se queixará dele. Nem Rui Rio. Mas vá, só faltam 12 meses para as próximas legislativas.

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